
O Nosso Último Aniversário
Capítulo 3
Na manhã seguinte, a mãe do Pedro, a Dona Helena, bateu à porta do meu quarto.
Eu não tinha dormido nada.
"Lara, o Pedro não veio a casa ontem à noite?" perguntou ela, a sua voz cheia de preocupação.
"Não, ele teve de trabalhar até tarde," respondi eu, a minha voz rouca.
Ela franziu a testa. "Trabalhar até tarde? Mas ele prometeu levar-me ao médico hoje para a minha consulta de rotina."
Claro que prometeu. Ele prometia sempre muitas coisas.
"Ele deve ter-se esquecido," disse eu, levantando-me da cama. "Eu levo-a, Dona Helena. Deixe-me só vestir-me."
Ela olhou para mim, os seus olhos a examinarem o meu rosto.
"Estás bem, minha querida? Pareces pálida."
"Estou só cansada," menti.
No hospital, enquanto esperávamos pelo médico, o meu telefone vibrou. Era uma mensagem do Pedro.
"Desculpa por ontem à noite. Fui insensível. Podemos falar quando eu chegar a casa? Amo-te."
Amo-te. A palavra parecia oca, sem significado.
Ignorei a mensagem.
A consulta da Dona Helena correu bem. O médico disse que a sua pressão arterial estava um pouco alta, mas nada com que se preocupar.
Quando saímos, ela insistiu em passar no escritório do Pedro para o surpreender.
"Assim podemos almoçar todos juntos," disse ela, sorrindo.
O meu coração apertou-se. "Não sei se é uma boa ideia, ele pode estar ocupado."
"Oh, não sejas boba. Ele ficará feliz por nos ver."
Não consegui dissuadi-la. Quinze minutos depois, estávamos na receção da empresa do Pedro.
A rececionista reconheceu-me e sorriu. "Olá, Dona Lara. O Sr. Pedro está numa reunião, mas deve terminar em breve."
"Nós esperamos," disse a Dona Helena, sentando-se num dos sofás.
Enquanto esperávamos, a porta de uma sala de reuniões abriu-se e a Sofia saiu, a rir de algo que alguém disse lá dentro.
Ela usava um vestido justo que eu nunca tinha visto. O seu cabelo estava perfeitamente penteado. Ela parecia radiante.
Os nossos olhos encontraram-se. O sorriso dela vacilou por um segundo, mas depois recuperou-se, transformando-se num sorriso polido e profissional.
"Dona Lara, que surpresa," disse ela, aproximando-se. "E esta deve ser a Dona Helena. O Pedro fala muito de si."
A Dona Helena sorriu, encantada. "É um prazer conhecê-la, minha querida. O Pedro diz que você é uma grande ajuda para ele."
"Eu tento o meu melhor," disse Sofia, modestamente.
Nesse momento, o Pedro saiu da sala. O seu sorriso desapareceu quando nos viu.
"Mãe? Lara? O que estão a fazer aqui?"
"Viemos fazer-te uma surpresa!" disse a Dona Helena, levantando-se para o abraçar. "Pensei que podíamos almoçar juntos."
O Pedro olhou para mim por cima do ombro da mãe, o seu olhar era uma mistura de irritação e pânico. Depois olhou para a Sofia.
"Na verdade, mãe, eu e a Sofia já tínhamos planos para almoçar. Temos de discutir os próximos passos do projeto."
A desilusão no rosto da Dona Helena era evidente.
"Oh," disse ela. "Está bem, então. Nós vamos indo."
"Não!" A voz da Sofia era excessivamente doce. "Porque não vêm connosco? Há um ótimo restaurante italiano aqui perto. Eu insisto."
Ela olhou para o Pedro, que assentiu rigidamente.
Senti-me como se estivesse a assistir a uma peça de teatro. Eles eram os atores principais, e eu e a Dona Helena éramos a audiência indesejada.
"Não, obrigada," disse eu, a minha voz firme. "Eu e a Dona Helena temos outros planos. Vamos indo."
Agarrei no braço da minha sogra gentilmente. "Vamos, Dona Helena."
Ela parecia confusa, mas seguiu-me.
Quando estávamos a sair, ouvi a Sofia dizer ao Pedro em voz baixa: "Ela sabe?"
E a resposta dele, ainda mais baixa: "Acho que sim."
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