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Capa do romance Oito Anos de Suas Mentiras

Oito Anos de Suas Mentiras

Durante oito anos, vivi isolada para proteger meu filho de uma alergia mortal a amendoim. Descobri, porém, que Guilherme e sua amante Beatriz forjavam a doença para manterem uma vida secreta. Fui mantida dócil com sedativos escondidos e descobri que meu casamento é uma farsa jurídica. Após ser substituída por Beatriz no hospital e ver meu filho me rejeitar, decidi abandonar esse mundo de mentiras e retomar a vida que me foi roubada por tanto tempo.
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Capítulo 2

Ponto de Vista de Kiara Valença:

Na manhã seguinte, Guilherme tentou me tocar. Sua mão alcançou meu ombro enquanto eu estava sentada à mesa da cozinha, encarando uma xícara de café frio. Eu me encolhi, como se seu toque queimasse. Ele recuou, seu rosto uma mistura de confusão e irritação.

Horas depois, o telefone tocou. Era o hospital. Lucas. Uma reação alérgica. Meu coração saltou para a garganta, um terror doentio e familiar. Dirigi até lá como uma louca, a imagem de seu rosto inchado já piscando em minha mente.

Ele estava em uma cama, ligado a monitores. Guilherme estava lá, parecendo aflito. Uma enfermeira ajustava um soro. Quando me aproximei, Lucas se mexeu, seus olhos se abrindo lentamente.

"Mamãe?", ele murmurou, a voz rouca. O alívio me inundou, tão potente que fez meus joelhos fraquejarem.

"Estou aqui, meu amor", sussurrei, pegando sua mão. Ele olhou para além de mim.

"Cadê a Bia?", ele perguntou, um gemido pequeno e infantil. "Ela me prometeu sorvete se eu fosse corajoso."

As palavras me atingiram como um golpe físico. Minha respiração engasgou. Sorvete. Uma recompensa por bravura. Ele estava pedindo por ela, mesmo aqui, mesmo agora. Meu próprio filho. Senti o último pedaço do meu coração se partir.

Uma sensação quente e ardente queimou atrás dos meus olhos. Pisquei furiosamente, forçando as lágrimas a voltarem. Não era a hora. Eu era sua mãe. Ele precisava de mim.

"Guilherme", eu disse, minha voz tensa e forçada. Entreguei a ele um pequeno caderno gasto. "Aqui tem todo o histórico médico do Lucas. Todos os gatilhos específicos, as dosagens, cada pequeno detalhe." Minha mão tremeu levemente ao passá-lo.

Ele me olhou, perplexo. "O que você está fazendo?"

"Eu cansei", afirmei, as palavras planas e finais. "Nós acabamos. Este casamento, ou seja lá o que foi, acabou."

Ele zombou, um som desdenhoso. "Kiara, não seja dramática. Você está exausta. Podemos conversar sobre isso mais tarde, em particular." Ele descartou minha dor, minha devastação, como mero teatro.

Nesse momento, a porta se abriu. Beatriz. Ela entrou, carregando um urso de pelúcia ridiculamente grande e um balão rosa brilhante. Seus olhos foram direto para Lucas.

"Oh, meu pobre super-herói!", ela arrulhou, correndo para o lado dele. Ela me empurrou gentilmente para o lado, sua presença irradiando um calor possessivo. "A Bia está aqui! Você foi tão corajoso!" Ela beijou sua testa, afastando seu cabelo.

Uma sensação gelada me percorreu. Ela estava bancando a mãe. Na minha frente. Na frente de todos.

Então ela notou minha presença. Seu sorriso vacilou, substituído por um sorriso açucarado e condescendente. "Ah, Kiara. Sinto muito. Sei que isso deve ser difícil para você. O Gui me disse que você tem andado um pouco... sensível ultimamente." Ela deu um tapinha no meu braço, um gesto de falsa simpatia.

