
O Renascer de Luana
Capítulo 2
O cheiro de poeira e de livros velhos encheu meus pulmões, um aroma familiar da minha adolescência que eu pensei ter esquecido para sempre. Abri os olhos lentamente. A luz do sol entrava pela fresta da cortina com estampa de girassóis, exatamente como eu me lembrava. Meu corpo estava ileso, deitado na minha antiga cama de solteiro.
Mas isso era impossível.
A última coisa que eu lembrava era o som ensurdecedor de metal se contorcendo e o gosto de sangue na minha boca. Eu estava dirigindo meu carro velho e cansado, voltando de um terceiro turno humilhante como lavadora de pratos, exausta demais para reagir a tempo quando os faróis de um caminhão desgovernado surgiram na minha frente.
Minha vida tinha acabado ali, na miséria, com o coração partido pela traição.
Tudo por causa da Sofia. Minha "melhor amiga" de infância.
As memórias da minha vida passada vieram como uma enxurrada. Eu, Luana, uma cozinheira apaixonada e talentosa, que sonhava em abrir meu próprio restaurante. Sofia, sempre ao meu lado, ouvindo meus planos, provando minhas criações, anotando tudo em seu caderninho com um sorriso que eu acreditava ser de admiração.
Que ingênua eu fui.
Lembro-me do dia em que meu mundo desabou. Eu tinha acabado de conseguir um investidor, a oportunidade da minha vida. Mas, uma semana antes da inauguração, Sofia desapareceu. E com ela, meu livro de receitas, o fruto de anos de trabalho árduo, cada segredo culinário que minha mãe me ensinou.
Duas semanas depois, o restaurante "Delícias da Sofia" abriu as portas no mesmo local que eu havia escolhido. As mesmas receitas. O mesmo conceito. A crítica gastronômica o aclamou como uma revelação, e Sofia, com seu rosto inocente e sorriso cativante, tornou-se a nova queridinha da cena culinária. Ela contou a todos que as receitas eram herança de sua avó. Uma mentira deslavada.
Eu tentei lutar, tentei expô-la, mas quem acreditaria em mim? Eu era apenas uma cozinheira desconhecida e desesperada. Ela era a estrela em ascensão. Fui processada por difamação e perdi tudo o que me restava. Minha reputação foi destruída. Minha paixão, esmagada.
Enquanto a carreira de Sofia decolava, a minha afundava. Ela se tornou a protegida do renomado Chef Gabriel, o homem que eu admirava e que, por um breve momento, demonstrou interesse no meu talento. Sofia o seduziu, usando minha comida, minhas histórias, minha alma. Eu me tornei uma sombra, pulando de emprego em emprego, cada um mais degradante que o outro, apenas para sobreviver, enquanto via o rosto dela em capas de revistas, sempre sorrindo aquele sorriso vitorioso e falso.
Aquele acidente de caminhão não foi um acidente. Foi o ponto final de uma vida arruinada.
Mas agora... agora eu estava aqui. Viva. Jovem.
Sentei-me na cama, o coração batendo descontroladamente. Olhei para o calendário na parede. A data era de dez anos atrás. Eu estava no último ano do ensino médio, no exato momento em que minha paixão pela culinária estava florescendo, e a inveja de Sofia começava a se enraizar como uma erva daninha.
Um som de choro me chocou. Era a minha alma, gritando com a dor da memória. Mas o choro não durou muito. A dor se transformou em gelo, e o gelo em uma fúria fria e cortante.
Eu não estava morta. Eu renasci.
Desta vez, as coisas seriam diferentes. Desta vez, eu conhecia a cobra que dormia ao meu lado. Eu não estava mais cega pela amizade e pela confiança.
Desta vez, eu não seria a vítima.
Olhei para minhas mãos, jovens e sem os calos do trabalho pesado da minha vida passada. Cerrei os punhos com força.
"Sofia", sussurrei para o quarto vazio, a voz carregada de um ódio que transcendia a morte. "Você me roubou tudo. Minha vida, meus sonhos, minha dignidade. Agora, eu vou pegar tudo de volta. E vou fazer você pagar por cada lágrima que derramei."
O jogo havia virado. A caça, agora, era a caçadora.
Você pode gostar





