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Capa do romance O Viúvo e a Babá

O Viúvo e a Babá

Após ser traída pela família, Ayla busca recomeçar como babá em uma nova cidade. Ela logo descobre que seu chefe é o enigmático bilionário que conheceu ao chegar, um viúvo amargurado que negligencia a própria filha. Entre confrontos intensos e segredos sombrios, Ayla desafia a frieza desse homem ferido. Agora, ela deve decidir se foge do perigo ou se arrisca seu coração por alguém que promete ser seu pior pesadelo, enquanto tenta curar as feridas de um passado cruel.
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Capítulo 2

Passei o fim de semana inteiro afogada nas minhas próprias lágrimas, ignorando qualquer ligação do mundo lá fora. Mas, quando a segunda-feira chegou, percebi que chorar não ia pagar aluguel nem me dar um emprego.

Acordei cedo, fiz o checkout do hotel e fui atrás de uma casa para alugar. Ingênua. Ninguém me avisou que, em cidade grande, até respirar custa caro.

— Me desculpa, só pra confirmar… — tento, incrédula. — Esse valor aqui é mensal, mas pra fechar, preciso pagar mais três meses adiantados?

— Isso. Aceita ou sai. Tem gente na fila. — o síndico responde, sem nem fingir empatia.

Engoli o nó na garganta. Não tinha opção.

— Tá… tudo bem. Hoje à noite eu trago. — Largo minha mala no meio do apartamento vazio, fingindo que era meu.

Saí dali sem saber como. A única esperança era aquela entrevista que consegui. E, sim, eu sabia que era surreal, ridículo, quase cômico… mas meu plano era simples: convencer eles a me pagar três meses adiantados no primeiro dia.

Talvez eles rissem da minha cara. Talvez eu risse junto, de tão absurda que era a ideia. Mas era isso ou a rua.

Cheguei na empresa uma hora depois.

O diretor de RH, um homem de meia-idade com cara de quem se acha mais bonito do que realmente é, me chamou para a sala.

— Ayla, certo? — sorri, mostrando os dentes muito brancos, provavelmente de lente. — Seja bem-vinda.

— Obrigada. — Respondi, tentando parecer profissional, mesmo com a voz meio trêmula.

A entrevista começou normal. Até que ele começou a me olhar de cima a baixo, mordendo os lábios como se eu fosse um prato de comida.

— Você… é muito bonita, sabia? — sorriu, claramente achando que estava sendo sutil. — Tenho certeza de que você se daria muito bem aqui.

— Prefiro que foquemos nas minhas habilidades, senhor. — Falei seca, cruzando os braços. — Comentários pessoais não são bem-vindos.

Ele fingiu uma tosse, ajeitou a gravata, mas não demorou nem trinta segundos pra voltar a ser um completo lixo humano.

— Sabe… — se inclinou na mesa, abaixando a voz — acho que podemos chegar a um acordo.

Meu estômago virou.

— Olha… — respirei fundo, reunindo a pouca dignidade que me restava — na verdade, eu queria saber se existe alguma possibilidade de adiantamento. Uns... três meses, talvez? Eu sei que é fora do normal. Eu mesma acho isso absurdo. — Ri, nervosa. — Mas estou passando por uma situação bem complicada.

Preparei-me pra ouvir um “claro que não”, seguido de risadas. Só que ele me surpreendeu:

— Isso... é possível, sim. — respondeu, abrindo um sorriso estranho. — Claro... se você for uma funcionária disposta.

Meus olhos se arregalaram. Algo me dizia que “disposta” não significava exatamente trabalhar horas extras.

— Me explica melhor isso. — minha voz saiu fria.

Ele deslizou a cadeira, relaxando como quem dá um golpe certeiro.

— Dormir comigo, Ayla. Hoje. E você tem três meses pagos adiantado.

Por dois segundos, fiquei em choque. No terceiro, levantei e... PLAFT!

A palma da minha mão estalou no rosto dele com força suficiente pra ecoar no prédio inteiro.

— Escroto nojento!

Saí dali batendo a porta, tremendo de ódio. O peito ardendo, os olhos marejados... mas eu não ia chorar. Não por um lixo como aquele.

Caminhei sem rumo, chutando pedras, folhas, até que uma folha de jornal voou e grudou no meu rosto. Arranquei irritada... mas congelei quando li o anúncio estampado bem no centro:

“Procura-se babá. Salário acima da média. Moradia inclusa.”

Por um segundo, o universo parecia ter dado um sinal.

— Ok… minha chance. — Sussurrei, apertando o papel nas mãos.

Duas horas depois, parei na frente do endereço. Meus olhos quase saltaram.

Uma mansão. Enorme. Impecável. Com jardim, fonte e cercas brancas.

— Uau… — engoli em seco. — Eu não pertenço aqui.

— Veio pra entrevista? — um homem bem alinhado me abordou.

