
Oito Anos de Suas Mentiras
Capítulo 3
Ponto de Vista de Kiara Valença:
Uma dor latejante explodiu atrás dos meus olhos, pressionando meu crânio. Parecia uma britadeira contra o concreto. Peguei meu celular, meus dedos trêmulos. Guilherme. Eu precisava do Guilherme.
"Kiara? O que foi?" Sua voz estava sonolenta.
"Minha cabeça", consegui sussurrar, as palavras quase inaudíveis. "Dói. Muito."
Ele pareceu irritado. "Estou com o Lucas no hospital, lembra? Ele acabou de dormir." Mas então, uma pausa. "Você está bem? Sua voz está muito ruim." Ele não perguntou o que havia de errado, apenas se eu estava bem.
Uma hora depois, sua chave girou na fechadura. Ele me encontrou no chão do banheiro, agarrando minha cabeça. Ajoelhou-se ao meu lado, seu rosto suavizado pela preocupação. Ele me trouxe água, me ajudou a tomar um analgésico. Ele até ficou, sentado na beirada da banheira, até que o pior da dor passasse.
"O Lucas só ficou muito chateado com a Beatriz indo embora", ele tentou, sua voz baixa. "Ele não quis dizer nada daquilo, Kiara. Ele te ama." Ele disse isso como uma fala ensaiada, um consolo em que ele mesmo não acreditava muito.
Então ele foi embora. De volta ao hospital. De volta para Lucas. De volta para a vida que ele construiu longe de mim. Ouvi a porta bater, o som ecoando na casa vazia.
A dor de cabeça não desapareceu de verdade. Permaneceu, uma dor surda que se intensificava sempre que eu tentava me concentrar. Meu corpo parecia pesado, lento. Uma fadiga estranha se instalou em mim, mais profunda que meu desespero sazonal habitual. Senti um calafrio, um frio profundo que nenhum cobertor poderia curar.
Eu sabia que precisava ver um médico. Mas não podia pedir a Guilherme. Não podia ligar para um amigo. Dirigi sozinha, minha cabeça latejando a cada curva, até uma UPA.
"Então, Sra. Valença", disse o jovem médico, folheando meu prontuário. "Você toma fluoxetina para depressão, certo? E temos uma receita aqui para zolpidem, para insônia."
"Sim", confirmei, minha voz rouca. "Mas não tenho tomado o zolpidem. Me deixa grogue. E a fluoxetina não está mais ajudando. Me sinto pior."
O médico olhou para o frasco de comprimidos que eu havia trazido. Sua testa se franziu. "Isso não é fluoxetina, Sra. Valença." Ele o ergueu contra a luz. "E definitivamente não é zolpidem."
Meu coração disparou. "O quê? É o que o Guilherme me dá. Ele que compra meus remédios."
O médico apertou os olhos para o rótulo. "Esta é uma dose alta de um sedativo potente. E uma dose baixa de um antipsicótico. Isso certamente explicaria seus sintomas – as dores de cabeça, a fadiga, a confusão mental."
Um sedativo. Um antipsicótico. Não para depressão. Não para insônia. Minha mente girou. Guilherme. Ele comprava meus remédios. Ele me dava esses comprimidos.
Ele não estava tentando me ajudar. Ele estava tentando me manter quieta. Dócil. Confusa. Ele estava tentando me manipular, me fazer acreditar que eu estava perdendo a cabeça, para que eu não questionasse suas mentiras. A percepção me atingiu com a força de um golpe físico, mais frio que qualquer inverno, mais afiado que qualquer lâmina.
Meu corpo começou a tremer, incontrolavelmente. O calafrio que se instalara no fundo de mim agora se transformou em um tremor violento. Meus dentes batiam, embora a sala estivesse quente. Não era apenas o frio; era o terror puro e profundo de ser tão completamente violada, tão completamente predada pela única pessoa em quem eu mais confiava.
