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Capa do romance O leão e a pantera

O leão e a pantera

Após sua jornada épica, July retorna ao lar sem compreender os mistérios de sua volta. Determinada a regressar ao mundo fantástico, ela descobre que o portal antigo está alterado, frustrando seus planos. Enquanto busca respostas, a jovem de dezessete anos enfrenta conflitos familiares intensos. Pressionada pelos pais, ela se vê isolada e diante de um destino indesejado: um casamento arranjado que ameaça sua liberdade e seus novos objetivos.
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Capítulo 2

Se aproximou do buraco e enfiou o dedo para ver se era de verdade. Vendo que o dedo atravessou, era mesmo um buraco e não coisa da sua mente. Mas o que aconteceu afinal? Estava tão confusa com tudo. Se lembrava de estar esperando eles voltarem para casa com a comida e depois o Kenup chegar. O que aconteceu depois disso? Por mais que se esforçasse, não conseguia se lembrar de jeito nenhum.

Pegou o desenho e desamassou. Respirou fundo e apertou o papel contra o peito. Como ela faria para ver o Adriel de novo? Será que eles sabiam o que tinha acontecido? Quem sabe não conseguiriam abrir um portal e fossem buscá-la?

Resolveu puxar o armário para onde estava o buraco para que ninguém visse aquilo e perguntasse o que aconteceu, ela não saberia responder. Depois ficou horas deitada na cama lendo o caderno dos sonhos. Era incrível que cada coisa que escreveu foi visto naquele lugar. Sorriu sozinha com as lembranças. Acabou dormindo com o caderno em cima do peito.

No dia seguinte sentiu uma cosquinha na bochecha e abriu os olhos. A mãe dela a acordava. Será que aconteceu algo com ela? Nunca foi uma mãe carinhosa e agora estava a acordando com carinhos em vez de gritos?

— Está bem?

— Sim.

— Vamos.

— Aonde?

— Pra escola, onde mais?

— Ah não! Eu ainda estou muito mal! — Cobriu a cabeça com o travesseiro.

— Você acabou de dizer que está bem, July.

— Mas eu perdi um tempo de aula!

— Não tem problema, os professores vão te ajudar. Foram só alguns meses.

July resmungou contrariada.

Ter que vestir aquele uniforme cafona de novo a fez ficar com um grande mau humor. Sem falar no grande calor que estava sentido! Já tinha se acostumado com o frescor daquele lugar, agora voltar para o forno ia ser difícil!

— Tenha um bom dia — o pai dela falou isso depois de beijar sua testa.

— Vocês estão bem? — perguntou com a testa franzida.

— Por que não estaríamos?

— Nunca foram assim comigo.

Os dois trocaram olhares e July percebeu que ficaram incomodados com o que ela disse.

— Quando chegar, vamos conversar melhor.

— Por que não conversamos agora e amanhã eu volto pra escola?

Os dois cruzaram os braços e ela suspirou.

Saiu de casa e respirou fundo, até respirar ali era mais difícil. Caminhou até a escola, que agora era bem perto e não vinte minutos de distância a pé. Praticamente se arrastou até sua turma e quando apareceu na porta, todos olharam para ela. Alguns vieram em sua direção e perguntaram se estava bem, se não ficou com sequelas.

July espantou os curiosos quando as perguntas começaram a irritar. Agora ela entendeu porque o Adriel reclamava tanto das perguntas dela! O professor entrou na turma e cumprimentou ela. No fim da aula, quando ia embora, ele pediu para que ficasse. Parou em frente à mesa do homem careca e esperou o que ele queria falar.

— Sei que está cansada e quer ir pra casa, só queria falar sobre a matéria que se acumulou.

— Eu vou repetir, não é? Perdi muito tempo.

— Não vai repetir se você se esforçar.

— Isso quer dizer estudar até morrer...

— Quer dizer estudar para conseguir nota. Você só perdeu quatro meses de aulas.

— Dá no mesmo — resmungou e o homem olhou a porta do lugar. Se alguém visse ela falando assim, poderia dar problemas.

— Controle-se! Acho que não esqueceu as regras sobre comportamento, ou esqueceu?

— Se eu tiver esquecido por causa do acidente, ninguém pode brigar comigo, não é?

July percebeu que ele segurou o sorriso.

— Melhor você ir descansar.

— Obrigada.

— Até amanhã.

