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Capa do romance O Tsunami do Coração Partido

O Tsunami do Coração Partido

Luana luta para proteger seu irmão Pedro das garras de Rael, um vilão que usa o jovem em apostas perigosas. Após ser humilhada e ver o legado de seu pai ameaçado, um tsunami surge, e uma rede mística salva os irmãos enquanto sela o destino de Rael. Determinada, Luana descobre traições financeiras e amorosas do vilão. Com astúcia, ela retoma seu patrimônio, deixando Rael e sua cúmplice Clara na miséria e na prisão, conquistando enfim sua liberdade e paz.
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Capítulo 2

A memória do desaparecimento do meu pai ainda era uma ferida aberta, um vazio que ecoava com o som constante do mar. Ele, um pescador respeitado por toda a comunidade, sumiu em uma manhã de céu claro, deixando para trás apenas sua rede de pesca, agora guardada como uma relíquia, e a casa de praia que era o centro do nosso universo. Com ele, se foi a nossa segurança. Agora, a responsabilidade de cuidar do meu irmão mais novo, Pedro, e de manter a casa que meu pai tanto amava, caía inteiramente sobre os meus ombros. Eu, Luana, uma jovem com sonhos no mundo da moda, precisei guardá-los em uma gaveta para enfrentar a realidade.

Pedro, em sua dor e rebeldia adolescente, encontrou refúgio nas ondas. O surf era seu sonho, mas o grupo com que ele andava transformou esse sonho em um pesadelo. Eles eram liderados por Rael, um homem mais velho, cuja inveja pelo respeito que meu pai conquistou era quase palpável. Rael via em Pedro não um garoto talentoso, mas uma ferramenta para ganhar dinheiro em competições ilegais e perigosas, explorando seu desejo por reconhecimento.

Eu tentei intervir. Fui até a praia, onde eles se reuniam, com o coração na mão, pedindo, implorando para que deixassem meu irmão em paz.

"Ele é só um garoto, Rael. O que você está fazendo é perigoso."

Rael me olhou de cima a baixo, um sorriso de desprezo no rosto. Ele estava cercado por seus seguidores, que riram da minha preocupação.

"Cuida da sua vida, Luana. O garoto sabe o que quer. Ele quer ser um campeão, não um fracassado como o pai dele, que nem do mar soube voltar."

Aquelas palavras foram um soco no estômago. A humilhação queimou em meu rosto, e a impotência me paralisou. Pedro, ao lado de Rael, baixou a cabeça, envergonhado, mas não fez nada para me defender. Ele estava cego pela promessa de glória.

Naquela noite, o desespero me consumiu. Ameaças de Rael sobre tomar nossa casa caso Pedro não "cooperasse" ecoavam em minha mente. Eu não tinha para onde correr. Foi então que me lembrei da rede de pesca do meu pai. Ela estava no velho galpão, cheirando a sal e a histórias. As lendas locais diziam que a rede era abençoada, que trazia sorte e proteção a quem a possuísse. Era uma crença antiga, algo que eu, com minha mentalidade prática, sempre ignorei. Mas naquela noite, eu precisava de um sinal, de qualquer coisa.

Levei a rede pesada para a praia, o mesmo lugar onde fui humilhada. A areia estava fria sob meus pés. Estendi a rede sobre a areia, as malhas gastas contando a história de uma vida de trabalho duro. Eu me ajoelhei ali, sozinha, sob a luz da lua, e pedi por uma solução, uma saída, uma força que eu não sabia se ainda tinha.

Meu momento de paz foi interrompido por vozes altas. Era Rael e seu bando. Eles viram a rede.

"Olha só, a filhinha do pescador trouxe o lixo velho pra praia" , Rael zombou.

Pedro estava com eles, mas seu rosto mostrava conflito. Ele viu o que Rael pretendia fazer.

"Não, Rael, não faz isso! É do meu pai!"

Mas Rael não ouviu. Ele pegou um isqueiro e um galão de gasolina. A intenção era clara: queimar o último símbolo que nos restava, queimar a memória do meu pai na minha frente. Eles seguraram Pedro enquanto Rael se aproximava da rede.

Foi nesse exato momento que o mar, até então calmo, mudou. Um som baixo e profundo, como um trovão vindo das profundezas, começou a crescer. O chão tremeu levemente. Olhamos para o horizonte e vimos a água recuar de uma forma assustadora, antinatural. E então, a onda. Gigante, monstruosa, um muro de água escura vindo em nossa direção. Um tsunami.

O pânico tomou conta de todos. Rael e seus comparsas largaram tudo e correram, gritando, tentando escapar. Pedro se soltou e correu para mim. O instinto me fez agarrar a rede do meu pai. Nós nos agachamos atrás dela, um gesto inútil, desesperado, contra a fúria da natureza.

A onda nos atingiu. Mas algo inacreditável aconteceu. A água bateu na rede e, de alguma forma, perdeu sua força ao nosso redor. A rede, esticada entre minhas mãos e a areia, parecia criar um escudo, uma barreira que desviava o pior do impacto. Fomos arrastados, sim, mas estávamos protegidos, envoltos em uma bolha de relativa calma enquanto o caos destruía tudo ao redor.

Quando a água recuou, estávamos encharcados e assustados, mas vivos. A praia estava devastada. E no meio da destruição, sirenes começaram a soar. As autoridades, alertadas pelo evento natural e, como soube mais tarde, pelas minhas denúncias anteriores sobre as atividades ilegais de Rael, chegaram rapidamente.

Eles encontraram Rael e seus surfistas agarrados a destroços, feridos e em choque. Com o testemunho de outras pessoas da comunidade e a situação de flagrante perigo em que nos colocaram, eles foram presos.

Nos dias que se seguiram, a história se espalhou. A rede de pesca do meu pai, que nos protegeu do tsunami, virou uma lenda moderna. Deixou de ser apenas uma herança de família para se tornar um símbolo da resistência da nossa comunidade, da força da tradição e da proteção que transcende a vida. O museu local pediu para exibi-la, e em uma cerimônia emocionante, nossa família foi honrada. Pedro, finalmente livre da influência de Rael, me abraçou e pediu perdão. Naquele momento, eu soube que, mesmo na maior das perdas, a força para proteger quem amamos e a redescoberta de nossas raízes poderiam nos salvar.

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