Eu precisava ir embora. De tudo. Dele. Desta casa. Desta vida. Eu tinha que fugir antes de desaparecer de verdade.
Andei pela casa como um zumbi. Comecei a fazer as malas, jogando roupas aleatoriamente em uma mala. Meus olhos caíram sobre uma pequena caixa de madeira ornamentada na minha cômoda. Dentro estava nossa "certidão de casamento", emoldurada. Era um documento lindo, com nossos nomes, a data. Guilherme sempre disse que cuidaria do registro oficial.
Eu a peguei. Uma memória piscou. Lucas, tão pequeno, desenhando nossa família. Um boneco de palito eu, um boneco de palito Guilherme, e um minúsculo boneco de palito Lucas, todos de mãos dadas. Ele havia escrito: "Mamãe e Papai são para sempre."
Meus olhos ficaram turvos. Lembrei-me do bilhetinho que ele colocou na minha bolsa depois do nosso "casamento". Dizia, com uma caligrafia infantil e trêmula: "Mamãe, eu te amo mais que todos os amendoins do mundo."
As palavras, antes um doce testemunho de seu amor e sua compreensão de sua própria alergia perigosa, agora se torciam em uma zombaria cruel. Mais que todos os amendoins do mundo. Ele estava usando esses mesmos amendoins como uma arma contra mim. Ele os estava usando para escolhê-la.
Um soluço gutural rasgou meu peito. Caí de joelhos, agarrando a caixa de madeira. A dor estava além de qualquer coisa que eu já conhecera. Não era apenas traição; era uma aniquilação completa da minha realidade. Minha mãe, minha rocha, se fora. Meu marido, minha âncora, era um monstro. Meu filho, meu coração, era cúmplice.
Peguei o pequeno porta-retrato com a foto da minha mãe, aquele que eu mantinha na minha mesa de cabeceira. Segurei-o perto, buscando conforto da única pessoa que já me amou incondicionalmente.
Não havia mais nada. Ninguém. Eu estava sozinha. Totalmente, completamente sozinha. E eu estivera por anos, sem nem mesmo saber.
O som de chaves chacoalhando na fechadura. Guilherme. Lucas. Eles estavam em casa. Meu coração disparou, não de medo, mas de uma calma fria e desolada.
"Mamãe, cheguei!", Lucas chamou, sua voz alegre.
"Já chega, Lucas", disse Guilherme, sua voz uma repreensão baixa. "Sua mãe ainda não está se sentindo bem."
"Mas a Bia disse que eu podia ganhar um doce quando chegasse em casa", Lucas choramingou. "Ela disse que eu me comportei o dia todo."
Uma dor aguda e insuportável me atravessou. Beatriz. Sempre Beatriz.
Saí do quarto, meu rosto inexpressivo. "A Beatriz também te ensinou a mentir para sua mãe?" Minha voz era firme, quase calma demais.
Lucas congelou, seus olhos arregalados. Ele olhou para Guilherme, depois de volta para mim. "Não", ele sussurrou, olhando para baixo.
"Kiara, para com isso", Guilherme avisou, sua voz baixa. "Você está assustando ele. O que deu em você?"
O que deu em mim? Apenas a verdade. "A verdade, Guilherme", eu disse suavemente. "Ela finalmente deu em mim." Olhei para ele, meus olhos vazios. "A verdade sobre você. A verdade sobre nós. A verdade sobre o que você tem feito comigo. Todo esse tempo." Ele me olhou, um lampejo de algo, talvez medo, em seus olhos. Ele ainda não sabia o quanto eu sabia. Ele apenas pensava que eu estava "sensível".
Ele parecia perplexo. "Kiara, você não está fazendo sentido. Você só está cansada. Deixa eu pedir comida. Podemos todos sentar e conversar. Você só precisa descansar." Ele ainda estava tentando me manipular, me acalmar com falsa preocupação. Mas suas palavras eram ocas, sem sentido. Eram apenas ruído agora.
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