
O Nosso Último Aniversário
Capítulo 2
O telefone tocou incessantemente, o seu zumbido agudo perfurava o silêncio da noite.
Era o meu décimo aniversário de casamento.
Eu tinha preparado o jantar, um bife mal passado, exatamente como o meu marido, Pedro, gostava.
Mas ele não estava em casa.
Olhei para o relógio na parede, os ponteiros já passavam da meia-noite.
A comida na mesa estava fria.
O seu telefone foi finalmente atendido, mas não foi a voz dele que ouvi.
"Olá? Quem fala?"
Era a voz de uma mulher, soava sonolenta e um pouco irritada.
Reconheci-a imediatamente, era a voz de Sofia, a sua assistente.
O meu coração afundou-se.
"Sou a esposa do Pedro," disse eu, a minha voz a tremer ligeiramente. "Ele está aí?"
Houve um silêncio do outro lado, depois um farfalhar de lençóis.
"Ele está a dormir," disse Sofia, a sua voz agora mais clara. "Está exausto. Tivemos um projeto muito importante hoje."
Um projeto. Claro.
"Podes acordá-lo por mim? É importante."
"Olha, ele trabalhou muito," respondeu ela, a sua impaciência evidente. "O que quer que seja, não pode esperar até amanhã? Ele precisa de descansar."
A sua voz era possessiva, como se ela tivesse o direito de decidir quem podia ou não falar com o meu marido.
Respirei fundo, tentando manter a calma.
"É o nosso aniversário de casamento," disse eu, as palavras a saírem com dificuldade. "Eu só queria falar com ele."
Sofia riu-se, um som baixo e desdenhoso.
"Aniversário? Ele não mencionou nada. Deve ter-se esquecido. Ele tem estado muito focado no trabalho ultimamente."
"Por favor, passa-lhe o telefone," insisti eu.
Ouvi-a suspirar. "Está bem, espera."
O telefone foi pousado, e eu ouvi a voz dela ao longe, a chamar o nome dele suavemente. "Pedro... querido... o teu telefone."
Querido.
A palavra atingiu-me com força.
Finalmente, ouvi a voz sonolenta e irritada do Pedro.
"O que foi? Quem é a esta hora?"
"Pedro, sou eu, a Lara."
"Lara? O que se passa? Aconteceu alguma coisa com a mãe?"
A sua primeira preocupação era sempre com a mãe dele, que vivia connosco.
"Não, ela está bem," respondi. "Sabes que dia é hoje?"
Ele fez uma pausa. "É quinta-feira. Porquê?"
Ele tinha-se esquecido.
"É o nosso décimo aniversário," disse eu, a minha voz vazia. "Eu fiz o jantar. Esperei por ti."
"Ah," disse ele, o seu tom desinteressado. "Desculpa, esqueci-me completamente. O trabalho foi uma loucura. Tivemos de ficar até tarde para fechar um negócio."
"Com a Sofia?" perguntei diretamente.
"Sim, ela foi uma grande ajuda. Sem ela, não teríamos conseguido," disse ele, sem qualquer hesitação.
"Ela está aí contigo agora?"
"Sim, adormecemos no sofá do escritório. Estávamos ambos exaustos."
Uma mentira tão óbvia. Eu ouvi os lençóis. Eu ouvi-a chamá-lo de "querido".
"Pedro, quero o divórcio."
As palavras saíram antes que eu pudesse detê-las. O silêncio que se seguiu foi pesado.
"Divórcio? Estás a brincar?" ele finalmente disse, a sua voz a subir de tom. "Por causa de um aniversário esquecido? Não sejas ridícula, Lara. Estás a exagerar."
"Não é só pelo aniversário, Pedro. É por tudo."
"Olha, estou cansado. Não quero discutir isto agora. Falamos amanhã quando eu chegar a casa."
"Não haverá amanhã para nós, Pedro."
"Lara, para com o drama! Tens noção do quão importante este negócio era? Estás a ser egoísta! A Sofia sacrificou a sua noite por isto, e tu estás a queixar-te de um jantar?"
"Ela sacrificou a noite dela, ou passou-a na tua cama?"
Ele ficou furioso. "Não sejas desrespeitosa! A Sofia é minha colega! Estás a imaginar coisas! Já chega! Vou desligar. Pensa no que fizeste!"
Ele desligou o telefone na minha cara.
Fiquei a olhar para o telefone na minha mão. O ecrã escuro refletia o meu rosto pálido.
Senti-me vazia. Dez anos. Dez anos reduzidos a uma chamada telefónica e a uma mentira mal contada.
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