
O Preço da Honra
Capítulo 3
A fuga não era uma opção. Os muros da propriedade eram altos, e os cães do Senhor, ferozes. Maria percebeu que a única saída não era física. Ela passou a noite em sua cela fria, o corpo dolorido, a mente trabalhando febrilmente. Havia lendas antigas, sussurradas entre os servos, sobre um pacto, uma forma de deixar este mundo para trás e renascer. Uma reencarnação. Mas o preço era alto. Significava entregar sua alma a forças antigas e imprevisíveis.
Na manhã seguinte, quando o sol mal despontava, ela seguiu as instruções das lendas. Foi até o poço mais antigo da propriedade, um lugar que todos evitavam, dizendo ser assombrado. Ela sussurrou as palavras proibidas, o nome da entidade que governava as passagens. O ar ficou pesado, e a água do poço começou a borbulhar. Uma figura sombria, feita de sombras e sussurros, emergiu.
"Você me chama," a voz era um eco de mil vozes. "Você deseja partir. Mas a única passagem aberta para uma alma marcada como a sua é de sofrimento. Você renascerá em uma vida de dor, solidão e perda. Uma vida ainda pior do que esta."
A descrição era terrível, mas para Maria, qualquer coisa era melhor do que continuar sob o jugo do Senhor. "Eu aceito," ela disse, a voz firme, sem hesitação. A liberdade, mesmo que fosse a liberdade de sofrer em outro lugar, era tudo o que ela queria.
"Tão ansiosa para me deixar, Maria?" Uma voz familiar e gélida cortou o ar. O Senhor estava parado atrás dela, um sorriso de escárnio no rosto. A figura sombria no poço recuou diante dele. Ele era mais poderoso do que ela imaginava.
"Você não vai a lugar nenhum," ele disse, agarrando seu braço com uma força que fez seus ossos estalarem. "Sua dívida ainda não foi paga." Ele a arrastou de volta para a casa principal, o desprezo em seus olhos mais intenso do que nunca.
Ele a levou para um quarto luxuoso, um contraste gritante com sua cela imunda. Na cama, deitada em lençóis de seda, estava uma jovem pálida e doente. Era a filha do Senhor, uma criatura frágil que raramente era vista.
"Minha filha está morrendo," ele disse, a voz desprovida de qualquer emoção exceto uma possessividade fria. "Os curandeiros dizem que sua força vital está se esvaindo. Mas há uma maneira. Um ritual antigo. Uma transferência. Você dará sua força vital a ela." Não era uma pergunta. Era uma ordem. Ele a estava condenando a uma morte lenta e agonizante para salvar a própria filha.
O ritual começou naquela mesma noite. Eles a amarraram a uma cadeira ao lado da cama da jovem. O curandeiro do Senhor, um homem velho com olhos que não viam nada, começou a entoar cânticos em uma língua morta. Maria sentiu uma dor fria começar em seu peito, espalhando-se por suas veias como gelo. Era como se sua vida estivesse sendo drenada, gota a gota. A energia a abandonava, deixando para trás um vazio oco e doloroso. Sua visão escureceu nas bordas, e a respiração tornou-se um esforço. Cada batida de seu coração era um martelo contra suas costelas, lembrando-a de que seu tempo estava se esgotando.
Enquanto a vida de Maria se esvaía, a cor voltava ao rosto da filha do Senhor. Ele segurava a mão da filha, sussurrando palavras de amor e conforto, ignorando completamente a mulher que morria a poucos metros de distância. Para dar à filha uma chance extra de sobrevivência, ele pegou uma faca de prata e, sem hesitar, cortou a própria palma da mão, deixando seu próprio sangue, sua própria força vital, misturar-se à transferência. Era um ato de sacrifício, de profundo amor paterno. Um amor que ele nunca demonstrou a mais ninguém, um amor que era a fonte de toda a sua crueldade.
Maria observou a cena com olhos vazios. Ela viu o sacrifício do Senhor, a profundidade de seu amor por aquela garota. E, em vez de sentir ódio, ela sentiu... nada. Um vazio absoluto. O amor dele, a fonte de sua dor, era tão intenso quanto o ódio que ele lhe dedicava. Eram duas faces da mesma moeda. Naquele momento, qualquer resquício de sentimento que ela pudesse ter por aquele homem, fosse medo ou raiva, morreu. Ele era apenas uma força da natureza, cego e destrutivo em sua devoção.
E no fundo de sua mente cansada, um pensamento claro se formou. Um dia, ele descobriria a verdade. Ele descobriria que a doença de sua filha não era natural. Ele descobriria a verdadeira natureza do roubo. Ele descobriria tudo. E a dor que ele sentiria naquele dia seria mil vezes pior do que qualquer coisa que ele já a tivesse feito sofrer. Ela não estaria lá para ver, mas a certeza daquele futuro acerto de contas era um pequeno e amargo consolo. Era uma profecia silenciosa, uma semente de vingança plantada no solo de seu sacrifício.
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