
O Preço do Amor
Capítulo 2
Desta vez, eu não vou salvá-lo.
Essa promessa ecoava na minha cabeça, uma sentença final para uma vida de dor.
João e Lúcia, se preparem, porque a dívida de sangue da vida passada será paga nesta.
Eu sou Maria.
Ou talvez, eu devesse dizer, eu voltei a ser Maria.
Uma frase que ninguém entenderia, mas que para mim, era a mais pura verdade.
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O cheiro de mofo e poeira do meu antigo quarto de estudante invadiu minhas narinas, uma sensação tão real que me fez tremer. Eu olhei para as minhas mãos, jovens, sem cicatrizes, cheias de vida. Olhei para as minhas pernas, fortes e capazes, firmemente plantadas no chão de madeira gasto.
Eu estava viva. Eu estava inteira.
O calendário na parede marcava o dia 23 de outubro. O dia em que tudo começou. O dia em que, na minha vida passada, eu corri como uma louca para salvar o homem que eu amava, apenas para ser empurrada para um abismo de desespero por ele.
O telefone tocou, estridente, quebrando o silêncio do quarto. O nome na tela fez meu estômago revirar: "Pedro".
Amigo de João. E, na minha vida passada, um dos que me julgou com mais dureza.
Eu respirei fundo, sentindo o ar encher meus pulmões. Uma sensação que eu não tinha há anos. Na minha vida anterior, depois do incêndio, cada respiração era um esforço doloroso.
Eu atendi.
"Maria! Graças a Deus você atendeu!" A voz de Pedro era puro pânico, exatamente como eu me lembrava. "O João... ele foi sequestrado! Os sequestradores ligaram, eles querem um resgate enorme! Você precisa nos ajudar, Maria! Você é a única que pode..."
Na minha vida passada, essas palavras me jogaram em um desespero cego. Eu vendi a casa que minha mãe me deixou, juntei todas as minhas economias, pedi dinheiro emprestado a todos que conhecia. Tudo por ele.
Desta vez, um sorriso frio se formou nos meus lábios.
Eu deixei Pedro terminar sua súplica desesperada. O silêncio que se seguiu foi pesado, cheio de expectativa.
"Maria? Você está aí? Fale alguma coisa!"
Minha voz saiu calma, firme, sem um pingo da emoção que ele esperava.
"E daí?"
Pedro ficou mudo por um segundo. "O quê? Como assim 'e daí'? É o João! Seu noivo! Ele está em perigo de vida!"
"Ele não é meu noivo", eu disse, cada palavra cortando o último fio que me ligava àquela vida estúpida. "E o que acontece com ele não é problema meu."
"Você ficou louca?", ele gritou do outro lado da linha, sua voz cheia de incredulidade e raiva. "Como você pode ser tão fria? Nós não temos tempo para suas briguinhas de casal! A vida do João está em jogo!"
Eu me lembrava da cara dele no hospital, depois que eu perdi minhas pernas para salvá-lo. O desprezo em seus olhos quando ele me disse: "Maria, olhe para você. Você é um fardo. O João merece alguém melhor, alguém inteira".
Alguém como Lúcia.
A lembrança era como um fantasma gelado, mas não me causava mais dor. Apenas uma raiva fria e calculista.
"Pedro", eu disse, minha voz tão baixa que ele teve que se calar para ouvir. "Escute bem. Eu não vou dar um único centavo. Eu não vou mover um único dedo. Se o João vive ou morre, para mim, não faz a menor diferença."
E com isso, eu desliguei.
Eu olhei para o telefone na minha mão e, sem hesitar, bloqueei o número de Pedro. Depois, o de João. E o de Lúcia. Um por um, eu deletei todos os contatos que me traziam más lembranças.
Era um novo começo. E desta vez, eu viveria por mim mesma. O destino de João estava selado, e eu seria apenas uma espectadora.
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