Capa do romance Oito Anos de Suas Mentiras

Oito Anos de Suas Mentiras

9.3 / 10.0
Em Oito Anos de Suas Mentiras, uma mulher descobre que a doença do filho e seu casamento são fraudes. Neste romance de suspense e mystery story, ela enfrenta traições e sedativos para retomar sua vida. Leia este web novel sobre superação e segredos familiares em nossa plataforma.
Resumo de Oito Anos de Suas Mentiras
Durante oito anos, vivi isolada para proteger meu filho de uma alergia mortal a amendoim. Descobri, porém, que Guilherme e sua amante Beatriz forjavam a doença para manterem uma vida secreta. Fui mantida dócil com sedativos escondidos e descobri que meu casamento é uma farsa jurídica. Após ser substituída por Beatriz no hospital e ver meu filho me rejeitar, decidi abandonar esse mundo de mentiras e retomar a vida que me foi roubada por tanto tempo.
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Oito Anos de Suas Mentiras Capítulo 1

Por oito anos, eu abri mão de tudo para proteger meu filho de sua alergia mortal a amendoim. Isso significava três meses de uma solidão esmagadora a cada inverno, enquanto ele e seu pai, Guilherme, viviam em uma "zona livre de alergia" separada. Eu chamava de solidão; meus médicos chamavam de depressão sazonal.

Mas a alergia era uma mentira. Eu ouvi tudo através da porta do apartamento – Guilherme, meu filho Lucas, e Beatriz, sua namoradinha do colégio. Eles estavam dando o alérgeno ao meu filho de propósito.

"Só um pouquinho pra manter a alergia forte", Guilherme o instruía. Era o passaporte deles para uma vida secreta.

Quando Lucas foi hospitalizado mais tarde por uma reação, ele chorou por Beatriz, não por mim. "A mamãe tá sempre triste", ele sussurrou, enquanto ela entrava triunfante para bancar a heroína.

Então eu descobri que os comprimidos que Guilherme me dava para minha "depressão" eram, na verdade, sedativos potentes. Ele não estava apenas mentindo; estava me drogando para me manter dócil e confusa.

O golpe final foi nossa certidão de casamento – uma farsa sem valor. Ele havia construído meu mundo inteiro sobre uma base de engano. Então eu fui embora, deixando-o com a bagunça que ele criou, pronta para reconquistar a vida que ele roubou de mim.

Capítulo 1

Ponto de Vista de Kiara Valença:

O frio sempre parecia mais pesado no inverno de Curitiba. Não era só o ar lá fora; estava dentro de mim, um gelo que se infiltrava nos meus ossos no momento em que Guilherme e Lucas partiam. Três meses. Todo ano. Três meses de silêncio.

Meu corpo doía. Era uma pontada surda e constante atrás dos meus olhos, um aperto no peito que dificultava a respiração. Os médicos chamavam de depressão sazonal. Eu chamava de solidão.

A casa parecia grande demais, vazia demais sem o barulho deles. A risada de Lucas, os passos pesados de Guilherme, até o tilintar dos pratos – tudo sumia. Restava apenas o zumbido da geladeira e o tique-taque do relógio.

Eu vivia no piloto automático. Acordava. Tomava café. Encarava as paredes. Cozinhava refeições para uma pessoa que eu nunca terminava. Limpava cômodos que permaneciam perfeitamente limpos. Era um ritual de vazio.

Eu contava os dias. Cada nascer do sol me aproximava do retorno deles. Eu imaginava Lucas correndo para os meus braços, o abraço forte de Guilherme. Essa esperança era a única coisa que me mantinha de pé.

Hoje parecia diferente. Um instinto me puxou para o apartamento separado deles, a "zona livre de alergia". Talvez eu pudesse deixar um pacote com mimos. Talvez apenas vê-los de longe. Ao me aproximar da porta, ouvi vozes abafadas. Não apenas Guilherme e Lucas. Uma mulher. Risadas.

Então ouvi a voz dela claramente. Beatriz. A namoradinha do colégio de Guilherme. Meu estômago revirou. Ouvi Lucas gritar: "Bia, podemos assistir a outro filme?" A resposta dela, calorosa e brincalhona, me atravessou.

Isso não era uma alergia. Isso era uma mentira. Uma mentira calculada e cruel. As peças se encaixaram, frias e afiadas. Meu Guilherme. Meu filho. Com ela.

Então eu ouvi. "Lucas, chega de paçoca por enquanto, tá bom? Seu pai disse que precisamos garantir que a Kiara não descubra. Só um pouquinho pra manter a alergia forte."

Paçoca. O alérgeno mortal de Lucas. O mundo girou. Eles estavam usando a condição que ameaçava a vida dele. Como um passaporte. Para ficar com ela.

Eu cambaleei para trás, meu coração batendo contra minhas costelas como um pássaro enjaulado. As paredes brancas e imaculadas do corredor ficaram turvas. Eu não conseguia respirar.

Consegui voltar para minha casa desolada. O silêncio gritava. O calor que eu guardava, o amor, a esperança – tudo congelou. Eu não estava mais apenas triste. Eu estava fria. Eu estava entorpecida.