Minhas mãos se fecharam em punhos. Eu podia sentir os olhos da enfermeira, do médico, até mesmo de Guilherme, sobre mim. Eles viam a esposa 'instável', a Kiara 'sensível'. Eles a viam como a presença carinhosa e protetora.

"Me desculpe se passei dos limites", disse Beatriz, sua voz escorrendo falsidade. "Mas o Lucas me ama tanto. Ele praticamente implora para eu vir. E eu simplesmente não consigo dizer não para aquele rostinho doce, não é?" Ela olhou para Guilherme, um triunfo dissimulado em seus olhos.

Eu não consegui responder. O ar parecia denso, sufocante. Eu precisava escapar, só por um momento. Virei-me e saí do quarto, minhas pernas parecendo chumbo.

Lá fora, no corredor estéril, encostei-me na parede, tentando recuperar o fôlego. Os últimos anos passaram diante dos meus olhos. Os invernos intermináveis sozinha, a depressão esmagadora, o monitoramento cuidadoso de cada mordida de Lucas. Tudo um palco para a vida secreta deles. Meu sacrifício, a conveniência deles.

Ouvi a porta se abrir novamente. Não me virei. Eram Guilherme e Beatriz. Suas vozes eram baixas, sussurradas.

"O Lucas está estável", disse Guilherme. "Ele quer que você fique esta noite, Bia."

"Oh, meu bem", Beatriz ronronou. "Você sabe que eu adoraria, mas a Kiara parecia bem chateada. Ela pode fazer uma cena."

Meu filho. Meu doce menino. Ele estava pedindo por ela. Não por mim.

"Por favor, Bia", a vozinha de Lucas flutuou para fora. "Fica comigo. A mamãe tá sempre triste."

Guilherme suspirou. "Ela vai ficar bem. Ela sempre fica." Ele soava irritado. Não preocupado. Irritado.

Eu era uma estranha. Um fantasma assombrando minha própria vida.

Mais tarde, uma médica saiu para falar com Guilherme. Ela perguntou sobre os gatilhos específicos de Lucas, suas reações passadas, qualquer mudança recente na medicação. Guilherme se atrapalhou, gaguejando. "Eu... eu não tenho certeza. A Kiara cuida de tudo isso." Ele parecia desamparado, incompetente.

Eu dei um passo à frente. "O gatilho principal dele é amendoim, especificamente óleos de amendoim refinados. Ele toma um anti-histamínico diário, Fexofenadina, 180mg, e carregamos duas canetas de adrenalina. A última reação grave dele foi há dois anos, por contaminação cruzada em uma festa da escola." Minha voz era firme, factual. A médica assentiu, grata. Guilherme pareceu surpreso, quase envergonhado.

Uma risada amarga borbulhou. Eles precisavam de mim para as coisas complicadas e reais. Mas queriam ela para a diversão.

Beatriz apareceu, de braços cruzados. "Bem", ela bufou, olhando para Guilherme. "Acho que vou embora então. O Lucas precisa da mãe de verdade dele, afinal." Ela começou a se afastar, uma saída dramática.

"Bia, não!", Lucas gritou de dentro do quarto. Sua voz estava crua, de coração partido. "Não vai! Não me deixa! Eu quero você!"

Meu coração se estilhaçou, mil pequenos cacos me perfurando. Ele não me queria. Ele queria ela.

Voltei para o quarto. Lucas estava chorando, estendendo a mão para Beatriz. Meus olhos encontraram os dela. Um sorriso triunfante e cruel.

"Não se preocupe, Lucas", eu disse, minha voz mal um sussurro. Estava quase firme. "Ela pode ficar. Eu vou." Olhei para Guilherme. Seu rosto era indecifrável. "Eu não estarei aqui. Você não terá que se preocupar comigo fazendo uma 'cena' nunca mais." Virei-me e saí, cada passo uma libertação deliberada, deixando para trás os destroços da minha família.

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