
Prometida a Um, Entregue a Outro
Capítulo 2
Elara passou a noite em claro.
O quarto que ocupava desde a adolescência parecia menor, sufocante. As paredes claras, os móveis delicados, tudo ali carregava lembranças demais. Cada canto tinha um pedaço da menina que acreditou em promessas que nunca foram feitas.
Ela não chorava mais. As lágrimas haviam secado em algum ponto da madrugada, substituídas por um vazio estranho, quase anestésico. O que doía não era apenas o que Noah dissera, mas a naturalidade cruel com que ele a descartara. Como se ela nunca tivesse sido nada além de um hábito confortável.
Ao amanhecer, Elara se levantou, lavou o rosto e se olhou no espelho.
Reconheceu ali uma mulher que precisava reaprender a existir.
Vestiu-se com simplicidade e desceu para o café da manhã. A mansão estava silenciosa demais para um lugar que abrigava tantos segredos. Alguns empregados circulavam discretos, como sombras treinadas para não ouvir nem ver demais.
Ela estava prestes a se servir quando ouviu a voz firme que fez seus ombros enrijecerem.
- Elara.
Edric Vireaux estava sentado à cabeceira da mesa principal.
O patriarca da família raramente aparecia fora de reuniões formais ou eventos estratégicos. Alto, cabelos grisalhos perfeitamente alinhados, olhar calculado. Um homem acostumado a decidir destinos com poucas palavras.
- Bom dia, senhor - respondeu ela, educada.
- Sente-se - pediu, sem levantar a voz.
Ela obedeceu.
Edric a observou por alguns segundos. Seus olhos não eram frios, mas eram afiados. Nada escapava àquele homem.
- Você parece cansada - comentou.
- Foi uma noite difícil.
Ele assentiu lentamente, como se já soubesse.
- Imagino.
O silêncio se instalou entre eles. Não era constrangedor, mas pesado. Elara sentiu o estômago apertar. Tinha a estranha sensação de estar sendo avaliada, medida, colocada em uma balança invisível.
- Elara - começou Edric -, você cresceu nesta casa. Sempre foi tratada com respeito. Sempre honrou o nome que carrega, mesmo não sendo um Vireaux.
Ela engoliu em seco.
- Sou grata por tudo - respondeu, sincera.
- Eu sei. E justamente por isso, não posso fingir que não vejo o que acontece diante dos meus olhos.
Elara ergueu o olhar.
- O que o senhor quer dizer?
Edric apoiou as mãos sobre a mesa.
- Me refiro a Noah.
O nome dele ainda doía como uma ferida aberta.
- Não é necessário - disse ela, rapidamente. - O que quer que tenha acontecido... eu lido com isso.
- Não duvido - respondeu Edric. - Mas decisões tomadas por impulso nem sempre são as mais sábias. E Noah... - fez uma pausa breve - nunca foi cuidadoso com aquilo que não teme perder.
Elara permaneceu em silêncio.
- Você não pertence à margem desta família - continuou ele. - Nunca pertenceu. Apenas nunca percebeu isso.
Ela franziu a testa.
- Senhor, eu não entendo.
Edric se levantou. Caminhou até a janela, observando os jardins ainda cobertos pelo orvalho da manhã.
- Quando minha esposa morreu, prometi a mim mesmo que não permitiria que injustiças silenciosas se perpetuassem dentro desta casa. Você cresceu aqui. Foi moldada por este ambiente. Carrega o peso e a elegância do nome Vireaux mais do que alguns que nasceram com ele.
Ele se virou para ela.
- Por isso, farei algo que ninguém espera.
O coração de Elara começou a bater mais rápido.
- Quando completar dezoito anos - disse Edric, com firmeza -, você terá o direito de escolher com qual dos meus seis filhos deseja se casar.
O mundo pareceu parar.
- O quê? - sussurrou ela, incrédula.
- Não é uma brincadeira - afirmou ele. - Será um casamento legítimo, público, com todos os direitos que isso implica. Você deixará de ser apenas a jovem acolhida pela família. Tornar-se-á uma Vireaux.
Elara sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
- Eu... eu não posso - balbuciou. - Isso é... é impossível.
- Nada que envolve poder e estratégia é impossível - respondeu Edric. - E este casamento será tanto uma escolha sua quanto uma aliança que beneficiará a família.
Ela se levantou, nervosa.
- Todos esperariam que eu escolhesse Noah.
- Exatamente - disse Edric, com um leve arquejar de sobrancelha. - E é por isso que essa escolha precisa ser sua, não deles.
Elara respirava rápido demais.
- O senhor está me pedindo para decidir o meu futuro dessa forma?
- Estou lhe oferecendo algo que poucas mulheres teriam coragem de recusar - respondeu ele. - Um lugar definitivo. Uma voz. Um destino.
Ela fechou os olhos por um instante.
Noah.
As palavras dele ecoaram com crueldade.
Diversão passageira.
Quando voltou a abrir os olhos, algo havia se endurecido dentro dela.
- Eu não darei uma resposta agora - disse, com firmeza contida. - Preciso pensar.
Edric assentiu.
- Claro. O tempo é seu. Mas saiba de uma coisa, Elara: esta proposta não é apenas sobre casamento. É sobre quem você decide ser a partir de agora.
Ela saiu da sala sentindo o corpo trêmulo.
No corredor, vozes vinham da escada principal. Risadas masculinas. Noah descia acompanhado de dois irmãos, despreocupado, bonito, intacto. Ele a viu. Sorriu.
- Bom dia, Elara.
Ela o encarou por um segundo que pareceu longo demais.
- Bom dia - respondeu, fria.
Passou por ele sem diminuir o passo.
Noah franziu a testa, confuso.
Do outro lado do salão, Lucien observava tudo em silêncio.
Seus olhos encontraram os dela por um breve instante. Não havia curiosidade ali. Havia atenção. Como se ele soubesse que algo havia sido colocado em movimento.
Elara subiu as escadas com o coração em guerra.
Ela ainda não sabia qual seria sua escolha.
Mas tinha certeza de uma coisa.
Nunca mais seria apenas uma distração.
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