
Peão Descartável
Capítulo 3
Os dias que se seguiram foram um borrão de dor silenciosa. Eu ia para a faculdade, assistia às aulas, sorria para os meus colegas, mas por dentro eu estava em ruínas. Cada rosto amigável parecia uma acusação, cada risada parecia zombar da minha ingenuidade. Eu me sentia suja, usada.
Heitor me mandava mensagens, agindo como se nada tivesse acontecido. "Onde você se meteu?", "Por que sumiu?", "Estou com saudades". Cada notificação era uma facada no meu peito já ferido. Eu ignorava todas, mas o medo de encontrá-lo no campus era constante, uma ansiedade que se manifestava em uma náusea persistente.
Meu corpo também estava reagindo ao estresse e à pílula de emergência. Eu me sentia enjoada o tempo todo, e uma dor incômoda não me deixava em paz. Era um lembrete físico constante daquela noite, da minha humilhação.
Na quarta-feira, o inevitável aconteceu. Eu estava saindo da biblioteca quando senti uma mão forte segurar meu braço. Meu corpo congelou antes mesmo de eu me virar. Era ele.
"Sofia, finalmente te achei", disse Heitor, com um sorriso que não alcançava os olhos. "Por que não está respondendo minhas mensagens?"
Ele me puxou para mais perto, bem ali, no meio do corredor lotado de estudantes. Seu toque me causou repulsa. Tentei me soltar, mas seu aperto era de ferro.
"Me solta, Heitor."
"Por que você está tão estranha? Aconteceu alguma coisa?", ele perguntou, fingindo preocupação. Ele aproximou o rosto do meu, tentando me beijar.
Eu virei o rosto, e uma onda de náusea me atingiu com força. Levei a mão à boca, sentindo um gosto azedo subir pela garganta.
"Eu não estou me sentindo bem."
Heitor franziu a testa, mas não de preocupação. Seus olhos brilharam com uma excitação doentia. Ele se inclinou e sussurrou no meu ouvido, sua voz um veneno suave.
"Não me diga que funcionou de primeira. Seria interessante. Um filho agora..."
O horror me paralisou. Ele não estava brincando. A ideia de me prender a ele daquela forma parecia agradá-lo. O pânico voltou, mais forte do que nunca.
"Você é nojento", eu consegui dizer, minha voz cheia de desprezo.
Antes que ele pudesse responder, a porta de uma sala de aula próxima se abriu com um estrondo. Um professor saiu, seguido por uma onda de alunos. O barulho repentino fez Heitor me soltar por um instante. Alguns olhares curiosos se voltaram para nós. A humilhação de ser vista naquela situação, tão vulnerável e sob o controle dele, queimou meu rosto.
Heitor não pareceu se importar com a atenção. Ele sorriu, um sorriso largo e desafiador para a plateia improvisada.
"Estamos apenas tendo uma conversa de casal", ele disse em voz alta para quem quisesse ouvir.
Eu aproveitei a distração para me afastar, meu coração batendo forte contra as costelas. Eu só queria fugir, desaparecer. Enquanto me afastava a passos rápidos, eu contava os dias mentalmente. Sete dias. Faltavam apenas sete dias para eu ir embora. Eu só precisava sobreviver por mais sete dias.
Naquela noite, ele me ligou. Eu ignorei. Então ele mandou uma mensagem.
"Esteja pronta às oito. Vamos a uma festa na casa do Lucas. E não ouse me ignorar de novo."
A mensagem era uma ordem, não um convite. Parte de mim queria se trancar no quarto e nunca mais sair. Mas outra parte sabia que desafiá-lo diretamente só pioraria as coisas. Eu precisava jogar o jogo dele, só por mais um pouco.
Quando ele chegou para me buscar, eu estava pronta, vestindo uma máscara de indiferença. A festa estava lotada, a música alta pulsando no ar. E no meio da sala, rindo com um grupo de pessoas, estava Isabela. Ela era linda, com um ar de confiança e poder que eu nunca teria. Quando ela me viu com Heitor, um sorriso sutil e vitorioso curvou seus lábios.
Mais tarde, Lucas sugeriu um jogo estúpido de "verdade ou consequência". A garrafa girou e parou em Heitor.
"Verdade ou consequência?", perguntou Lucas, com um sorriso malicioso.
"Verdade", respondeu Heitor, olhando diretamente para mim.
"É verdade que você e a Sofia se divertiram muito na outra noite? Ouvi dizer que foi... intenso."
O quarto ficou em silêncio por um momento. Todos os olhos se voltaram para mim. Senti meu rosto queimar. Heitor riu, um som alto e arrogante.
"Foi mais do que intenso. A Sofia é cheia de surpresas", ele disse, e cada palavra era uma nova camada de humilhação pública.
A garrafa girou novamente. Desta vez, parou em uma garota que eu não conhecia. Ela escolheu "consequência" e Lucas a desafiou a fazer uma pergunta para Isabela.
A garota sorriu. "Isabela, é verdade que você e o Heitor só terminaram porque a sua família não o aprova? E que você está usando a Sofia pra fazer ciúmes nele e conseguir o que quer?"
A atmosfera na sala mudou instantaneamente. O sorriso de Isabela desapareceu. Heitor, que estava relaxado e sorrindo, ficou tenso como uma corda de violino. Seus olhos escureceram, e a diversão deu lugar a uma fúria gelada. A tensão era tão espessa que podia ser cortada com uma faca. O jogo tinha acabado de se tornar perigoso.
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