
Prometida a Um, Entregue a Outro
Capítulo 3
Os dias seguintes passaram como se Elara estivesse vivendo dentro de uma casa que não reconhecia mais. A mansão Vireaux continuava imponente, organizada, perfeita. Mas agora ela via rachaduras onde antes enxergava segurança.
Ela mudou sem anunciar.
Não foi algo visível de imediato. Não houve confronto, nem lágrimas públicas. Apenas uma distância nova, firme, que se instalou em seus gestos. Elara passou a acordar mais cedo, a ocupar menos espaço, a falar apenas o necessário. Observava mais do que respondia.
E isso incomodou.
Noah percebeu primeiro.
Ele tentou falar com ela no corredor, no jardim, durante o café. Sempre recebia respostas educadas, breves, quase formais. Nada do sorriso fácil. Nada do olhar que o seguia.
- Você está estranha - disse ele, certa tarde, enquanto caminhavam pelo jardim interno.
Elara parou.
- Estranha não - respondeu. - Apenas cansada de ser previsível.
Noah franziu a testa.
- Eu fiz alguma coisa?
Ela o encarou por um segundo longo demais.
- Fez - disse. - Mas não se preocupe. Já passou.
E seguiu em frente, deixando-o parado, confuso, com uma sensação incômoda que ele não sabia nomear.
Lucien, por outro lado, não perguntava.
Ele observava.
Do escritório envidraçado no segundo andar, via Elara atravessar os jardins com passos firmes, postura ereta, como alguém que havia decidido não se curvar mais. Havia algo novo nela. Algo que despertava sua atenção de forma silenciosa, quase perigosa.
Lucien sempre fora um homem de controle.
Controlava horários, decisões, emoções. Não permitia excessos. Não criava vínculos desnecessários. Sua vida era organizada como as planilhas que revisava diariamente. Previsível. Impecável.
Elara não fazia parte de seus cálculos.
Ou pelo menos não fazia.
Até aquela tarde.
Ela fora chamada ao escritório do patriarca novamente. Edric desejava esclarecer detalhes da proposta. Elara entrou com passos firmes, o que não passou despercebido.
Lucien estava lá.
Sentado à mesa lateral, revisando documentos. Ao erguer os olhos, encontrou os dela. Não houve sorriso. Apenas um reconhecimento silencioso.
- Sente-se, Elara - disse Edric. - Precisamos falar sobre prazos.
Ela obedeceu, tentando ignorar a presença de Lucien, mas sentia o olhar dele como um peso constante, atento, quase protetor.
- A escolha não será anunciada imediatamente - explicou Edric. - Quero que tenha tempo para amadurecer sua decisão. Mas saiba que todos saberão, em breve, que você tem esse direito.
Elara assentiu.
- Entendo.
- Os rumores já começaram - continuou ele. - E isso traz consequências. Você passará a ser observada. Avaliada.
Lucien fechou a pasta que tinha em mãos.
- Não permitirão que ela seja tratada como moeda de especulação - disse, com voz baixa, firme.
Edric ergueu uma sobrancelha.
- Está se oferecendo como guardião agora, Lucien?
- Estou afirmando um limite - respondeu ele. - Elara sempre foi respeitada nesta casa. Isso não muda.
Ela sentiu o coração bater mais rápido.
Não pelo tom possessivo. Mas pela naturalidade com que ele se posicionara.
Edric observou os dois por um instante e assentiu.
- Muito bem. Pode ir, Elara.
Ela se levantou.
- Obrigada, senhor.
Ao sair, sentiu passos atrás de si.
- Elara.
Ela se virou. Lucien estava parado a poucos metros, as mãos nos bolsos, o olhar sério.
- Precisa de algo? - perguntou ela.
- Apenas... um conselho - disse ele. - Não se deixe pressionar por expectativas alheias. A escolha é sua. E deve servir a você antes de qualquer outro.
Ela respirou fundo.
- O senhor não acha estranho me aconselhar sobre isso?
Lucien inclinou levemente a cabeça.
- Acho necessário.
Houve um silêncio breve. Denso.
- Obrigada - disse ela, por fim.
- Disponha.
Ele a observou se afastar, sentindo algo raro se formar em seu peito. Não era desejo. Não ainda. Era respeito. Interesse. Cuidado.
Naquela noite, Elara permaneceu acordada, sentada à beira da cama.
Pensou em Noah. Na leveza que sempre a atraíra. No riso fácil. Na imprudência.
Pensou em Lucien. No silêncio firme. Na presença constante. No modo como ele parecia enxergar além do que ela mostrava.
Ela ainda não sabia qual seria sua escolha.
Mas considerava que talvez o amor não fosse barulho.
Talvez fosse permanência.
E, em algum ponto da mansão, Lucien também não dormia.
Porque, sem perceber, aquela escolha que não era sua começava a importar demais.
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