Voltou para casa reclamando sozinha por ter que ficar com o nariz enfiado em livros. Quando entrou, viu seus pais parados em pé um ao lado do outro e tinham expressões suspeitas no rosto.

— Que foi?

Os dois se afastaram e ela viu um pequeno bolo de aniversário em cima da mesa. A menina se aproximou e deixou a mochila cair no chão. Se passaram dez meses desde a guerra... Era aniversário de dezessete anos dela.

Isso não podia ser bom!

— Feliz aniversário, minha filha!

A mãe dela a abraçou e depois o pai.

— Não pode ser meu aniversário! Eu perdi dez meses da minha vida?

Os dois trocaram olhares.

— Sei que ainda está tudo complicado para você, mas as coisas não pararam enquanto você estava lá — disse o pai dela e July olhou para o chão. Realmente enquanto ela estava com Adriel, o tempo não deve ter parado. Mas por que será que eles achavam que ela ficou em coma?

— Eu não quero comemorar, por favor, não me levem a mal.

— Claro que não. A gente entende.

— Obrigada. Só quero deitar na minha cama...

Ela foi para o quarto e encostou na porta. Precisava voltar para a casa de Adriel antes que começasse a aparecer homens querendo se casar com ela! Mas não fazia ideia do que fazer!

***

Os dias começaram a passar depressa. Quanto mais os dias passavam, mais aflita July ficava. Os pais dela já tinham recebido três pessoas em casa para se casar com ela e isso estava a deixando louca! Precisava agir e já!

Passou pelo corredor como uma bala e apareceu na sala com um short curtinho, que ela cortou com a tesoura. Os pais do garoto que estava se apresentando a olharam com os olhos arregalados.

— Com licença... — A mãe de July a agarrou pelos braços e a arrastou para o quarto. — O que está fazendo?

— Evitando uma tragédia!

— Aquele foi o melhor partido que encontramos até agora!

— É mesmo? E quem disse que eu ligo?

O rosto da mulher endureceu.

— Acho melhor você começar a se controlar, July. Sabe que as coisas têm que ser feitas perante a lei.

— Eu não ligo pra essa lei idiota! — falou alto.

— Fala baixo, July! — repreendeu com o rosto vermelho, a menina não soube dizer se de raiva ou vergonha. — Comece a se acostumar! E se ficar de gracinha, escolheremos o marido mais velho que chegar aqui! — Saiu do quarto batendo a porta e July sentou na cama.

Em pouco tempo começou a chorar de soluçar. Precisava fugir dali. Como se casaria com alguém depois de encontrar o Adriel? Se antes já era ruim, agora ficou pior ainda.

***

Entrou em casa depois de mais um tedioso dia de aula. Ao passar pela sala, ficou paralisada olhando sua mãe e um homem. Estava sozinha com ele. A mulher sorriu ao ver July e o homem a olhou também. July arregalou os olhos ao ver o médico que cuidou dela. Ele sorriu ao vê-la e a olhou de cima para baixo. July estava com a roupa da escola e um pouco descabelada, mas tinha a boina na cabeça. Não encontrou reação para aquela cena que presenciava. No fundo ouvia sua mãe dizer que era o melhor partido que tinha entrado naquela casa, mas parecia até sonho. As vozes pareciam estar baixas, como se fosse um rádio tocando no volume baixo.

Saiu do transe quando o homem parou na frente dela.

— Até mais, July.

Não respondeu, pois estava chocada demais para isso. Viu sua mãe se aproximar com um largo sorriso e revirou os olhos.

— É ele!

— E se eu não quiser?

— Você não tem que querer!

July bufou estressada. Jane passou a mão no cabelo dela e tirou a boina de sua cabeça. Ela analisou a garota.

— Que é?

— Seu cabelo está muito grande — falou apontando para o cabelo que batia na altura do cotovelo. — Vamos cortar.

Quando ela falou isso, a memória de Adriel colocando o cabelo dela atrás da orelha veio sem que pudesse evitar.

— Não vai cortar nada!

— July não piora as coisas!

— Eu não quero cortar o meu cabelo por causa de um cara que nem conheço! Não quero me casar com ele e viver, comer e dormir com uma pessoa que nem sei o caráter!

— Pare de falar besteiras, July!

— Eu me nego.

— Você não pode fazer isso. Quem escolhe somos eu e seu pai.

— Mas a vida é minha!

Jane segurou o braço dela com força.

