
O Preço do Amor
Capítulo 3
A memória da minha vida passada não era um sonho, era uma ferida aberta.
Eu me lembrava de tudo com uma clareza aterrorizante.
Depois que eu paguei o resgate de João, ele foi libertado. Eu o esperei em casa, exausta, mas aliviada. Eu tinha perdido tudo, mas tinha ele de volta. Ou assim eu pensava.
Ele chegou em casa não com gratidão, mas com Lúcia a seu lado.
"Maria", ele disse, sem sequer olhar nos meus olhos. "Eu e Lúcia estamos juntos. Ela ficou do meu lado durante todo o sequestro, me deu apoio emocional. Você... você só sabe resolver as coisas com dinheiro. É tão vulgar."
Lúcia me olhou com um sorriso vitorioso. "Maria, eu sei que é difícil para você, mas o amor não pode ser forçado. O João precisa de alguém que o entenda de verdade."
Naquele dia, eles me expulsaram da casa que eu comprei com o dinheiro da herança da minha mãe. A casa que eu decorei pensando no nosso futuro.
Eu fiquei sem nada. Sem dinheiro, sem casa, sem noivo.
A humilhação foi só o começo. João e Lúcia usaram o resto do meu dinheiro para começar um negócio. Eles prosperaram. E eu? Eu virei motivo de piada. "A ex-noiva tola que deu tudo por um homem que a desprezava."
Eu tentei recomeçar. Consegui um emprego simples, aluguei um quarto minúsculo. Mas a sombra deles me seguia. Onde quer que eu fosse, as pessoas cochichavam. Pedro e os outros "amigos" de João espalharam a história de como eu era "pegajosa" e "materialista", e como João finalmente tinha se livrado de mim.
A dor e o estresse me consumiram. Minha saúde piorou. Mas eu continuei. Eu era uma lutadora. Eu tinha aprendido capoeira na adolescência, não por diversão, mas para me proteger, e essa disciplina me manteve de pé.
O ponto final da minha tragédia aconteceu três anos depois.
Eu estava trabalhando como entregadora para uma pequena lanchonete. Em uma noite chuvosa, eu vi o carro de João parado no acostamento. Lúcia estava do lado de fora, parecendo desesperada. Um caminhão desgovernado vinha na direção dela.
Meu primeiro instinto foi ignorar. Mas então, a parte estúpida e compassiva de mim, a Maria que ainda não tinha morrido completamente, assumiu o controle.
Eu joguei minha moto no chão e corri. Empurrei Lúcia para fora do caminho.
O caminhão me atingiu em cheio.
A última coisa que eu vi foi o rosto de João. Ele não estava olhando para mim, a mulher que o salvou duas vezes e que agora morria por causa da amante dele. Ele estava abraçando Lúcia, confortando-a, protegendo-a dos destroços.
Eu não senti a dor do impacto. Senti apenas o frio cortante da traição final.
Eu acordei no hospital. O cheiro de antisséptico era avassalador. Um médico com um rosto triste me deu a notícia.
"Sinto muito, senhorita. Tivemos que amputar suas duas pernas. E o incêndio causado pelo acidente... suas cordas vocais foram danificadas. Você talvez nunca mais fale."
Muda e aleijada.
João e Lúcia me visitaram uma vez. Eles não entraram no quarto. Ficaram do lado de fora, olhando através do vidro. Eu podia ler seus lábios.
"Ela está horrível", disse Lúcia, com uma careta. "Dá pena."
João suspirou. "É o destino dela. Pelo menos agora ela não vai mais nos incomodar. Vamos, querida. A visão dela está me dando náuseas."
Eles foram embora. E nunca mais voltaram.
Eu passei os dois anos seguintes em uma cama de hospital, um fardo para a minha tia Sofia, a única pessoa que ficou ao meu lado. Ela era policial, uma mulher forte, mas eu via o cansaço em seus olhos. Eu era um poço sem fundo de despesas e tristeza.
Eu morri em uma noite fria e solitária, olhando para o teto manchado do hospital, com o coração cheio de um ódio tão profundo que era a única coisa que eu ainda sentia. Eu jurei que, se houvesse outra vida, eu nunca mais seria a tola. Eu faria cada um deles pagar.
E então, eu abri os olhos.
E eu estava de volta. No meu quarto de estudante. Com minhas pernas, minha voz e uma segunda chance.
O telefone tocando, Pedro gritando, o sequestro de João.
Não era um sonho. Era uma oportunidade.
A oportunidade de assistir ao show. Desta vez, da primeira fila, com um sorriso no rosto. Desta vez, a tragédia não seria minha.
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