
O Zumbido do Arrependimento
Capítulo 3
"Dizer que te amo? Depois de tudo?", Maria riu, um riso seco e sem humor, que cortou o ar como vidro quebrado. "Você aparece aqui, depois que todos pensaram que você estava morto, e a primeira coisa que me pede é isso? Você é inacreditável, Pedro." Ela se afastou dele, buscando refúgio ao lado de João, que a envolveu com um braço protetor. Olhando para João, com uma doçura que Pedro raramente via, ela disse: "João, obrigada por estar aqui. Não sei o que faria sem você." As palavras foram um soco no estômago de Pedro. Ela estava oferecendo a João a gratidão e o carinho que negava a ele.
Pedro sentiu o sangue ferver. Ele avançou, tentando afastar a mão de João do ombro de Maria. "Tire as mãos dela!", ele rosnou. Maria se colocou na frente de João, protegendo-o. "Parou, Pedro! Chega! Foi por causa desse seu ciúme doentio que nós terminamos! Você não mudou nada! Nem a morte te conserta!", ela gritou, empurrando-o com força. Cada palavra dela era uma acusação, um lembrete doloroso de seus erros passados, que agora eram usados como armas contra ele.
Naquela noite, a tortura de Pedro continuou. João, com a desculpa de que Maria não deveria ficar sozinha, ficou para o jantar. Pedro foi forçado a sentar-se à mesa e assistir à cena grotesca. João servia Maria, contava piadas que a faziam sorrir, limpava uma lágrima imaginária de seu rosto. E Maria, cega pela dor e pela manipulação, aceitava tudo. Pedro era um fantasma naquela mesa, uma presença invisível e indesejada, testemunhando o homem que o invejava roubar seu lugar, seu amor, sua vida. O silêncio de Pedro era um grito de dor que ninguém podia ouvir.
Mais tarde, enquanto Maria tomava banho, Pedro passou pelo quarto de hóspedes e ouviu a voz de João, baixa e conspiratória. Ele se aproximou da porta e escutou. "O plano deu certo", dizia João ao telefone. "Ele está morto. Mas... algo estranho aconteceu. Ele apareceu aqui. Não sei como, mas ele voltou. Se ele descobrir a verdade... resolva isso. Não quero que ele respire o mesmo ar que eu por muito mais tempo." O coração de Pedro gelou. Um plano? Verdade? A morte dele não foi um acidente. Foi um assassinato. E João era o mandante. Nesse momento, Pedro, sem querer, esbarrou em um vaso no corredor. O som do objeto caindo no chão ecoou pela casa.
A porta do quarto se abriu abruptamente. João apareceu, o telefone já guardado, com uma expressão de pânico que rapidamente se transformou em medo calculado. "Pedro! O que você está fazendo? Me espionando?", ele gritou, alto o suficiente para Maria ouvir do banheiro. Ele agarrou o próprio braço, como se Pedro o tivesse atacado. "Ele está me ameaçando, Maria! Ele disse que vai me matar!", João gritou, com lágrimas de crocodilo nos olhos. Maria saiu correndo do banheiro, enrolada em uma toalha, e viu a cena: João encolhido, parecendo a vítima, e Pedro parado, chocado e furioso. Sem hesitar, ela correu para o lado de João. "O que você fez com ele, seu monstro?", ela gritou para Pedro, a confiança em seus olhos completamente destruída.
Naquela noite, Pedro dormiu no sofá, se é que se pode chamar aquilo de dormir. A dor física da solidão se misturava com a dor emocional da traição. Ele ouvia os sussurros de Maria e João no quarto, o som abafado de risadas. Cada som era uma facada em seu peito já ferido. Ele se levantou e foi até o banheiro, procurando por analgésicos. Encontrou um kit de primeiros socorros. Abriu e viu que estava sendo usado para tratar um arranhão superficial no braço de João, o mesmo braço que João afirmava que Pedro havia machucado. A farsa era tão óbvia, mas Maria não via.
De repente, a porta do banheiro se abriu. Era Maria. Seus olhos estavam cheios de fúria. "O que você está fazendo?", ela perguntou, a voz gélida. Ela o agarrou pelo colarinho da camisa, empurrando-o contra a parede. "Eu te odeio, Pedro. Você entende? Eu te odeio por ter me feito te amar. Eu te odeio por ter me destruído. E eu te odeio por ter voltado para me atormentar mais uma vez." Ela o sacudiu, o rosto a centímetros do dele. "Nunca. Nunca mais espere ouvir 'eu te amo' da minha boca. Para mim, você já está morto e enterrado." As palavras dela foram a sentença final daquele dia, deixando Pedro completamente quebrado, sozinho na frieza do banheiro.
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