
O Retorno Implacável do Professor Desonrado
Capítulo 2
Olívia POV:
"Olívia, querida, você o viu?" A voz melosa da Sra. Henderson cortou meus pensamentos, me puxando de volta ao presente. Ela apertou meu braço, seus olhos arregalados de admiração. "Caio Vianna! Ele é ainda mais charmoso pessoalmente. E tão bem-sucedido, dizem que ele fez bilhões depois daquele escândalo sujo anos atrás."
Ela se inclinou em tom de confidência. "E ele ainda está solteiro, sabia? Imagine. Um homem como ele, ainda descompromissado depois de todo esse tempo. Talvez ele esteja procurando por alguém genuíno, alguém que não seja daquele mundo de tubarões."
Engoli uma resposta afiada. Genuíno? Caio Vianna não saberia o que é genuíno nem se isso o esbofeteasse. E solteiro? Bufei internamente. Ele estava solteiro porque lhe convinha, não porque estivesse ansiando por algum amor perdido. Meu amor, especificamente. O amor que ele havia sistematicamente desmantelado e depois usado como lenha para sua própria ambição.
Lembrei-me então, uma década atrás. Os documentos sigilosos, plantados como sementes venenosas no meu quarto de hotel. O garoto de programa, um ator contratado em sua peça elaborada. A batida da Polícia Federal, os flashes das câmeras, as manchetes gritantes. Meus algoritmos, a propriedade intelectual da minha alma, roubados e reembalados como sua genialidade. Tudo para garantir uma fusão com a empresa do Senador Abreu, o pai de sua atual noiva, Helena Abreu. Ele não apenas arruinou minha carreira; ele assassinou meu caráter, me deixando para morrer na praça pública.
"Ele é certamente... bem-sucedido," eu disse, minha voz neutra, desprovida de qualquer emoção genuína.
A Sra. Henderson, sempre romântica, não percebeu a nuance. "Viu? Eu sabia que você concordaria! Quem sabe, talvez o destino tenha um jeito engraçado de reunir as pessoas."
Destino, pensei, era uma piada cruel orquestrada por Caio Vianna.
Ele parecia mais alto agora, seus ombros mais largos, sua confiança irradiando mesmo do outro lado da sala. Ele havia encorpado em todos os lugares certos, um homem esculpido pelo poder e privilégio. O garoto com quem me casei, aquele que me prometeu a lua, havia desaparecido há muito tempo. Em seu lugar estava um construtor de impérios, um predador em um terno sob medida.
A Sra. Henderson continuou a tagarelar. "Aposto que ele não se esqueceu de você. Você era o assunto da Faria Lima naquela época. Tão brilhante! Talvez ele tenha voltado para consertar as coisas."
Consertar as coisas? Ele teria que inventar uma máquina do tempo e desfazer os últimos dez anos do meu inferno pessoal para isso. O pensamento era tão absurdo que quase ri.
"Acho que não," murmurei, virando-me para escapar. O guaraná tinha gosto de cinzas na minha boca. Eu queria sair, para longe de sua presença dourada, para longe da conversa bem-intencionada, mas sem noção.
Mas enquanto eu me movia em direção à saída, sua voz, profunda e ressonante, cortou o clamor como um golpe físico.
"Olívia."
Não era uma pergunta, mas uma ordem. Uma autoridade familiar que gelou minhas veias. Meus músculos travaram. Fiquei paralisada, de costas para ele, cada terminação nervosa gritando em protesto.
A conversa ao meu redor diminuiu. As cabeças se viraram. Eu podia sentir os olhos deles em mim, dissecando meu vestido de brechó, catalogando meu desconforto.
Então, o som pesado de seus sapatos caros no piso de mármore. Mais perto. Mais perto.
Eu podia sentir seu olhar na minha nuca, afiado e dissecador. Ele estava absorvendo minha existência desbotada, minhas circunstâncias reduzidas. Imaginei o sutil desdém em seus olhos, a confirmação de que sua escolha de me abandonar tinha sido a certa.
Ele parou a poucos metros de mim. O ar ficou pesado, elétrico com uma história não dita.
"Olívia," ele repetiu, sua voz mais próxima agora, um fio de seda me envolvendo. O som do meu nome em seus lábios era uma violação.
Virei-me, lentamente, forçando uma expressão neutra no rosto. Meus olhos encontraram os dele. Eles ainda eram daquele tom penetrante de azul, mas mais frios agora, calculistas. Um lampejo de algo que eu não consegui decifrar passou por eles enquanto ele examinava meu rosto, meu cabelo, meu vestido simples. Um fantasma de sorriso tocou seus lábios, quase imperceptível, mas o suficiente para revirar meu estômago.
"Caio," respondi, minha voz seca, desprovida de qualquer calor. "Que surpresa."
Antes que ele pudesse responder, uma voz açucarada interveio: "Caio! Querido, aí está você!"
Uma mulher, impossivelmente linda em um vestido cintilante, deslizou em sua direção. Seu braço se enroscou no dele, possessivo e confiante. Helena Abreu. Sua noiva. A filha do homem cuja empresa ele havia fundido, selando meu destino.
Ela me ofereceu um sorriso brilhante e plástico. "Ah, Olívia! Faz tanto tempo, não é? O Caio fala de você o tempo todo." Seu aperto no braço dele se intensificou. "Ele se sente péssimo sobre como as coisas terminaram para você. De verdade." Seus olhos, no entanto, eram afiados, avaliadores e totalmente desprovidos de simpatia. Eles continham um brilho de triunfo.
Caio estremeceu quase imperceptivelmente, um músculo se contraindo em sua mandíbula. Helena, sem se abalar, continuou: "Ele até guarda uma foto sua, sabia? Dos seus dias na Faria Lima. Diz que gosta de lembrar dos 'bons tempos' antes de tudo dar... errado." Ela enfatizou "errado" com uma doçura maliciosa. A implicação pairava no ar: Ele lamenta a perda do que você já foi, não de você mesma. E agora, eu sou a dona dele.
A multidão ao redor, sempre ávida por fofocas, murmurou com interesse renovado. Seus olhos dardejavam entre a presença glamorosa de Helena, a fachada ligeiramente desconfortável de Caio e a minha, sem dúvida menos impressionante.
Caio, recuperando a compostura, simplesmente me entregou um cartão de visita preto e elegante. O peso dele em minha mão parecia pesado, como uma ameaça.
"Olívia," ele disse, sua voz baixando para um timbre mais íntimo, "se você precisar de qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Meus recursos estão à sua disposição." Não era uma oferta; era uma ordem. Um lembrete sutil de seu poder, da minha suposta impotência.
O cartão parecia um pedaço do passado, um eco distorcido de comando. Ele costumava deixar bilhetes assim, instruções ou exigências breves, na minha mesa. Cada um, um pequeno tijolo no muro que ele construiu ao meu redor, me prendendo em sua narrativa. Agora, era apenas um cartão, mas a sensação era a mesma: Você está sob meu comando. Meu polegar pressionou o cartão, minha unha deixando uma marca crescente no papel caro.
"Obrigada, Caio," eu disse, um sorriso frágil no rosto. Minha voz estava calma, quase serena. "Mas não preciso de caridade. Estou muito bem, na verdade."
Então, sem outra palavra, virei-me e fui embora, deixando ele e sua noiva bajuladora no salão cintilante. Não olhei para trás. O cartão permaneceu cerrado em minha mão, um símbolo inútil e enfurecedor de um passado que eu desesperadamente queria apagar.
Você pode gostar





