Capa do romance O leão e a pantera

O leão e a pantera

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Após sua jornada épica, July retorna ao lar sem compreender os mistérios de sua volta. Determinada a regressar ao mundo fantástico, ela descobre que o portal antigo está alterado, frustrando seus planos. Enquanto busca respostas, a jovem de dezessete anos enfrenta conflitos familiares intensos. Pressionada pelos pais, ela se vê isolada e diante de um destino indesejado: um casamento arranjado que ameaça sua liberdade e seus novos objetivos.

O leão e a pantera Capítulo 1

Sentiu seu corpo pesado e dolorido, tentou se mexer e não teve tanto sucesso. As únicas coisas que conseguiu mexer foram as pálpebras. Então abriu os olhos lentamente. Piscou algumas vezes tentando se lembrar onde estava e não conseguiu reconhecer o local. Ouviu um barulho de porta abrindo e tentou virar a cabeça para ver, mas não conseguiu. Em pouco tempo viu sua mãe se aproximar e a olhou surpresa. A mulher passou a mão em sua cabeça e abriu um enorme sorriso.

— Você acordou, July!

Ela estava dormindo? Olhou ao redor e viu luzes redondas no teto. Pelo jeito do lugar, parecia um hospital. Tentou perguntar o que estava acontecendo, mas parecia que sua voz tinha morrido. Olhou sua mãe com pavor.

— Está tudo bem. Não fique assustada. Você teve um pequeno acidente e está no hospital, mas vai ficar boa.

A menina olhou o teto de novo. Acidente? Que acidente? Ela estava ótima! E como a mãe dela chegou à terra de Adriel? Que lugar era aquele? Como assim? Onde está o Adriel?

— Fique calma, July... — Sentiu a mão de sua mãe apertar a sua. — Vou chamar ajuda.

July escutou o barulho da porta abrindo e depois fechando. Ela ficou encarando o teto respirando rápido. Em pouco tempo, um homem vestido de branco se aproximou dela.

— Entende o que digo, querida? Se sim, pisque uma vez.

July fez o que ele disse.

— Bom! Sente isso? — Segurou o braço dela com um pouco de força, ela piscou uma vez. — E isso?

Ele começou a fazer vários testes no corpo dela para saber se estava tudo bem. July sentia tudo o que ele fazia, mas não conseguia se mexer. Já estava entrando em desespero e não conseguia parar de pensar em onde o Adriel estava.

— Pelo que parece ela vai ficar perfeitamente bem. Só deve demorar um pouco a voltar os movimentos e a fala, afinal, ficou em coma por um bom tempo.

A menina arregalou os olhos. Coma? Como assim coma? Ela estava ontem mesmo muito bem! Estava na casa de Adriel esperando eles voltarem com a comida... O que aconteceu afinal?

July estava inquieta na cama, queria porque queria levantar e falar para eles que não tinha coma nenhum! Ela estava perfeita e não era para estar em um hospital! Tinha que estar esperando eles chegarem com a comida e ver o Adriel novamente. Estava tão nervosa, que uma mulher se aproximou e injetou alguma coisa no fio do soro que ela nem viu que estava em seu braço. Em pouco tempo sentiu um sono enorme e fechou os olhos.

—... Mas o que ele disse a respeito?

Sentiu seus olhos pesados e abriu com dificuldade.

— Disse que ela está bem e deve voltar a falar e se mexer em uns dias.

Era a mãe e o pai dela conversando ao lado da cama. Quando o homem viu que estava de olhos abertos, sorriu.

— Ei... Você gosta mesmo de dormir, não é?

July franziu a testa.

O homem se aproximou e lhe deu um beijo no rosto.

— Estou feliz que voltou.

Não tinha como negar, ela realmente tinha voltado. Não pensou que voltaria para casa, mas vendo por essa situação toda, estava na cara que voltou para a Terra. Não de uma maneira boa como ela foi para a terra de Adriel, mas voltou.

***

Alguns dias se passaram depois que ela acordou naquele quarto de hospital. Sempre que abria os olhos, esperava estar na casa de Adriel, mas nunca era. Já conseguia se mexer e ia ao banheiro, mas com ajuda de sua mãe para não cair no chão.

Estava sentada na cama e brincava com os dedos. Jane tinha saído do quarto para buscar o almoço e a deixou sozinha. Alguém entrou no quarto e ela nem se deu ao trabalho de olhar. Há dias estava deprimida e queria ir embora dali, mas não para a casa dos pais.

— Como está hoje?

— Na mesma.

— Sabia que se melhorar o humor, você melhora mais rápido e assim pode ir pra casa?

A menina suspirou e olhou a pessoa que conversava com ela. Era um homem de cabelos loiros e olhos verdes. Parecia ser muito novo para ser médico, mas não se esforçou muito para pensar sobre isso.

— E depois?

— Depois o que?

— Que estiver melhor.

— Vai voltar a sua vida normal.

July fez careta.

— Quer uma vida diferente?

— Na verdade, sim.

— Todos querem, mas com esse cara no poder não tem como.

— Kirovs?

— Sim, quem mais?

— Claro que não pode...

— Está sentindo alguma coisa?

— Quanto tempo eu dormi?

— Uns dez meses.

July arregalou os olhos.

— Isso tudo?

— Sim.

— Por que eu fiquei assim?

— Bem, na última guerra que ele inventou, atacaram antes do previsto e você estava em seu quarto no momento. Seu quarto foi o mais destruído da casa. — Observou a reação da menina, mas ela só ficou paralisada e com os olhos arregalados. — Teve sorte em estar viva, sabia? É uma garota forte.

July olhou o rosto dele e sorria. Será que tinha mesmo autorização para ser médico?

