
O Passado Não Tem Futuro
Capítulo 2
Por dez anos, eu vivi um segredo.
Meu nome é Maria Eduarda, e meu segredo se chamava Pedro.
Ele era o dono da vinícola onde eu trabalhava, um empresário charmoso e bem-sucedido que nunca, em uma década, postou uma única foto nossa. Ele dizia que era para proteger a imagem dele, para proteger a nossa relação de um mundo que não entenderia.
Eu acreditei.
Até hoje.
Eu estava sentada na minha mesa, finalizando um relatório, quando meu celular vibrou com uma notificação do Instagram. Era uma marcação de uma amiga em comum.
Abri o aplicativo sem pensar muito.
E meu mundo desabou.
A foto era profissional, iluminada por um sol de fim de tarde na França. Pedro estava lá, sorrindo de um jeito que eu conhecia bem, um jeito que eu achava que era só meu. Ao lado dele, uma mulher loira e elegante, com uma taça de vinho na mão, olhava para ele com adoração.
Era Isabella, a ex-namorada dele. A sommelière famosa que o tinha deixado anos atrás para ir estudar na Europa.
A legenda, escrita por Pedro, era um soco no meu estômago.
"Ela disse sim. O futuro começa agora. #Noivos #AmorVerdadeiro #Isabella&Pedro"
Meu ar sumiu. O escritório, antes barulhento, ficou em silêncio absoluto. Eu só conseguia ouvir o sangue pulsando nos meus ouvidos.
Dez anos. Dez anos escondidos em jantares secretos, viagens de fim de semana disfarçadas de compromissos de trabalho, noites em que ele saía do meu apartamento antes do amanhecer para que ninguém o visse.
Tudo isso para ele anunciar um noivado com a ex em uma rede social que ele mal usava.
Abaixo da foto, os comentários explodiam.
"Parabéns, Pedro! Finalmente! Sabia que vocês iam voltar!"
"Que casal lindo! Feitos um para o outro!"
Então, vi o comentário da nossa amiga em comum, a que me marcou.
"E a Duda? Ela sabe disso?"
Senti o calor da vergonha subindo pelo meu rosto. Todos sabiam. Todos os nossos amigos sabiam do nosso caso, mesmo que fingissem não saber. Agora, eu era a piada, a amante secreta que foi publicamente trocada.
Respirei fundo, tentando encontrar algum controle. Meus dedos tremiam, mas eu consegui digitar uma resposta.
"Claro que sei. Felicidades a eles."
Minha voz interna ria de mim. Uma risada amarga e dolorosa. Patética. Era isso que eu era.
Mal enviei o comentário, meu celular tocou. Era Pedro. Ignorei. Segundos depois, uma mensagem dele chegou no WhatsApp.
"Duda, me atende. Aquilo foi uma brincadeira. Verdade ou consequência com uns amigos. Eu já apaguei."
Verifiquei o Instagram. A foto tinha sumido. Mas a imagem estava gravada na minha mente. A mentira dele era tão óbvia, tão insultante, que quase me fez rir. "Verdade ou consequência". Um empresário de quase quarenta anos.
Ele continuou mandando mensagens.
"Amor, por favor, fala comigo."
"Não acredita nisso. Você sabe que eu te amo."
"Estou indo para casa agora. A gente conversa."
Eu não respondi. Desliguei as notificações. Olhei para a tela do meu computador, para o relatório da vinícola dele. Senti um nó na garganta.
Com uma calma que eu não sabia que possuía, fechei tudo. Peguei minha bolsa.
Saí do escritório sem me despedir de ninguém.
Entrei no meu carro e, em vez de ir para o nosso apartamento, o apartamento que ele pagava, peguei o telefone e disquei um número que não usava há anos.
O telefone da minha mãe.
Ela atendeu no segundo toque.
"Filha? Aconteceu alguma coisa?"
Minha voz saiu firme, sem nenhum traço do caos que estava dentro de mim.
"Mãe, aquela proposta de casamento... com o Lucas. Ainda está de pé?"
Houve um silêncio do outro lado da linha. Um silêncio que continha toda a preocupação e a sabedoria de uma mãe que sempre soube que eu estava me machucando.
"Sempre esteve, minha filha. Você tem certeza?"
"Tenho", eu disse, olhando para o meu reflexo no espelho retrovisor. Eu não me reconhecia. "Eu aceito."
Eu ia me casar com Lucas, o herdeiro de uma tradicional família do café. Um homem com quem eu tinha rompido todos os laços na infância, um homem que eu mal conhecia.
Qualquer coisa era melhor do que ser o segredo de Pedro.
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