
Peão Descartável
Capítulo 2
A umidade do ar quente depois do banho grudava na minha pele, e um calafrio percorreu meu corpo, apesar do calor do quarto. Heitor estava deitado na cama, mexendo no celular com uma expressão relaxada, como se nada fora do comum tivesse acontecido.
Mas para mim, tudo estava diferente.
"Heitor", eu chamei, minha voz um pouco trêmula. "Nós... nós não usamos proteção."
Ele nem tirou os olhos da tela do celular. A luz do aparelho iluminava seu rosto bonito, mas a indiferença em seus traços me causou um aperto no estômago.
"E daí?", ele respondeu, com um tom de quem espanta uma mosca.
"E daí? Heitor, e se acontecer alguma coisa? Eu... eu não posso engravidar agora." O pânico começou a subir pela minha garganta, um gosto amargo na boca. Eu ainda estava na faculdade, meus planos, meu futuro, tudo parecia de repente frágil e em risco.
Ele finalmente baixou o celular e me olhou, mas não havia preocupação em seus olhos, apenas um tédio irritado.
"Relaxa, Sofia. Não vai acontecer nada", ele disse, sua voz cheia de uma confiança que me assustava. "E se acontecer, a gente resolve. Não faz drama por nada."
Ele se virou de costas para mim, encerrando a conversa. O gesto foi tão definitivo, tão cheio de desprezo pela minha preocupação, que eu me senti pequena e estúpida. O ar no quarto ficou pesado, e o silêncio dele era mais alto do que qualquer grito. Eu me encolhi na beirada da cama, sentindo o frio se instalar dentro de mim.
Não consegui dormir. A ansiedade era uma criatura viva se revirando no meu peito. Horas depois, quando a respiração de Heitor ficou profunda e regular, o celular dele vibrou na mesa de cabeceira. A tela acendeu, mostrando uma mensagem de um amigo, Lucas.
Ele não se mexeu. A curiosidade e um mau pressentimento me fizeram esticar o pescoço. A mensagem estava visível na tela de bloqueio.
"E aí, conseguiu o que queria com a santinha? A Isabela tá te esperando pra resolver as coisas."
Meu coração parou por um segundo e depois começou a bater descontroladamente no peito, um tambor surdo nos meus ouvidos. Minhas mãos tremiam tanto que eu precisei apertá-las contra o lençol para me controlar. Santinha. Era assim que ele se referia a mim?
O celular de Heitor vibrou de novo. Desta vez, ele resmungou e se virou, pegando o aparelho. Ele pensou que eu estava dormindo. Com os olhos semicerrados, eu o observei responder a mensagem, a luz do celular iluminando o sorriso presunçoso em seus lábios. Ele começou a digitar, e eu pude ler cada palavra.
"Claro que consegui. Ela é ingênua, caiu direitinho. Fiz o que a Isabela pediu. Agora a gente pode voltar sem culpa. A Sofia vai ficar na dela, com medo do que eu posso fazer."
Cada letra era um golpe. Ele não estava comigo porque gostava de mim. Ele estava me usando. Usando meu corpo e meus sentimentos como uma peça em um jogo doentio com a ex-namorada dele, Isabela. A humilhação me atingiu com a força de um soco no estômago, me deixando sem ar.
Eu não era nada para ele. Eu era um objeto, uma ferramenta, uma aposta ganha. A preocupação que eu senti, o pânico sobre uma possível gravidez, tudo aquilo que me tirou o sono era motivo de piada para ele. A dor da traição era tão intensa que parecia física, queimando por dentro.
Eu me levantei da cama em silêncio, meus movimentos rígidos e mecânicos. Peguei minhas roupas no chão, o tecido frio contra a minha pele quente de vergonha e raiva. Eu precisava sair dali.
Enquanto me vestia no escuro, uma clareza gelada tomou conta de mim. Eu não podia deixar isso passar. A primeira coisa era a minha saúde. Eu precisava tomar uma pílula do dia seguinte, e precisava ser rápido.
Vesti meus sapatos, peguei minha bolsa e saí do apartamento dele sem fazer barulho. Na rua fria da madrugada, o ar gelado no meu rosto foi um choque bem-vindo. Andei até a farmácia 24 horas a alguns quarteirões de distância, a cabeça latejando com a conversa que eu tinha lido.
Com a caixa do remédio na mão, a urgência se transformou em uma decisão firme. Eu não podia mais ficar aqui. Eu não podia mais olhar para o rosto de Heitor. Eu precisava de distância, precisava de um novo começo, longe de toda essa sujeira.
Sentei em um banco na rua deserta e peguei meu celular. Disquei o número do meu pai. Ele atendeu no segundo toque, a voz sonolenta, mas imediatamente alerta quando ouviu meu tom.
"Pai?", minha voz falhou. "Eu preciso de ajuda."
"Sofia? O que aconteceu? Você está bem?"
Eu respirei fundo, tentando controlar as lágrimas. "Pai, eu quero ir embora. Lembra daquele intercâmbio de medicina na Europa que o senhor mencionou? Eu quero ir. O mais rápido possível."
Houve um silêncio do outro lado da linha, e eu pude imaginá-lo sentando na cama, a preocupação tomando conta de seu rosto. Ele não fez perguntas sobre o motivo, não me pressionou. Ele apenas me ofereceu o apoio que eu precisava desesperadamente.
"Claro, filha. Claro que sim. Eu vou resolver tudo", ele disse, a voz firme e cheia de segurança. "Vou ligar para a universidade parceira amanhã de manhã. Em uma semana, no máximo duas, você estará em um avião."
"Obrigada, pai. Obrigada de verdade."
"Não precisa agradecer, Sofia. Apenas se cuide. Onde você está? Quer que eu vá te buscar?"
"Não precisa, pai. Eu estou bem. Eu só... precisava ouvir sua voz."
Desliguei o telefone e senti um peso enorme sair dos meus ombros, substituído por uma determinação fria. Heitor achava que eu era um peão no jogo dele. Mas o jogo tinha acabado. E eu ia sair do tabuleiro.
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