
O Tsunami do Coração Partido
Capítulo 3
Por muito tempo, a narrativa que Rael construiu sobre mim foi a que todos aceitavam. Eu era a namorada controladora, a mulher que não apoiava seus sonhos. Ninguém sabia que eu tinha abandonado minha vaga em uma faculdade de moda em outra cidade para ficar e ajudá-lo a montar sua pequena empresa de pranchas de surf personalizadas. Ninguém sabia que o dinheiro da herança da minha mãe foi o capital inicial para o negócio dele, um dinheiro que eu entreguei por amor, acreditando em um futuro juntos. Eu trabalhava nos bastidores, lidando com as finanças, os fornecedores, a parte chata que ele não queria fazer, enquanto ele ficava com os louros, posando de jovem empreendedor visionário.
A descoberta da traição financeira foi gradual, uma série de pequenas peças que não se encaixavam. Uma conta que não fechava aqui, uma retirada estranha no extrato bancário ali. A princípio, eu dava desculpas por ele. Ele deve ter se confundido, deve ter esquecido de me avisar. Mas a frequência e os valores começaram a aumentar. A gota d'água foi quando vi no extrato do cartão de crédito conjunto uma compra de quase cinco mil reais em uma joalheria. O presente, obviamente, não foi para mim.
Naquela noite, esperei ele chegar. Coloquei o extrato sobre a mesa da cozinha.
"Rael, a gente precisa conversar sobre isso."
Ele olhou o papel, depois para mim, com um tédio calculado.
"Sobre o quê? Mais uma das suas neuras com dinheiro? Eu trabalho pra caramba, Luana. Acho que mereço comprar o que eu quiser."
"Uma joia de cinco mil reais? Para quem foi, Rael?"
Ele não respondeu. Apenas me deu as costas e foi para o quarto, ligando a televisão em um volume alto. Era a tática dele: o tratamento de silêncio. A recusa em dialogar, me deixando sozinha com minhas dúvidas e com a sensação de que eu era a louca, a descontrolada. A pressão no meu peito era imensa, uma mistura de raiva e dor que me deixava sem ar.
No dia seguinte, tomei a primeira decisão que mudaria tudo. Fui ao banco e cancelei o cartão de crédito conjunto. Depois, transferi o pouco dinheiro que restava na nossa conta comum para uma conta só minha. Foi um ato pequeno, mas para mim, pareceu uma revolução. Eu estava cortando o suprimento.
A reação dele não demorou. Ele me ligou no meio da tarde, a voz carregada de uma falsa preocupação que já não me enganava.
"Luana, meu amor, o que aconteceu? O cartão não passou. Tem algum problema com o banco?"
"Não, Rael. Não tem problema nenhum. Eu cancelei o cartão."
Houve um silêncio do outro lado da linha. Eu podia imaginá-lo, o rosto se contorcendo de raiva.
"Você o quê? Por quê? Você não pode fazer isso! E o dinheiro da conta? Sumiu!"
"O dinheiro está seguro. E sim, Rael, eu posso. A conta estava no meu nome também."
"Isso é loucura! Você está tentando me sabotar? Depois de tudo que eu fiz por você?"
A ironia quase me fez rir. Eu respirei fundo, a voz saindo mais firme do que eu esperava.
"Nós vamos conversar sobre isso quando você chegar em casa. E não, não estou te sabotando. Estou me protegendo."
Desliguei o telefone antes que ele pudesse responder. Meu coração batia forte, mas pela primeira vez em muito tempo, não era de medo. Era de adrenalina. Naquela mesma tarde, juntei todos os documentos importantes: a escritura da casa que estava no meu nome, herança do meu pai, os contratos da empresa que mostravam meu investimento inicial, os extratos bancários dos últimos dois anos. Eu estava montando meu arsenal.
Quando Rael chegou em casa, ele tentou uma abordagem diferente. Ele trouxe flores, um sorriso ensaiado no rosto. Mas seus olhos estavam frios. Ele viu a pasta com os documentos na mesa e seu sorriso vacilou.
"O que é isso, Luana?"
"É a nossa conversa, Rael. Está tudo aí."
Ele folheou os papéis, a expressão mudando de surpresa para raiva contida. Ele parou em um documento específico, um que eu tinha colocado por cima de propósito. Era uma procuração dando plenos poderes para eu administrar os bens da empresa, algo que eu pedi para ele assinar semanas atrás, dizendo que era "só uma burocracia para o contador" . Ele, em sua arrogância e desinteresse pelos detalhes, assinou sem ler. Seus olhos se arregalaram levemente. Ele finalmente percebeu que havia subestimado sua "namorada controladora" . A guerra tinha acabado de começar, mas eu já tinha a arma mais importante na mão.
Você pode gostar





