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Capa do romance Peça-me oque Quiser

Peça-me oque Quiser

Com a morte do pai, o empresário Eric Zimmerman viaja à Espanha para gerir as filiais da Müller. Em Madri, ele se encanta por Judith, uma funcionária sagaz que logo cede ao seu magnetismo. Juntos, mergulham em um universo de fantasias eróticas, explorando o voyeurismo e as dinâmicas de poder entre dominantes e submissos. No entanto, conforme a paixão cresce, Eric teme que um segredo obscuro venha à tona, ameaçando destruir o intenso laço que os une.
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Capítulo 2

No dia seguinte, quando chego ao escritório, todos parecem felizes. Cruzo com Miguel e

não posso deixar de sorrir. Ele e a chefe. Se eles soubessem que os vi... Mas, como não

quero pensar nisso, vou até minha mesa e, enquanto ligo o computador, vejo que ele

vem vindo.

— Bom dia, Judith.

— Bom dia.

Miguel, além de ser meu colega, é um sujeito muito simpático. Desde meu primeiro

dia no escritório, ele tem sido um amor comigo e nos damos muito bem. Quase todas no

trabalho babam por ele, mas, não sei por quê, em mim ele não surte o mesmo efeito.

Será que não gosto dos caras meiguinhos e sorridentes? Mas, claro, agora, sabendo o

que sei e tendo visto como é bem-dotado, não posso deixar de olhá-lo de outra forma

enquanto tento não gritar: “Garanhão!”

— Está sabendo que hoje à tarde tem reunião geral?

— Aham.

Como era de se esperar, ele sorri, segura meu braço e diz:

— Vem, vamos tomar um café. Sei que você adora um cafezinho e uma torrada da

cafeteria.

Sorrio também. Como me conhece, esse desgraçado... Além de simpático e gato, o

cara não deixa passar uma. Isso, somado a seu sorriso constante, é o grande atrativo de

Miguel. Sempre gentil. É assim que ele enrola todas na conversa.

Quando chegamos à cafeteria do nono andar, vamos ao balcão, fazemos os pedidos e

nos dirigimos à nossa mesa. Digo “nossa mesa” porque sempre sentamos ali. Paco e Raul

se juntam a nós. Um casalzinho gay com o qual me dou muito bem. Como sempre, me

dão um beijinho no pescoço e me fazem rir. Começamos a conversar e eu logo me

lembro do que vi na noite anterior no estacionamento. Miguel e a chefe! Que trepada

insana, e bem na minha frente. Que menino-prodígio, esse meu colega!

— O que houve? Você parece distraída — pergunta Miguel.

Sua abordagem me desperta. Olho para ele e respondo, tentando esquecer as

imagens que surgiam na minha mente:

— Estou meio fora do ar, eu sei. Meu gato está cada dia mais fraquinho e...

— Que pena, o Trampinho — murmura Paco, e Raul faz uma cara compreensiva.

— Ah, sinto muito, querida — responde Miguel, enquanto segura minha mão.

Por alguns instantes conversamos sobre meu gato e isso me deixa ainda mais triste.

Adoro o Trampo e, inevitavelmente, a cada dia que passa, cada hora, cada minuto, seu

tempo de vida diminui. É algo que aprendi a admitir desde que o veterinário me alertou,

mas ainda assim me dói. Me dói muito.

Logo minha chefe chega, rodeada por vários homens, como sempre. É uma galinha!

Miguel a vê e sorri. Eu fico quieta. Minha chefe é uma mulher muito atraente. Cá entre

nós, uma cinquentona poderosa, uma morena cheia de si, solteira mas não solitária, e

que dizem ter vários casos na empresa. Cuida-se como ninguém e vai todo dia à

academia. Ou seja, ela gosta... que gostem dela.

— Judith — me interrompe Miguel. — Falta muito?

Volto a mim e deixo de olhar minha chefe para olhar meu café da manhã. Bebo um

gole de café e respondo:

— Terminei!

Nós quatro nos levantamos e saímos da cafeteria. Temos de começar a trabalhar.

Uma hora mais tarde, após tirar umas cópias e finalizar um documento, me dirijo à

sala da minha chefe. Bato na porta e entro.

— Aqui está o contrato pronto para a sucursal de Albacete.

— Obrigada — responde secamente enquanto passa os olhos pelo documento.

Como de hábito, fico parada diante dela à espera de suas ordens. O cabelo da minha

chefe é lindo, tão ondulado, tão cuidado. Nada a ver com meu cabelo castanho e liso que

costumo prender num coque no alto da cabeça. O telefone toca e antes que ela me olhe

eu atendo.

— Sala da senhora Mónica Sánchez. Quem fala é a secretária, senhorita Flores. Em que

posso ajudá-lo?

— Bom dia, senhorita Flores — responde uma voz profunda de homem com leve

sotaque estrangeiro. — Aqui é Eric Zimmerman. Eu gostaria de falar com sua chefe.

Ao reconhecer aquele nome, reajo depressa.

