
O Retorno do Pianista Fantasma
Capítulo 2
João Pedro caminhava pelas ruas estreitas do Porto, o ar frio da noite a arrepiar-lhe a pele, mas o entusiasmo pelo Concurso Internacional de Piano de Viana do Castelo aquecia-o por dentro, era a sua grande oportunidade, o culminar de anos de dedicação. Vinha de uma família abastada de Lisboa, habituado ao conforto e ao louvor, um pianista prodígio desde tenra idade. Um som estranho num beco escuro chamou-lhe a atenção, talvez um gato, pensou com a ingenuidade que ainda o caracterizava. Antes que pudesse reagir, vultos emergiram da escuridão, eram marginais, os seus rostos contorcidos pela maldade. O primeiro golpe atingiu-o na cabeça, fazendo-o cambalear, depois vieram os outros, brutais, impiedosos, focados nas suas mãos, esmagando ossos, tendões, o seu futuro. Sentiu uma dor excruciante, um zumbido agudo no ouvido esquerdo, e depois a humilhação de sentir a urina a escorrer-lhe pelas pernas, a bexiga atingida. A sua carreira, os seus sonhos, tudo se desmoronava naquele beco sujo.
Acordou num quarto de hospital, a dor uma presença constante e pulsante. Sofia, a sua irmã mais velha, e Beatriz, a sua noiva, estavam ao seu lado, os rostos contorcidos numa máscara de preocupação.
"João Pedro, meu querido irmão, o que te fizeram?" A voz de Sofia tremia, os seus olhos marejados.
Beatriz segurava-lhe a mão não ligada, a sua face pálida.
"Vamos apanhar esses monstros, vais ver. Eles vão pagar."
As suas palavras eram como um bálsamo, uma promessa de justiça no meio daquele pesadelo. Ele queria acreditar, precisava de acreditar. A enfermeira entrou e explicou a extensão dos danos, mãos esmagadas, perda auditiva num ouvido, a necessidade de usar um saco de urina permanentemente. Arruinado. A palavra ecoava na sua mente.
Dias depois, já numa cadeira de rodas, a dor física era eclipsada pela confusão. Passeava pelo corredor do hospital para tentar espairecer, quando ouviu vozes familiares vindas de uma sala de espera. Eram Sofia e Beatriz.
"O plano era só para ele perder o concurso, Sofia, apenas isso," a voz de Beatriz era um sussurro hesitante, carregado de culpa.
"Eu sei, eu sei," respondeu Sofia, a sua voz fria, calculista, "mas saiu do controlo. O importante é que o Tiago tenha o caminho livre. Ele merece, Beatriz, ele precisa desta oportunidade. Temos de o proteger e promover a todo o custo."
"Mas isto... isto é demais, Sofia. O João Pedro..."
"Pela nossa amizade, Beatriz. E para não prejudicar o Tiago. Ele é frágil, precisa de nós."
João Pedro sentiu o chão a fugir-lhe debaixo das rodas da cadeira. O ar faltou-lhe. A preocupação delas, as lágrimas, as promessas, tudo uma farsa. Elas. A sua irmã, a sua noiva. Tinham planeado a sua destruição.
A revelação esmagou-o mais do que os golpes dos marginais. Uma dor diferente, mais profunda, rasgava-lhe a alma. A ingenuidade estilhaçou-se, substituída por uma amargura gelada. Elas tinham-no traído da forma mais cruel possível, usando a sua confiança, o seu amor, contra ele. E porquê? Por Tiago. O filho adotivo da família, aquele que Sofia sempre protegera com unhas e dentes.
Lembrou-se do dia em que Tiago chegou a casa. Os seus pais, amigos próximos da família, tinham morrido num acidente trágico. João Pedro, na altura um adolescente, sentira pena do rapaz mais novo, calado e aparentemente frágil. A família acolhera-o de braços abertos. Ele, João Pedro, era o filho de ouro, o pianista prodígio, adorado por todos. Tiago era a sombra, o recém-chegado. Mas essa dinâmica mudara subtilmente ao longo dos anos.
Tiago, com a sua dissimulada fragilidade, começara a minar João Pedro. Pequenas conquistas desapareciam, elogios eram desviados, a atenção da família, especialmente de Sofia, focava-se cada vez mais em Tiago. Se João Pedro se queixava, era acusado de ciúmes, de não compreender a "sensibilidade" de Tiago. Sofia e Beatriz estavam sempre prontas a defender o protegido, a desculpar os seus comportamentos ardilosos. Roubava-lhe partituras antes de recitais importantes, espalhava boatos maliciosos entre os amigos, mas fazia-o de forma tão subtil que João Pedro parecia sempre o culpado por reagir.
Agora, a conspiração tornava-se clara. Não eram pequenos incidentes isolados, era um plano de longo prazo. Tiago cobiçava tudo o que era seu, e Sofia e Beatriz eram as suas cúmplices, as arquitetas da sua queda. Ele fora apenas um degrau para a ascensão de Tiago. A sua vida, o seu talento, o seu futuro, sacrificados no altar da ambição doentia de Sofia pelo seu protegido.
O desespero era um abismo escuro e frio. A ideia do fim, de acabar com aquela dor insuportável, começou a tomar forma na sua mente. Para quê continuar? As suas mãos estavam destruídas, a sua música silenciada, o seu coração despedaçado pela traição. Estava sozinho, verdadeiramente sozinho. Enquanto contemplava a janela do quarto do hospital, imaginando o alívio da queda, o telefone que a enfermeira deixara na mesa de cabeceira tocou. Um número desconhecido. Atendeu, a voz arrastada.
"João Pedro?" Uma voz calma, neutra, do outro lado. "Soubemos do seu... incidente. Represento a Clínica Renascer. Oferecemos tratamentos experimentais, uma segunda oportunidade. Uma forma de renascimento, por assim dizer."
Um vislumbre, não de esperança, mas de algo diferente, acendeu-se na escuridão. Vingança.
A palavra ecoou, poderosa, afastando as sombras do suicídio. Renascer. Uma nova vida. A oportunidade de fazer Sofia, Beatriz e Tiago pagarem por cada lágrima, por cada pedaço da sua alma que tinham roubado.
"Aceito," disse João Pedro, a voz agora firme, a decisão tomada. A dor ainda lá estava, mas agora tinha um propósito.
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