— Pare de pedir para morrer, July! Você sabe que quando faz dezessete tem que se casar com alguém!

— Eu não quero mãe...

A mulher soltou o braço dela ao ver seus olhos cheios de lágrimas.

— Eu não quero...

— Eu sei que está assustada, July, mas estamos fazendo isso para te proteger. Se não fosse essa lei, você não se casaria tão cedo.

July fechou os olhos e as lágrimas escorreram pelo seu rosto.

— Vem cá.

Quando sentiu os braços de sua mãe em volta de sua cintura, chorou mais ainda. Nunca tinha acontecido isso antes e a mãe dela nunca conversou com ela sobre nada. Absolutamente nada!

— Estou escolhendo-o porque conheço e sei que vai te tratar bem. Entendeu?

July concordou.

— Confie em mim. Ele é o melhor de todos.

Não tinha muita opção mesmo, não é?

***

Alguns dias se passaram e o médico sempre visitava July depois do trabalho. Isso também era uma regra. O homem que quisesse se casar, deveria cortejar a garota até que firmasse o compromisso.

July estava sentada na varanda da casa com um grande bico. Ele chegaria a qualquer momento. Viu ele aparecer e revirou os olhos. Podia falhar pelo menos um dia, não é? Assim teria desculpa para falar que era ruim!

— Olá.

— Oi — respondeu emburrada.

— Não precisa ficar com raiva de mim.

— Não tenho raiva de você, só dessa situação.

— Você não tem travas na língua mesmo, não é? Por isso gostei de você.

Ela levantou o olhar que estava em seus pés e o encarou. O homem sorriu de lado.

— Já posso entrar?

Ele deu uma risadinha.

— Não. Vou te levar para sair hoje.

— Fala sério... — resmungou.

— Ande logo! — Agarrou o pulso dela e fez com que levantasse da cadeira.

— Não me apresse! Não gosto disso.

— Quanto mais rápido formos, mais rápido você volta.

July ficou pensativa.

— Aonde vamos? — perguntou já indo na frente dele e escutou sua risada.

— Vou te levar para conhecer meus pais.

Ela parou de andar na mesma hora e olhou para trás.

— Você está indo rápido demais!

— Pra que demorar tanto? — Ele deu de ombros.

— Não gosto que fiquem me pressionando...

— Olha eu sei que tudo isso deve ser horrível pra você. Tão nova e tendo que se casar. Mas eu estou disposto a te fazer feliz.

— Por que acha que consegue? — July riu.

— Muitas meninas queriam estar no seu lugar, sabia?

— Ótimo! Ainda por cima é convencido! — Revirou os olhos e o homem deu uma gargalhada alta.

— Vamos, eles estão esperando a gente.

— Droga! — reclamou e foi com ele.

Quando chegaram na casa dele, July ficou um pouco mais tensa do que já estava. A casa era imensa e muito bem arrumada. Olhou o loiro e ele sorriu. Entraram no lugar e ela reparou tudo. Tanta gente passando fome e eles com estátuas de ouro? Jura? Agora que não queria casamento mesmo!

— Olá! Bem-vinda! — Um homem baixinho e gorducho se aproximou e abraçou July.

Ela franziu a testa e olhou para o médico. Ele fez sinal para ela abraçar de volta e ela deu um leve tapa no ombro do homem.

— Meu nome é Augustin! É um prazer receber uma menina tão bonita como você!

July sorriu sem graça.

— Pena que eu já sou casado... — sussurrou para ela, que ergueu uma das sobrancelhas.

— Pai!

O homem deu uma risadinha.

— É brincadeira, filho! Entre! Minha esposa espera ansiosa.

Os dois seguiram o homem e entraram em um lugar bem grande com uma mesa lotada de comida. Logo uma mulher magra e bem vestida se aproximou dela. Usava um vestido extravagante até os pés e um salto alto enorme. Aparentava ter uns quarenta anos.

— Bem-vinda, querida! Estamos muito felizes em conhecer você.

— Obrigada.

— Sente-se. — Apontou para a cadeira e July seguiu até lá. — Anthony me disse que você era muito bonita, mas achei que estava exagerando.

— Talvez estivesse mesmo...

Os dois riram e July olhou o loiro, que sorria.

— Não, ele tem toda a razão.

July sentiu as bochechas esquentarem e desviou o olhar.

— Ela é tão fofa!

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