— Um momento, senhor Zimmerman.

Minha chefe, ao escutar aquele sobrenome, larga os papéis que até então segurava e,

após literalmente arrancar o telefone das minhas mãos, diz com um sorriso encantador

nos lábios:

— Eric... que bom você ter ligado! — Depois de um breve silêncio, continua: — Claro,

claro. Ah! Mas você já chegou a Madri?... — Então solta uma gargalhada superfalsa e

sussurra: — Claro, Eric. Te espero às duas na recepção pra almoçar.

E, após dizer isso, desliga e olha para mim.

— Marque um horário pra mim no cabeleireiro para dentro de meia hora. Depois, uma

reserva pra dois no restaurante da Gemma.

Dito e feito. Cinco minutos mais tarde, ela sai voando do escritório e volta uma hora e

meia depois com seu cabelo mais brilhante e bonito e com a maquiagem retocada. Às

13h45, vejo Miguel batendo na sua porta e entrando. Olha isso! Não quero nem pensar

no que estarão fazendo. Passados cinco minutos, ouço gargalhadas. Às 13h55, a porta se

abre, os dois saem e minha chefe vem falar comigo.

— Judith, você já pode ir almoçar. E lembre-se: estarei com o senhor Zimmerman. Se

às cinco eu não tiver voltado e você precisar de qualquer coisa, ligue pro meu celular.

Quando a bruxa má e Miguel vão embora, eu enfim respiro aliviada. Solto o cabelo e

tiro os óculos. Depois pego minhas coisas e caminho até o elevador. Meu escritório fica

no 17º andar. O elevador para em vários andares para pegar outros funcionários, e com

isso ele sempre demora a chegar ao térreo. De repente, entre o quinto e o sexto andar, o

elevador dá um tranco e para completamente. As luzes de emergência se acendem, e

Manuela, do almoxarifado, começa a gritar.

— Ai, minha Nossa Senhora! O que está acontecendo?

— Fique calma — respondo. — Acabou a luz, mas com certeza vai voltar daqui a

pouco.

— E vai demorar quanto?

— Não sei, Manuela. Mas, se você ficar nervosa, vai se sentir mal aqui dentro e esse

tempo vai parecer uma eternidade. Então respire fundo e você vai ver como a luz volta

num piscar de olhos.

Mas, vinte minutos depois, a luz ainda não tinha voltado, e Manuela, com várias

meninas da contabilidade, entra em pânico. Percebo que tenho de fazer alguma coisa.

Vejamos. Não gosto nada de estar presa num elevador. Fico agoniada e começo a

suar. Se eu entrar em pânico, vai ser pior, então decido buscar soluções. Primeiro, junto o

cabelo na nuca e prendo com uma caneta. Depois passo minha garrafinha d’água para

Manuela beber e tento brincar com as meninas da contabilidade enquanto distribuo

chicletes de morango. Mas meu calor vai aumentando, então tiro um leque da minha

bolsa e começo a me abanar. Que calor!

Nesse momento, um dos homens que estavam apoiados num canto do elevador fica

mais perto de mim e me segura pelo cotovelo.

— Você está bem?

Sem olhar para ele e sem deixar de me abanar, respondo:

— Uf! Quer que eu minta ou diga a verdade?

— Prefiro a verdade.

Achando graça, me viro em sua direção e, de repente, meu nariz roça contra um

casaco cinza. Cheira muito bem. Perfume caro.

Mas o que ele faz tão perto de mim?

Imediatamente dou um passo pra trás e fixo o olhar nele pra ver quem é. Devo logo

dizer que é alto — eu chego apenas à altura do nó da gravata. Também tem cabelo

castanho, beirando o louro, é jovem e de olhos claros. Não me lembra ninguém, e, ao

perceber que ele me observa à espera de uma resposta, eu cochicho para que só ele

possa ouvir:

— Cá entre nós, jamais gostei de elevadores e, se as portas não se abrirem logo, vou

ter um troço e...

— Um troço?

— Aham.

— O que é “ter um troço”?

— Isso, na minha língua, significa perder a compostura e ficar louca — respondo, sem

parar de me abanar. — Pode acreditar. Você não ia gostar de me ver nessa situação.

Inclusive, se eu não tomo cuidado, solto espuma pela boca e minha cabeça gira como a

da menina de O exorcista. É um espetáculo e tanto! — Meu nervosismo aumenta e eu lhe

pergunto, numa tentativa de me acalmar: — Quer um chiclete de morango?

— Obrigado — responde ele e pega um.

Mas o engraçado é que ele abre e coloca o chiclete na minha boca. Aceito, surpresa, e,

sem saber por quê, abro outro chiclete e faço a operação inversa. Ele, divertindo-se,

também aceita.

Olho para Manuela e para as outras. Continuam histéricas, suadas e pálidas. Então,

decidida a não deixar minha própria histeria aumentar, tento puxar conversa com o

desconhecido.

— Você é da empresa?

— Não.

