
O Zumbido do Arrependimento
Capítulo 2
Maria e Pedro viviam como cão e gato, uma relação de amor e ódio que consumia os dois. Ela, uma artista de rua com um talento explosivo, pintava os muros da cidade com a mesma intensidade que amava e brigava. Ele, um jogador de futebol em ascensão, com um futuro brilhante pela frente, a provocava constantemente, testando seus limites, mas sempre voltava, sempre estava lá. As brigas eram homéricas, cheias de gritos e portas batendo, mas as reconciliações eram igualmente intensas, um furacão de paixão que parecia apagar todas as mágoas, até a próxima explosão. Eles não sabiam amar de outra forma.
Naquele dia, o dia que mudaria tudo, a briga foi pior do que o normal. Maria estava inaugurando um novo mural, uma obra que era a sua alma exposta em cores vibrantes. Pedro apareceu, atrasado, com o cheiro de cerveja e a arrogância de quem acabara de ganhar um jogo importante. Ele criticou uma cor, fez uma piada sobre um traço, e o mundo de Maria desabou. A discussão foi feia, pública, cheia de palavras duras que nenhum dos dois queria realmente dizer. Ela o mandou embora, gritando que nunca mais queria vê-lo. Ele saiu, batendo a porta do carro, deixando para trás um silêncio pesado.
Horas mais tarde, o telefone de Maria tocou. Era um número desconhecido. Uma voz fria e oficial do outro lado da linha informou sobre um "incidente". Pedro havia sido morto, uma facada no peito durante o que parecia ser um assalto. O mundo de Maria ficou mudo. O barulho da rua, as cores do seu mural, tudo desapareceu. Só restava um zumbido no ouvido e a imagem do rosto de Pedro, sorrindo de forma provocadora, como ele sempre fazia. A notícia na TV confirmou o pesadelo: "Jovem promessa do futebol morre em tentativa de assalto". Uma tragédia banal, uma vida roubada por nada.
O que a notícia não dizia, o que ninguém sabia, era que minutos antes de morrer, com a mão pressionando o ferimento no peito, Pedro tentou ligar para ela. O telefone de Maria tocou, era ele. Ela viu o nome dele na tela e, cega pelo orgulho e pela raiva da briga mais cedo, recusou a chamada. Desligou na cara do homem que amava, sem saber que eram seus últimos segundos de vida. Aquele toque de celular ignorado se tornou o som fantasma que a assombraria para sempre. O arrependimento era uma ferida aberta, muito mais profunda do que qualquer briga que eles já tiveram.
Em um lugar sem tempo e sem espaço, uma escuridão sem fim, a alma de Pedro se recusava a seguir em frente. A imagem do rosto de Maria, a última lembrança, a chamada não atendida, o prendiam àquele limbo. Uma figura surgiu da névoa, uma senhora de olhos antigos e sábios, Dona Fátima. Ela olhou para o jovem espírito com uma mistura de pena e severidade. "Sua hora chegou, mas seu coração não partiu", disse ela. "Você tem um amor não resolvido, um ódio que te prende aqui." Ela lhe ofereceu um acordo, uma chance que raramente era dada. "Você terá cinco dias. Cinco dias para voltar e fazê-la dizer as palavras que precisa ouvir. Faça-a dizer 'Eu te amo'. Se conseguir, talvez encontre a paz. Se falhar, sua alma se perderá para sempre no esquecimento." A esperança, frágil e desesperada, acendeu no peito de Pedro. Ele aceitou, sem hesitar.
Pedro abriu os olhos e estava de volta ao seu próprio apartamento. O cheiro de sangue e morte pairava no ar. No chão da sala, seu próprio corpo jazia em uma poça de sangue seco. A visão era macabra, irreal. Ele, em sua nova forma etérea, mas sólida, teve que enfrentar a tarefa horrível de limpar a cena do seu próprio assassinato. Arrastou o corpo para o banheiro, limpou o sangue do chão, escondeu qualquer vestígio da tragédia. Era um segredo que ele precisava guardar, uma corrida contra o tempo que acabara de começar. Cada segundo era precioso.
Com o corpo escondido e o apartamento limpo, Pedro correu para a casa de Maria. Ele a encontrou na sala, desolada, sendo consolada por João. João, seu amigo de infância, o amigo que sempre esteve por perto, agora abraçava a mulher que Pedro amava, com um olhar de falsa compaixão. A cena revirou o estômago de Pedro. Ele entrou sem bater, o desespero estampado em seu rosto. Maria e João o olharam como se estivessem vendo um fantasma. E, de certa forma, estavam.
Ignorando o choque no rosto de Maria e o olhar estranho de João, Pedro foi direto ao ponto. Ele a agarrou pelos braços, seus olhos fixos nos dela, a urgência queimando em sua voz. "Maria, você precisa dizer. Diga que me ama. Por favor, apenas diga." Maria, ainda em choque pela notícia de sua morte e agora confrontada com sua aparição impossível, o empurrou. "Você ficou louco? O que é isso? Uma brincadeira de mau gosto? Eles me disseram que você estava morto!" A primeira das cinco chances estava se esvaindo, e o desespero de Pedro só aumentava.
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