Assenti e ele me guiou até a sala.

A cena quase me fez rir — nervosa, claro. Uma fila de mulheres, todas lindas, produzidas, parecendo saídas de uma revista de moda.

Sentei, tentando não parecer tão deslocada quanto me sentia. E fingi naturalidade, mesmo apertando o papel do anúncio com tanta força que ele quase rasgou.

Quando fui chamada, respirei fundo e entrei.

E quase caí pra trás.

Ele estava de costas, olhando a vista pela janela. Quando se virou, meu corpo inteiro gelou.

Era ele.

O homem do táxi. O cara mais irritante, esnobe e petulante que eu já conheci na vida.

Eu respirei fundo. Queria correr. Mas, sinceramente? Talvez... talvez morar na rua fosse pior.

— Seria muito difícil entregar seu currículo? — a voz dele soa carregada de ironia.

Respiro fundo, caminho até a mesa e estendo meu currículo. Ele pega, analisa por alguns segundos, e dispara:

— Você não fez a melhor faculdade. — Não levanta os olhos. — E, sinceramente, seu currículo é inferior ao das outras candidatas.

Cruzo os braços, segurando a irritação.

— E, mesmo assim, estamos todas concorrendo, não? Ou... existe uma faculdade de babá em Harvard e eu não sabia?

Por um segundo, vejo a sombra de surpresa passar no rosto dele, como se não esperasse a resposta.

— Tenho prática. Já cuidei de muitas crianças. — concluo, mantendo o tom firme.

O toque estridente do meu celular quebra o silêncio constrangedor. Aperto os olhos, desligo no mesmo instante, torcendo pra não parecer mais patética do que já estava.

Quando volto a olhá-lo, ele fecha o currículo com um estalo seco.

— Pode sair.

O mundo parece girar. Por um segundo, penso em engolir meu orgulho e implorar... mas não. Aquele dia já tinha sido humilhante demais pra eu rastejar diante de um homem tão arrogante.

— Com licença. — digo, tentando manter alguma dignidade, e saio da sala.

Atravesso o jardim, mastigando frustração, até ouvir um chorinho abafado. Instintivamente, olho ao redor e encontro uma garotinha sentada na grama, tentando, em vão, encaixar a perna quebrada de uma boneca.

Me abaixo.

— Oi... o que aconteceu?

Ela levanta os olhos, enormes, verdes e cheios de lágrimas.

— Eu quebrei a Dorothea...

— Posso ver? — estendo a mão. Ela me entrega a boneca, e, com um pequeno encaixe, coloco a perna no lugar. — Prontinho. Tá vendo? Quase tudo na vida tem conserto.

O rosto dela se acende, e, antes que eu diga qualquer coisa, ela me abraça apertado. Depois, sai correndo, feliz, girando a boneca no ar como se nada tivesse acontecido.

Sorrio, desejando, do fundo da alma, que meus problemas também fossem fáceis assim. Me levanto... e, de relance, percebo a sombra de alguém se movendo atrás da cortina do escritório. Ele estava me observando.

Respiro fundo, balanço a cabeça e paro de pensar nisso. Perdi a vaga, não tenho onde morar... talvez ainda consiga negociar com o proprietário. Alguma alma caridosa existe nesse mundo, certo?

Volto pra casa, repetindo mentalmente mil planos de emergência, agarrada à esperança de que, chegando lá, ele tenha mudado de ideia.

Só que esperança é um bicho traiçoeiro.

Quando dobro a esquina, vejo. Meus pertences estão todos na calçada. Malas abertas, roupas espalhadas, caixas de livros encharcadas pela chuva fina que começa a cair.

— O quê...? — minha voz sai num sussurro rouco.

Corro até a portaria e começo a bater na porta.

— Otávio! Abre isso!

A janela do quinto andar se escancara, e ele aparece, cruzando os braços.

— Você abandonou suas coisas aqui sem pagar, mocinha! Liguei mil vezes! Agora tira isso da minha calçada! — E fecha a janela, sem nem olhar pra trás.

As lágrimas vêm antes que eu consiga impedir. Me ajoelho na calçada, tentando juntar o que dá. Um trovão estoura no céu. Como se fosse combinado, a chuva engrossa.

Me sento, tremendo, encharcada, encarando o pouco que sobrou da minha vida. Despedaçada.

— O que eu faço agora...? — sussurro, sentindo o peito apertar. — Pra onde eu vou...?

O celular vibra nas minhas mãos. Por um segundo, penso em jogar ele na rua... mas atendo.

— Ainda quer a vaga? — pergunta uma voz masculina, firme, do outro lado da linha.

Congelo. É ele.

— S-sim... — gaguejo, sem acreditar no que estou ouvindo.

Silêncio. E então, direto, curto, frio:

— Tem uma condição. Você precisa morar aqui.

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