O elevador se move e todas começam a gritar. Eu não fico atrás. Seguro no braço do

homem e torço a manga de sua camisa. Quando volto a mim, eu o solto em seguida.

— Perdão... perdão — me desculpo.

— Fique calma, não foi nada.

Mas não consigo ficar calma. Como vou ficar calma presa num elevador? De repente

sinto uma coceira no pescoço. Abro minha bolsa e tiro um espelhinho da nécessaire. Me

observo nele e começo a xingar.

— Merda, merda! Estou me enchendo de brotoejas!

Percebo que o homem me olha com espanto. Afasto o cabelo do pescoço e mostro a

ele.

— Quando fico nervosa, minha pele se enche de brotoejas, está vendo?

Ele faz que sim e eu me coço.

— Não — diz, segurando minha mão. — Se você fizer isso, vai piorar.

E sem pensar duas vezes se inclina e sopra meu pescoço. Ai, Deus! Como ele é

cheiroso e como é gostoso sentir esse ventinho! Dois segundos mais tarde, me vejo

caindo no ridículo ao soltar um pequeno gemido.

O que estou fazendo?

Tapo o pescoço e tento desviar o assunto.

— Tenho duas horas para almoçar e, como ainda estamos aqui, hoje não almoço!

— Suponho que seu chefe entenderá a situação e te deixará chegar um pouco mais

tarde.

Isso me faz sorrir. Ele não conhece minha chefe.

— Acho que você supõe demais. — Cheia de curiosidade, digo: — Pelo sotaque você

é...

— Alemão.

Não me espanta. Minha empresa é alemã, e gringos como aquele aparecem todos os

dias por aqui. Mas, sem conseguir evitar, eu o olho com um sorrisinho malicioso.

— Boa sorte na Eurocopa!

Com expressão séria, ele dá de ombros.

— Não me interesso por futebol.

— Não?

— Não.

Surpresa com o fato de um cara, um alemão, não gostar de futebol, me encho de

orgulho ao pensar na nossa seleção e sussurro para mim mesma:

— Pois você não sabe o que está perdendo.

Calmamente ele parece ler meus pensamentos e se aproxima de novo de minha

orelha, provocando-me arrepios.

— De qualquer forma, ganhando ou perdendo, aceitaremos o resultado — ele me

sussurra.

Ao dizer isso, dá um passo atrás e volta a seu lugar.

Será que meu comentário o irritou?

Eu o imito e viro pro lado para não ter de vê-lo. Olho no relógio: 14h15. Merda! Já

perdi 45 minutos do meu almoço e não dá mais tempo de chegar ao Vips. Com a vontade

que eu tinha de comer um Vips Club... Enfim! Vou parar no bar de Almudena e engolir um

sanduíche. Não tenho tempo para mais nada.

Logo as luzes se acendem, o elevador retoma seu movimento e todos nós aplaudimos.

E eu sou a primeira!

Movida pela curiosidade, volto a olhar para o desconhecido que se preocupou comigo e

vejo que ele continua me observando. Uau, com as luzes acesas ele é ainda mais alto e

mais sexy!

Quando o elevador chega ao térreo e as portas se abrem, Manuela e as moças da

contabilidade saem como cavalos desenfreados entre gritinhos e gestos de histeria.

Como me alegro por não ser assim. A verdade é que sou meio moleca. Meu pai me criou

desse jeito. Porém, quando saio, me vejo diante da minha chefe.

— Eric, pelo amor de Deus! — eu a ouço dizer. — Quando desci para te encontrar e

irmos almoçar e recebi seu Whatsapp avisando que você estava preso no elevador, quase

morri! Que angústia! Você está bem?

— Estou ótimo — responde a voz do homem que falou comigo apenas uns momentos

antes.

Na hora minha cabeça rebobina. Eric. Almoço. Chefe. Eric Zimmerman, o chefão, foi a

ele que eu disse que sou como a menina de O exorcista e em quem enfiei um chiclete de

morango na boca? Fico vermelha como um tomate e me recuso a olhá-lo na cara.

Meu Deus! Como sou ridícula!

Gostaria de escapar daqui o quanto antes, mas então sinto que alguém me segura

pelo cotovelo.

— Obrigado pelo chiclete... senhorita?

— Judith — responde minha chefe. — Ela é minha secretária.

O agora identificado como senhor Eric Zimmerman faz que sim com a cabeça e, sem se

importar com a expressão no rosto da minha chefe, porque não olha para ela mas para

mim, diz:

— Então é a senhorita Judith Flores, certo?

— Sim — respondo como uma boba. Como uma idiota completa!

Minha chefe, que fica entediada quando não é a protagonista do momento, o agarra

possessivamente pelo braço, puxando-o.

— Que tal irmos almoçar, Eric? Já está supertarde!

Sentindo que eles vão embora, levanto a cabeça e sorrio. Instantes depois, aquele

homem incrível de olhos claros se afasta, embora, antes de passar pela porta, se vire e

me olhe. Quando por fim desaparece, suspiro e penso: “Por que não fiquei quietinha no

elevador?”

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