
O Preço do Amor Não Dito
Capítulo 2
Ponto de Vista de Elisa Dantas:
Meus dedos se atrapalharam no chão frio, juntando desesperadamente os comprimidos espalhados e enfiando-os de volta nos frascos, escondendo os rótulos de seu olhar penetrante. Minha vergonha secreta, meu relógio em contagem regressiva, exposto no chão de uma sala de conferências sem alma.
"Isso não é da sua conta", engasguei, meus lábios tremendo enquanto enfiava tudo de volta na bolsa. Recusei-me a olhá-lo, a deixá-lo ver o terror em meus olhos.
Um músculo na mandíbula de Bruno se contraiu. Por um momento, vi um flash do antigo Bruno, aquele que conseguia ler todos os meus pensamentos. Então a máscara de indiferença voltou ao lugar. Ele se virou sem outra palavra e saiu, me deixando sozinha no silêncio sufocante.
Quando finalmente saí, minha prima Sara estava esperando no corredor, balançando uma Bia adormecida em seus braços. O rostinho de Bia estava sereno, seus cílios escuros se espalhando por suas bochechas. Ela se parecia tanto com ele.
"Aquela mulher é um monstro", Sara sibilou, seus olhos brilhando de raiva. "E o Bruno... eu não entendo. Ele é o advogado dela? Depois de tudo?" Ela balançou a cabeça em descrença. "Lembro que quando vocês começaram a namorar, ele dirigiu cinco horas em uma tempestade de neve só para te trazer uma xícara do seu chocolate quente favorito porque você estava resfriada."
A memória foi uma pontada aguda e dolorosa. "Isso foi há muito tempo, Sara. As pessoas mudam."
"Ele não pode ter mudado tanto", ela insistiu. "Eli, você tem que contar a ele. Diga a ele que a Bia é filha dele. Ele nunca deixaria aquela abutre levar sua própria filha."
Uma onda de náusea me atingiu. "Eu não posso."
"Por que não?"
"Porque ele é casado, Sara", eu disse, as palavras com gosto de veneno. "Ele tem uma esposa. Um filho. E outro bebê a caminho. Ele seguiu em frente."
Olhei para o rosto inocente de Bia. Como eu poderia jogá-la naquela vida? Uma vida onde seu pai estava ligado a outra mulher, uma mulher cuja família havia destruído a nossa. Uma vida onde ela seria uma lembrança constante e indesejada de um passado que ele claramente desprezava. Ela seria a filha da mulher que ele odiava, vivendo à sombra de sua nova e perfeita família.
"Ele me odeia", sussurrei, a verdade disso uma pedra fria e pesada em meu estômago. "Ele não a quereria. Não vinda de mim. A nova esposa dele... ela nunca seria gentil com a Bia. Minha filha passaria a vida inteira pagando pelos meus 'pecados'."
Não. Eu preferiria morrer a submetê-la a isso.
Uma dor súbita e aguda atravessou meu estômago, e um gosto metálico encheu minha boca. O mundo inclinou, o corredor se transformando em um borrão de bege e branco. Vi os olhos de Sara se arregalarem em alarme, ouvi-a chamar meu nome, e então tudo ficou preto.
Acordei com o cheiro antisséptico de um hospital e o bipe constante de um monitor cardíaco. Sara dormia na cadeira ao lado da minha cama, seu rosto marcado pela preocupação. Meu corpo doía, uma dor profunda e ressonante que parecia emanar dos meus próprios ossos.
De repente, uma comoção irrompeu no corredor do lado de fora do meu quarto. Uma criança estava chorando — um lamento agudo e aterrorizado que cortou minha névoa de cansaço.
Era a Bia.
Ignorando a dor lancinante, joguei para trás o fino cobertor do hospital e arranquei o soro do meu braço.
"Eli, o que você está fazendo?" Sara acordou sobressaltada. "O médico disse que você precisa descansar! A Bia está logo ali fora, uma enfermeira está com ela..."
Mas eu já estava porta afora, meus pés descalços batendo no linóleo. Segui o som de seus soluços até uma pequena área de espera, onde uma multidão se reunira. No centro de tudo estava minha filha, o rosto manchado de lágrimas, seu corpinho tremendo.
"Ela é uma mentirosa! Ela empurrou minha mamãe!", um menino gritou, apontando um dedo acusador para Bia.
"Eu vi! A menininha correu direto para a grávida!", uma mulher na multidão acrescentou, sua voz pingando julgamento.
Abri caminho entre os curiosos, meu coração martelando contra minhas costelas. "Bia!"
Ajoelhei-me e a puxei para meus braços, segurando-a com força. "Está tudo bem, meu amor. A mamãe está aqui."
"Eu não a empurrei", Bia soluçou em meu ombro. "Eu tropecei, mamãe. Eu só tropecei."
Uma voz familiar e fria cortou o barulho. "O que está acontecendo aqui?"
Olhei para cima, e meu sangue gelou. Bruno estava ali, e agarrada ao seu braço, parecendo pálida e frágil, estava Amanda Medeiros. Ela era a mulher grávida.
"Bruno, querido", Amanda choramingou, apoiando-se pesadamente nele. "Aquela menininha... ela correu direto para mim. Estou tão preocupada com o bebê."
Meu olhar encontrou o de Bruno por cima do cabelo perfeitamente penteado de Amanda. Ele estava olhando para mim, sua expressão indecifrável, e então seus olhos se desviaram para a menina pequena e soluçante em meus braços.
Para a Bia.
E pela primeira vez, ele realmente a viu. Ele viu o formato de seus olhos, o cacho escuro de seu cabelo, a teimosia de seu queixo pequeno. Ele se viu. Um lampejo de choque, de reconhecimento crescente, cruzou seu rosto.
Instintivamente, puxei Bia para mais perto, protegendo-a de seu olhar, da verdade que de repente estava, terrivelmente, escrita em todo o seu rosto.
"Podemos verificar as câmeras de segurança", eu disse, minha voz trêmula, mas firme. "Minha filha não é uma mentirosa."
Os olhos de Amanda se arregalaram, e quando ela olhou para mim, a máscara de fragilidade escorregou. Vi um flash de puro veneno, e algo mais: reconhecimento.
"Você", ela sussurrou, sua voz carregada de descrença e ódio. "Elisa Dantas. Eu devia saber."
Ela se virou para a multidão, sua voz se elevando com pânico teatral. "É ela! A filha do homem que vendeu materiais de construção tóxicos! O homem que matou meu tio! Eles arruinaram minha família, e agora ela voltou! Ela voltou para nos machucar de novo!"
A multidão explodiu em murmúrios. Eu podia sentir seus olhares, seu julgamento, queimando em mim. Cobri os ouvidos de Bia, tentando protegê-la do veneno.
Amanda caiu no choro, agarrando o braço de Bruno. "Ela fez de propósito, Bruno! Ela está tentando se vingar! Ela fez a filha dela machucar nosso bebê!"
Você pode gostar





