
O Renascer de Luana
Capítulo 3
No dia seguinte, na escola, a vi pela primeira vez desde o meu renascimento. Sofia correu na minha direção pelo corredor lotado, seu rabo de cavalo balançando, o rosto iluminado por um sorriso que, para qualquer outra pessoa, pareceria a mais pura e sincera alegria.
Para mim, era a máscara do diabo.
"Luana! Eu te procurei por toda parte!"
Ela me abraçou com força. Senti meu corpo enrijecer com o contato. O cheiro do perfume floral dela, o mesmo que ela usava no dia em que anunciou a abertura do 'seu' restaurante, invadiu minhas narinas e ativou cada fibra de ódio em mim.
Afastei-me dela com uma calma que me surpreendeu.
"Eu estava na biblioteca", respondi, a voz neutra.
Sofia fez um beicinho, uma expressão que ela usava para parecer vulnerável e adorável.
"Puxa, você está sempre estudando. Fiquei tão preocupada ontem, você sumiu depois da aula."
Sua preocupação era uma mentira venenosa. Eu sabia exatamente o que ela queria.
"Ah, é mesmo? Parabéns por ter ganhado a bolsa de estudos de verão da prefeitura! Eu vi seu nome no quadro de avisos! Você é incrível, Luana! Tão inteligente!"
Ela disse isso em voz alta, atraindo a atenção de alguns alunos que passavam. Na minha vida passada, eu teria ficado vermelha de vergonha e felicidade, grata pelo apoio da minha melhor amiga.
Agora, eu via a verdade. Ela não estava me parabenizando. Estava marcando seu próximo alvo. Aquela bolsa de estudos, que me daria a chance de fazer um curso de culinária avançado, foi a primeira grande conquista que ela me roubou. Ela de alguma forma conseguiu que meu nome fosse trocado pelo dela na última hora, alegando um "erro administrativo".
Eu a encarei em silêncio, deixando o sorriso dela vacilar sob o meu olhar frio.
"Obrigada", eu disse, sem emoção.
Sofia pareceu desconcertada com a minha falta de entusiasmo. Ela estava acostumada com a minha gratidão, com a minha ingenuidade.
"O que foi, Lu? Você não parece feliz. Aconteceu alguma coisa?"
Ela tocou meu braço, a falsa preocupação escorrendo de sua voz.
"Você está tão distante ultimamente. Desde que você começou a se destacar nas aulas, parece que você não precisa mais de mim. Nós somos melhores amigas, Luana. Você pode me contar qualquer coisa."
A manipulação era tão óbvia agora. A acusação velada, a tentativa de me fazer sentir culpada por meu próprio sucesso. Ela estava me lembrando da nossa "amizade" para me manter por perto, vulnerável, fácil de ser explorada.
"Eu não estou distante, Sofia. Estou apenas focada."
"Focada demais para sua melhor amiga?", ela retrucou, a voz agora carregada de uma mágoa calculada. "Eu sempre te apoiei em tudo. Lembro de todas as noites que passamos sonhando com seu restaurante. Eu estava lá por você. Não é justo você me deixar de lado agora."
Cada palavra era uma faca, não em mim, mas na memória da garota tola que eu fui. A garota que compartilhava cada sonho, cada segredo, sem perceber que estava alimentando o monstro ao seu lado.
Eu olhava para ela, para seus olhos que tentavam parecer feridos, e tudo o que eu via era a ganância. Ela não me via como uma amiga. Ela me via como um recurso. Uma fonte de ideias, de talentos, de vida, que ela podia sugar até não sobrar nada.
Meus punhos se fecharam dentro dos bolsos da minha jaqueta.
Eu me lembrava de ter trabalhado incansavelmente para aquela bolsa. Horas de estudo, noites em claro. E ela? Ela passou o verão viajando com a família, e ainda assim, o prêmio foi dela. Na época, eu acreditei na história do "erro". Chorei no ombro dela, e ela me consolou, dizendo que eu teria outras chances, enquanto por dentro, eu sei agora, ela estava rindo da minha estupidez.
"Você tem razão, Sofia", eu disse, forçando um pequeno sorriso. "Eu não deveria te deixar de lado."
O alívio em seu rosto foi imediato e nauseante.
"Que bom que você entende, Lu! Fiquei com tanto medo de te perder!"
Ela me abraçou de novo. Desta vez, eu não enrijeci. Eu a abracei de volta, um abraço frio como o de uma serpente.
Em minha mente, a vingança começava a tomar uma forma clara e deliciosa. Ela achava que eu era a mesma Luana de antes. Ótimo. Deixá-la pensar assim era o primeiro passo do meu plano.
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