
O Retorno do Pianista Fantasma
Capítulo 3
João Pedro regressou a casa, a mansão da família em Lisboa, um fantasma na sua própria vida. Mantinha a fachada de ignorância, o olhar perdido, a apatia de quem se rendeu ao destino. Sofia e Beatriz redobravam os cuidados fingidos, a preocupação encenada.
"Precisas de alguma coisa, querido?" perguntava Sofia, ajeitando-lhe uma almofada nas costas da cadeira de rodas.
"Estou aqui para ti, meu amor," murmurava Beatriz, tentando segurar-lhe a mão, que ele recolhia subtilmente.
A ironia era palpável, a tensão cortava o ar, mas ele aguentava, alimentando o ódio que se tornava o seu único combustível.
A alta hospitalar fora um espetáculo de hipocrisia. Sofia e Beatriz insistiram em acompanhá-lo, amparando-o com um cuidado excessivo, quase sufocante. O cheiro do perfume caro de Sofia misturava-se com o antissético do hospital, criando uma combinação nauseante. Beatriz ajustava-lhe o cobertor sobre as pernas inúteis com uma delicadeza teatral. Cada toque, cada palavra de consolo, era uma facada invisível. Elas enfatizavam a sua condição debilitada, os seus gestos performáticos sublinhando a falsidade das suas afeições.
À saída do hospital, a humilhação pública esperava-o. "Fãs" e jornalistas, alertados sabe-se lá por quem, cercaram-no.
"João Pedro, é verdade que tens dívidas de jogo?"
"O que aconteceu realmente naquela noite? Andavas metido com gente perigosa?"
Os flashes das câmaras cegavam-no, as perguntas eram como pedras. O saco de urina, mal disfarçado sob a roupa, era um alvo visível para os olhares curiosos e cruéis. Sofia e Beatriz simulavam protegê-lo, afastando os abutres com indignação fingida.
"Deixem-no em paz! Não veem que ele está a sofrer?" gritava Sofia, a heroína protetora.
No carro, a caminho de casa, João Pedro tentou fechar os olhos, escapar daquela farsa. Foi então que as ouviu, num tom de voz baixo, conspirando.
"A história das dívidas de jogo está a pegar," disse Sofia, satisfeita. "Assim ninguém vai suspeitar de nada."
"E os envolvimentos escandalosos? Achas que resulta?" perguntou Beatriz, a sua voz ainda com um resquício de dúvida.
"Claro que sim. Precisamos de manchar a reputação dele o suficiente para que ninguém questione o estado em que ficou. Para que o Tiago brilhe sem sombras."
O choque inicial dera lugar a uma raiva fria. Elas não se contentavam em destruir-lhe a carreira e o corpo, queriam aniquilar também o seu nome, a sua honra.
Mal chegaram a casa, e antes que pudesse refugiar-se no seu quarto, um novo pesadelo começou. Um grupo de "fãs" mais agressivos, provavelmente instigados, e mais jornalistas, tinham conseguido entrar nos portões da propriedade. Cercaram-no no hall de entrada.
"Olhem para ele, o grande pianista!"
"Já não tocas mais nada, pois não?"
Um deles puxou-lhe o cabelo, outro tentou arrancar-lhe o saco de urina, expondo a sua vulnerabilidade, a sua humilhação. A dor física misturava-se com a vergonha, o desespero.
Sofia e Beatriz intervieram novamente, encenando um resgate dramático, expulsando os intrusos.
"Como se atrevem? Chamem a segurança!"
Mas João Pedro viu a satisfação disfarçada nos olhos de Sofia. Percebeu que aquela humilhação pública também fora orquestrada por elas. Queriam vê-lo no fundo do poço, completamente destruído.
Sozinho no seu quarto, a escuridão era a sua única companhia. Refletiu sobre o objetivo final delas. Não era apenas afastar um rival de Tiago. Era aniquilá-lo, apagar qualquer vestígio do seu sucesso, da sua existência, para que Tiago pudesse reinar absoluto, sem comparações, sem fantasmas do passado. A amargura era um veneno lento, mas a determinação por vingança era um antídoto poderoso, mantendo-o vivo, focado. A Clínica Renascer era a sua única esperança, o seu único segredo.
Você pode gostar