— Você é médico mesmo?

— Por que a pergunta?

— Parece ser tão jovem.

— Eu não sou velho.

— Mas parece ser muito novo. Tipo uns vinte anos.

— É quase isso — respondeu sorrindo.

— Como conseguiu virar médico?

— Cresci em uma família de médicos. Então, desde pequeno aprendi a cuidar das pessoas e lidar com a morte. E também estudei desde novo.

— Hum...

— Você também é bem nova, não é?

— Tenho dezesseis — respondeu simplesmente.

O homem concordou com a cabeça e ficou pensativo, como se bolasse algum plano ou pensasse em algo para conquistar.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Tem como sonhar quando se está em coma?

— Alguns dizem que não, outros que sim. Tem gente que diz que a pessoa escuta e sabe de tudo o que acontece ao redor dela, mas não tem provas sobre isso. Por quê?

— Nada não.

A mãe de July apareceu no quarto com a comida dela e sorriu ao ver o homem ali dentro.

— Está tudo certo?

— Sim. Só passei para ver se está se recuperando.

— Quando vamos poder ir pra casa?

— Assim que ela melhorar esse humor e conseguir ficar em pé sem desequilíbrio ou tontura — disse olhando July.

Ela fez careta e o homem sorriu.

Comeu um pouco e ficou vendo tevê. Depois de um tempo acabou pegando no sono.

***

Acordou respirando ofegante e engoliu em seco. O quarto estava com as luzes apagadas, mas a do corredor iluminava lá dentro. Olhou ao redor e não tinha ninguém no quarto. Deitou na cama de novo e ficou encarando o teto.

Tinha sonhado com Adriel e Kenup. No sonho eles brigavam feio, agarravam um no pescoço do outro com os dentes e ela conseguia ver o sangue brotar da pele deles e escorrer pela pelagem listrada. Os dois estavam com muita raiva um do outro, mas ela não sabia o motivo.

A luz acendeu, a obrigando a fechar os olhos. Ouviu passos e depois de piscar algumas vezes, conseguiu ver o médico parado ao seu lado.

— Está tudo bem?

— Sim.

— Uma das enfermeiras me chamou, pois você estava gritando.

— Tive um pesadelo — falou com um grande bico e fez o homem rir. — Onde está a Jane?

— Teve que dar uma saída, mas já deve estar voltando.

— Tudo bem.

— Precisa de alguma coisa?

July negou com a cabeça.

— Ok, se precisar, aperte esse botão e alguma enfermeira irá te ajudar.

— Obrigada.

O homem saiu do quarto e ela ficou sozinha de novo. Será possível que tudo aquilo não passou de um sonho? Nesse tempo, dormindo profundamente durante meses, sua mente criou aquele lugar com aquelas pessoas? E tudo não passou disso... Um sonho? Porque se ele disse que ela entrou em coma no dia que avisaram da guerra, foi o dia em que foi com Adriel para o mundo dele.

Seus olhos se encheram de lágrimas. Aquilo pareceu tão real, tão forte que ainda sentia aquelas coisas estranhas no corpo só de pensar nele. Como se realmente o amasse ainda. Poderia amar quem foi criado por sua própria mente?

Chorou até dormir com esses pensamentos.

***

Algumas semanas se passaram e July teve alta. Depois do que aconteceu na casa dela, os pais tiveram que se mudar e agora moravam em uma casa ao lado da escola dela. Para piorar ainda teria que voltar a estudar...

Entraram na casa e July observou cada cantinho. Era uma casa menor do que a que eles moravam, mas era boa. Estava acostumada com uma menor, que era a de Adriel.

Por que toda hora pensava nisso?

— Venha ver seu quarto. — Colocou a mão nas costas dela e a guiou.

As duas passaram pelo pequeno corredor e no final dele a mãe dela abriu uma porta. Lá dentro tinha uma cama de solteiro nova, um armário pequeno também novo e uma mesa de estudos.

— Gostou?

— Sim. — Sentou na cama.

— Olha... Consegui pegar algumas coisas no seu antigo quarto. — Puxou uma pasta de dentro da gaveta da mesa e sentou ao lado dela na cama. — Achei que ia gostar de ter de volta.

July abriu a pasta e viu seu caderno de sonhos e o desenho do tigre lá dentro. A menina olhou para sua mãe e ela sorriu levemente.

— Pensei que essas coisas fossem proibidas...

— Depois de quase perder você, não ligo pra isso.

July ficou surpresa.

— Mas lá fora você sabe que não pode comentar nada, não é?

— Sei.

— Que bom. — Beijou o rosto dela e levantou da cama. — Descanse.

— Obrigada, Jane.

A mulher se aproximou e segurou o rosto dela com as mãos.

— Me chame de mãe.

July ficou em silêncio sem reação.

— Só dentro de casa. — Piscou para ela e saiu do quarto.

Parece que quase morrer foi uma coisa boa afinal...

A garota pegou o desenho do tigre e ficou um tempo observando a pintura. Por que sua mente era tão criativa assim? Para criar uma coisa tão intensa e não conseguir deixar ela esquecer?

Melhor seria se livrar daquilo de uma vez. Assim não ficaria lembrando tanto ou esperando que virasse realidade. Ao mesmo tempo que queria jogar fora, queria guardar. Era incrível como a mente dela era poderosa! Apertou o desenho nas mãos com força e depois o jogou na parede com raiva. Logo ficou em transe olhando onde o papel bateu.

Na parede que era lisa e branca, tinha um buraco redondo e pequeno, mas dava para ver o lado de fora da casa. Ficou uns segundos com os olhos arregalados e depois olhou as mãos.

Talvez não tenha mesmo sido sonho.

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