Lucas chegou em casa mais tarde naquela tarde, com Guilherme logo atrás. "Mãe, senti sua falta!", ele disse animado, mas seus olhos desviaram quando me abraçou. Foi rápido demais, não era real.

"Sentiu falta da minha comida também?", perguntei, minha voz plana, quase um sussurro. Olhei diretamente para ele. "Ou a Beatriz te alimentou melhor?"

Lucas enrijeceu. Seu rostinho se fechou. "A Bia faz os melhores brigadeiros", ele murmurou, olhando para os sapatos. Sua lealdade já estava dividida. Era assustador.

Eu o observei. Uma guerra silenciosa se travava dentro de mim. "Lucas", eu disse, minha voz perigosamente calma. "Você quer um chocolate? Aquele com amendoim."

Seus olhos se arregalaram. Ele amava aquele. Ele sabia que era proibido. Sua vida inteira, eu o protegi deles. Ele olhou para mim, depois para Guilherme, que acabara de entrar na sala.

Os olhos de Guilherme se estreitaram. "Kiara, o que você está fazendo?", ele rosnou, sua voz afiada. "Você sabe que ele não pode comer isso."

Lucas hesitou por um segundo, depois estendeu uma mãozinha em direção ao chocolate que eu segurava. Seus dedinhos tocaram a embalagem. Minha respiração falhou.

"Para!", Guilherme rugiu. Ele arrancou o chocolate da minha mão. "Você enlouqueceu? Sabe o quão perigoso isso é para ele!"

Eu recuei com sua raiva súbita. Minha própria raiva, um nó frio e duro no meu estômago, começou a se desfazer. "Perigoso?", repeti, minha voz se elevando. "Engraçado como só é perigoso quando eu ofereço."

Por oito anos, a alergia dele a amendoim tinha sido meu universo. Cada rótulo lido. Cada restaurante verificado. A casa de cada amigo inspecionada. Eu havia desistido da minha carreira, da minha vida social, de tudo, para mantê-lo seguro. Eu era a especialista em alergia, o escudo.

Eu havia dado sermões em Guilherme inúmeras vezes. "Um farelo, Gui. Um farelo pode matá-lo." Eu sempre fui tão cuidadosa, tão vigilante. Ele era o descuidado. Ele era a fonte.

"Quem te ensinou a comer isso, Lucas?", perguntei, minha voz tremendo agora. Apontei para a paçoca imaginária. "Foi a Beatriz? Ela te disse que era um jogo divertido?"

Guilherme se colocou na frente de Lucas, protegendo-o. "Kiara, do que você está falando? Você está se sentindo bem? Você está sendo irracional."

"Irracional?", eu ri, um som oco e amargo. "Eu ouvi vocês, Guilherme. Eu ouvi você dizer ao Lucas para continuar comendo amendoim. Para manter a 'alergia forte' para as visitas dele com a Beatriz." Minhas palavras eram gelo contra a máscara dele.

Ele empalideceu, sua mandíbula se contraiu. "Você ouviu errado", ele disse rápido, rápido demais. "Você está estressada. Está imaginando coisas."

Ele pegou a mão de Lucas. "Vamos, filho. Vamos jantar fora. Sua mãe não está se sentindo bem." Ele puxou Lucas para longe, para fora de casa, me deixando sozinha no silêncio que ecoava.

Eu não fiz o jantar. A cozinha permaneceu fria, o fogão escuro. Ele voltou horas depois, com Lucas dormindo em seus braços. Ele colocou Lucas na cama e depois veio me procurar.

"Kiara, meu bem, eu sei que você tem estado pra baixo ultimamente", ele disse, tentando colocar o braço ao meu redor. Eu me afastei. "Mas você não pode simplesmente explodir assim. Assusta o Lucas."

"Assusta o Lucas?", sussurrei. Minha garganta parecia em carne viva. "Ou assusta você?"

Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo. "Olha, me desculpe se fui duro mais cedo. Eu só me preocupo com você quando fica assim. Vamos achar algo para o jantar. Vou pedir alguma coisa." Ele se virou para a cozinha.

Minha cabeça latejava. A dor era mais do que uma simples dor de cabeça. Era uma manifestação física da traição, um calor ardente atrás dos meus olhos e um peso esmagador no meu peito. Eu sentia como se estivesse sendo espremida, achatada, até desaparecer.

Entrei no banheiro. A borda afiada de um caco de cerâmica de um vaso esquecido me chamou. Pressionei-o contra meu braço. Uma fina linha vermelha surgiu, ardendo. Era uma dor pequena e aguda, uma distração da dor esmagadora e surda lá dentro. Me fez sentir algo, qualquer coisa, além de entorpecida.

Eu me encolhi no chão frio do banheiro, as lágrimas finalmente vindo, quentes e furiosas. Chorei até meus olhos arderem, até meu corpo tremer de exaustão, até o sono me levar.

Quando acordei, o quarto ainda estava escuro. A dor física ainda estava lá, mas abafada. Minha mente, no entanto, estava terrivelmente clara. A "alergia", o isolamento, minha depressão, a pena, a culpa – tudo era um palco cuidadosamente construído. E eu, a esposa enlutada, a mãe solitária, tinha sido a estrela do seu show cruel e elaborado.

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