Capa do romance Kendra - O Nascer da Fênix

Kendra - O Nascer da Fênix

9.7 / 10.0
Irina finge ser uma caçadora implacável de bruxas para o reino, mas esconde um segredo: ela é a rainha das feiticeiras. Em vez de matá-las, ela as resgata e envia para um refúgio seguro. Sua missão é ameaçada por um príncipe humano que desperta sentimentos intensos. Apesar da rivalidade inicial, uma jornada revela que ele não segue a tirania do pai. Juntos, esses amantes improváveis enfrentam o rei e descobrem verdades sombrias que mudarão tudo.

Kendra - O Nascer da Fênix Capítulo 1

Sou arrastada e atirada ao chão por um dos soldados que me trouxeram até aqui. Me levanto rapidamente e aguardo por instruções. Enquanto isso, dou um giro pelo lugar, observando os meninos e meninas que estão “treinando”. Eles estão se agredindo com tanta ferocidade, que mesmo sangrando, não param.

De repente, um vulto se move ao meu lado, e então, recebo um chute totalmente gratuito, no estômago. Começo a chorar imediatamente enquanto balbucio:

— Pare, por favor — levanto a mão. — Está me machu... — a desgraçada desfere um soco em meu rosto, fazendo com que eu caia com tudo no chão.

A vejo levantar os olhos para um homem que reconheço como a autoridade máxima desse local, o Grande Mestre, que acena em minha direção. Não entendo de imediato o que o gesto significa, mas descubro rapidamente quando ela começa a desferir golpes incontáveis em minha direção. Ela chuta todas as partes do meu corpo com toda a sua força, e logo, fico inconsciente.

§§

Quando abro os olhos, acredito ser outro dia. E ao sentir dor em todos os lugares do meu corpo, percebo o quão horrível é este lugar. Eu tenho apenas sete anos. Obviamente, não sei me defender ou revidar golpes como aqueles. E pensei que, treinamento, significaria ser treinada e não espancada.

Mas com isso, aprendi uma grande lição: se não souber o que fazer, faça qualquer coisa, menos nada. Sério, eu deveria ter feito qualquer coisa para tentar me defender. Empurrar, correr, bater. Menos nada. E foi exatamente o que eu fiz: nada. Escuto uma movimentação e permaneço imóvel, mantenho os olhos fechados evitando respirar, com medo do que pode acontecer a seguir.

Um soldado entra no ambiente e arranca minhas cobertas.

— Acorde, está na hora do treinamento — um arrepio percorre minha espinha ao ouvir as palavras do homem.

Arregalo os olhos, abrindo-os de supetão e questiono:

— Mas como assim? Eu estou toda machucada — choramingo.

Ele abre um sorrisinho de escárnio.

—Não espere que por causa de sua incompetência você iria ter direito a descanso. Você nasceu para servir, a sua vida não pertence a você.

Eu apanhei muito nesse dia também. Em outros dias, eu implorava por um copo de água ou uma pausa de um minuto apenas para tomar fôlego. E minha resposta sempre era a mesma, apenas dita de formas diferentes: socos, chutes, chicotadas, para eu aprender que ainda existem dores piores do que a que eu estava sentindo. E acredite, existem mesmo.

O treinamento físico consiste em te levar ao seu limite. Nas aulas teóricas, em que, basicamente, aprendemos pelo que vamos lutar (que eu resumo em: caçar e matar bruxas pelo reino), e que eles fazem um treinamento tão pesado para nos levar ao nosso extremo, e quando chegamos lá, aprendemos que nosso corpo e mente aguentam um pouco mais.

Principalmente a sua mente. É ela que você deve trabalhar. Você se surpreenderia com quanta pancada seu corpo pode levar. Um rapazinho bondoso, chamado Tom, me deu uma “dica”, ele disse para eu aprender a blindar a mente antes de aprender a defender meu corpo. Eu não entendi a princípio, mas logo ficou claro: não adianta o quanto eu choro ou peça para parar. Isso não vai acontecer.

Como eu disse, o treinamento te lapida para aguentar situações extremas. Apanhei muito antes de aprender a bater. E quando aprendi, a raiva que cresceu dentro de mim serviu de combustível para fazer todos que me desafiavam sangrarem. Até que me colocaram para treinar com os mais velhos, já que não havia mais meninos ou meninas da minha idade que fossem páreo para mim.

Disso surgiu uma rivalidade entre mim e Ólive, a garota que me espancou em meu primeiro dia. Ela era a favorita, a melhor. Mas eu me sobressaí de todas as maneiras possíveis, ofuscando-a. Essa garota é uma vadia desde sempre. E não se importa em criar as mais diversas picuinhas entre mim e as pessoas daqui. E quase todos me odeiam, mesmo que a estrelinha os maltrate.

Ao aprender a suportar a dor física, também deixei de me importar com tudo e todos e não me importo de ser sozinha. Eu tenho um propósito maior.

Mas tento não pensar no assunto, porque essa é a única vida que conheço e conhecerei. Ao longo dos dias, entendi exatamente o que o soldado quis dizer quando falou que minha vida não é minha. A vida de todos nós pertence ao rei de Kylanir. Que é a quem servimos, e de quem um dia, receberei a maior honraria entre nós, soldados: a de guardiã.

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