
O Retorno da Bailarina
Capítulo 3
A previsão de Paula pairava no ar como uma maldição.
Eu tentei ignorar, tentei focar na minha dança, na música que pulsava em minhas veias.
Subi ao palco e dei tudo de mim, cada gota de suor, cada batida do coração. A plateia aplaudiu de pé, um mar de rostos emocionados. Senti uma pequena chama de esperança. Talvez, só talvez, o talento puro pudesse quebrar o padrão.
Então, foi a vez de Paula. Sua performance foi tecnicamente perfeita, mas fria, sem alma. Era a dança de uma boneca, não de uma artista.
Fomos chamadas ao palco para o anúncio dos resultados. Meu coração martelava contra minhas costelas.
Os juízes anunciaram as notas. Primeiro as minhas. Uma pontuação altíssima, quase perfeita. A multidão vibrou.
Depois, as de Paula.
E então, o resultado final.
Apresentador: "E a vencedora, com uma pontuação final de 97.8, é… Paula!"
Meu sangue gelou. A tela gigante atrás do palco mostrava as pontuações.
Paula: 97.8.
Sofia: 97.3.
Uma diferença de exatos 0.5 pontos.
O sorriso de Paula era triunfante. Ela se virou para mim enquanto recebia o troféu, seus lábios se movendo sem som: "Eu te avisei."
O choque foi como um soco no estômago. Mesmo esperando, a confirmação era devastadora. Não era coincidência, era um sistema. Um sistema montado contra mim.
Nos bastidores, ela veio até mim, seu troféu brilhando sob as luzes.
"O que foi, Sofia? Parece que viu um fantasma" , ela zombou. "Eu te disse que você não tinha chance. Você é do lixo, e é lá que vai ficar."
"Como você faz isso?" , perguntei, a voz trêmula de raiva e confusão.
"Isso o quê? Dançar melhor que você? É talento, querida. Algo que o dinheiro pode comprar, e você não tem nenhum dos dois."
Eu ainda acreditava, ou queria acreditar, que havia alguma justiça. Que na próxima competição, se eu fosse ainda melhor, inegavelmente melhor, eles não poderiam fazer isso.
Passei as semanas seguintes treinando como uma louca. Mal comia, mal dormia. Só dançava. Meus pais me ligavam, preocupados, e eu mentia, dizia que estava tudo bem.
A segunda competição chegou. O padrão se repetiu.
Performance incrível. Aplausos. Esperança.
Paula: 98.2.
Sofia: 97.7.
A mesma diferença. O mesmo sorriso de escárnio.
A terceira. A quarta. Era uma tortura. A cada vez, a diferença era a mesma. 0.5 pontos. Nem mais, nem menos. Era uma precisão matemática que desafiava qualquer lógica de julgamento humano.
Na quinta competição, a última antes da grande final pela bolsa, Paula foi ainda mais cruel.
"Sabe, Sofia, ouvi dizer que a clínica onde seus pais estão internados é uma das acionistas do evento" , ela disse casualmente enquanto eu amarrava minhas sapatilhas. "Seria uma pena se eles perdessem um patrocínio tão importante porque a filha de um paciente fez um escândalo por perder."
Ela não estava apenas me sabotando, estava me ameaçando. Estava usando a vida dos meus pais para me manter na linha.
A raiva me deu forças. Subi naquele palco e dancei com o furor de um animal enjaulado. Foi a melhor performance da minha vida. Eu não deixei espaço para dúvidas.
Quando as notas foram anunciadas, senti um nó na garganta.
Apresentador: "Uma performance histórica de Sofia! Pontuação final: 99.5!"
A plateia explodiu. Era a nota mais alta da história da competição. Eu olhei para Paula. Pela primeira vez, vi uma sombra de pânico em seus olhos.
Então, as notas dela foram anunciadas. Uma performance boa, mas nada de especial.
E o resultado final apareceu na tela.
Paula, a vencedora, com 100 pontos.
Sofia, em segundo, com 99.5.
A diferença. A maldita e exata diferença de 0.5 pontos.
Foi a gota d'água. A esperança se estilhaçou em um milhão de pedaços. Caí de joelhos no palco, o som da multidão se tornando um zumbido distante. As lágrimas que eu segurei por tanto tempo finalmente vieram, queimando meu rosto.
Era um jogo de cartas marcadas. E eu estava destinada a perder, não importava o quão bem eu jogasse.
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