
O Passado Não Tem Futuro
Capítulo 3
"Você não precisa fazer isso, Maria Eduarda", disse minha mãe ao telefone, sua voz carregada de preocupação.
"Eu quero, mãe. Eu já decidi."
"Um casamento arranjado não é uma solução. Lucas é um bom rapaz, mas a família dele é... complicada. E você nem fala com ele desde que eram crianças. Isso é um sacrifício muito grande."
Um sacrifício. Ela não fazia ideia do sacrifício que eu já tinha feito por dez anos.
"Não é um sacrifício, mãe. É uma escolha."
Desliguei o telefone antes que ela pudesse argumentar mais. Minha decisão estava tomada. O caminho de volta para minha cidade natal, para a casa dos meus pais, pareceu mais curto do que nunca.
Enquanto dirigia, as memórias vinham em flashes.
Pedro não era um estranho que conheci em um bar. Ele era praticamente da família. O melhor amigo do meu falecido pai. Depois que papai morreu, minha mãe, em luto profundo, pediu que Pedro cuidasse de mim. Eu tinha dezessete anos, e ele, quase trinta.
Ele cuidou. Cuidou até demais.
Ele me buscava na escola, me ajudava com o dever de casa, me ouvia falar sobre meus sonhos. Ele era a figura masculina forte e protetora que eu tinha perdido. Eu me apaixonei pela segurança que ele me oferecia.
No meu aniversário de dezoito anos, ele me beijou pela primeira vez. Ele disse que era errado, que ele era muito mais velho, que minha mãe nunca aceitaria. Mas ele também disse que não conseguia evitar.
E assim começou nosso segredo.
Eu fui para a faculdade na mesma cidade que ele. Depois de formada, ele me deu um emprego na sua vinícola. Ele me deu um apartamento. Ele me deu uma vida confortável, mas uma vida nas sombras.
Eu nunca podia postar uma foto nossa. Nunca podia apresentá-lo como meu namorado. Em eventos da empresa, eu era apenas a "protegida" dele, a filha do seu falecido amigo. Eu aceitei tudo, engoli todas as desculpas. Eu achava que o amor dele valia a pena.
Cheguei em casa e a luz do nosso apartamento estava acesa. Meu estômago revirou. Ele estava lá.
Entrei e o encontrei na sala, andando de um lado para o outro. Quando me viu, correu na minha direção e me abraçou.
"Duda! Graças a Deus. Fiquei tão preocupado. Por que não atendeu minhas ligações?"
Eu não o abracei de volta. Fiquei parada, rígida em seus braços, até que ele me soltou, sentindo minha frieza.
"O que foi, amor? É por causa daquela postagem idiota? Eu já te expliquei, foi uma brincadeira. Isabella e eu somos só amigos."
Ele tentou segurar meu rosto, mas eu me afastei.
"Não me toca, Pedro."
Ele pareceu chocado com o meu tom.
"Duda..."
Ele então viu a pequena mala que eu tinha deixado perto da porta. Seus olhos se arregalaram.
"O que é isso? Você vai a algum lugar?"
Antes que eu pudesse responder, ele mudou de tática. Sorriu, aquele sorriso charmoso que sempre me desmontava, e pegou uma pequena caixa de veludo do bolso.
"Olha, eu sei que pisei na bola. Mas eu trouxe uma coisa para me desculpar."
Ele abriu a caixa. Dentro, havia um colar delicado de ouro branco com um pequeno pingente de cacho de uva, cravejado de diamantes minúsculos. Era lindo. E era uma ofensa.
"Para compensar o anel de noivado que você viu na mão da outra?", perguntei, minha voz cortante.
A expressão dele vacilou.
"Não fala assim, Duda. Isso não tem nada a ver com ela. Isso é sobre nós. Eu te amo. Você é a mulher da minha vida."
Palavras. Eram apenas palavras vazias.
"Eu estou cansada, Pedro. Preciso de um banho."
Virei as costas e fui para o quarto, deixando-o parado na sala com a caixa de joias aberta na mão. Aquele colar era apenas mais uma corrente, mais uma forma de me manter presa a ele, em segredo.
E eu estava decidida a me libertar.
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