
O Retorno da Bailarina
Capítulo 2
As luzes do palco queimavam minha pele, mas o frio vinha de dentro, um eco da minha vida passada.
Naquela vida, o roteiro era sempre o mesmo.
Eu dançava com a alma, cada movimento uma prece desesperada por um futuro melhor, pela saúde dos meus pais.
Em cada competição, eu chegava perto. Tão perto que podia sentir o cheiro da vitória.
Mas ela sempre escapava.
E sempre pela mesma margem.
Exatos 0.5 pontos.
A cada vez, a vencedora era Paula, a filha do famoso coreógrafo, cujo sorriso arrogante era um lembrete constante do meu fracasso.
"Sofia, você é boa, mas não o suficiente" , ela dizia, com uma falsa simpatia que não enganava ninguém.
Eu me esforçava mais, treinava até meus músculos gritarem por descanso, sangrava pelos meus sonhos.
Mas o resultado se repetia, uma e outra vez, como uma piada cruel.
A bolsa de estudos, a única chance de pagar o tratamento caríssimo dos meus pais, me era negada repetidamente.
Eles definhavam, a esperança em seus olhos se apagando a cada derrota minha.
A última competição daquela vida foi a mais dolorosa. Eu sabia que era a última chance. Dancei como nunca, uma performance que fez o público chorar, que fez os jurados me aplaudirem de pé.
Eu senti. Eu sabia. Tinha que ser meu.
Então o resultado saiu.
Paula, 98.5.
Sofia, 98.0.
Os mesmos 0.5 pontos.
Naquele dia, o telefone tocou. Era do hospital. Meus pais, ao saberem da minha derrota pela televisão, perderam a última centelha de vontade de lutar. Meu pai teve um ataque cardíaco fulminante, e minha mãe, com o coração partido, o seguiu horas depois.
O mundo desabou. A dança, meus pais, meus sonhos… tudo se foi.
A dor era tão grande, tão insuportável, que meu próprio corpo desistiu. Fui encontrada dias depois no meu pequeno apartamento, o troféu de segundo lugar na minha mão, sem vida.
Mas então, eu abri os olhos.
A luz do sol entrava pela janela do mesmo apartamento pequeno e simples. Meu corpo estava dolorido, mas era a dor familiar do treino excessivo, não o vazio da morte.
Olhei para o calendário na parede. A data era de um ano atrás.
Um dia antes da primeira grande competição que deu início a todo o meu sofrimento.
Eu estava viva.
Meus pais estavam vivos.
Eu tinha renascido.
Uma segunda chance. Não para vencer, mas para fazer justiça.
O telefone tocou, me tirando do transe. Era Gustavo, meu namorado.
"Sofia, você tá pronta pra amanhã? Ouvi dizer que a Paula tá com uma coreografia nova incrível. Vai ser difícil."
A voz dele, que antes me trazia conforto, agora soava vazia. Na minha vida passada, ele me consolou após cada derrota, mas sempre me incentivou a "aceitar" o resultado. Agora, eu entendia o porquê.
Desliguei o telefone e fui para o estúdio improvisado na minha sala. Olhei meu reflexo no espelho. A mesma garota de antes, mas com olhos que tinham visto o fim.
No dia seguinte, na competição, a atmosfera era elétrica. Eu estava nos bastidores, aquecendo, quando ela apareceu.
Paula, com seu traje de dança caríssimo e um ar de superioridade.
"Olha só quem está aqui. A rainha da rua" , ela disse, com um sorriso de escárnio.
"Pronta para ficar em segundo lugar de novo, Sofia?"
Seus olhos brilhavam com malícia.
"Dizem que seus pais estão bem doentes. Que pena. Essa bolsa de estudos realmente ajudaria, não é?"
Ela se aproximou, sussurrando para que só eu ouvisse.
"Mas não se preocupe. Eu vou ganhar. Por 0.5 pontos. Como sempre."
Eu a encarei, o fogo da vingança queimando em meu peito.
Desta vez, Paula, as coisas seriam diferentes.
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