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O leão e a pantera

Após sua jornada épica, July retorna ao lar sem compreender os mistérios de sua volta. Determinada a regressar ao mundo fantástico, ela descobre que o portal antigo está alterado, frustrando seus planos. Enquanto busca respostas, a jovem de dezessete anos enfrenta conflitos familiares intensos. Pressionada pelos pais, ela se vê isolada e diante de um destino indesejado: um casamento arranjado que ameaça sua liberdade e seus novos objetivos.
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Capítulo 3

Depois de um longo jantar, Anthony a levou para casa finalmente. Não via a hora de sumir daquele lugar!

— O que achou? — perguntou coçando a nuca. — Sei que meus pais são meio malucos, mas são gente boa.

— Tanto faz — respondeu e o homem olhou o rosto dela. Estava olhando o nada e tinha expressão triste.

— Ei... — Segurou a mão dela e fez com que o olhasse com certa rapidez. — Não precisa ficar assim. Eu sei que é difícil pra você. Minha mãe me contou como foi pra ela quando fez dezessete.

— Quantos ela tem?

— Quarenta e um.

— Imaginei mais ou menos isso. E seu pai?

— Sessenta e oito.

— Uau!

— Pelo menos nossa diferença não é tão grande assim.

— Quantos você tem?

— Vinte e quatro.

— Hum...

— Amanhã venho marcar a data — falou acariciando a mão dela.

July engoliu em seco.

— Posso te fazer um pedido?

— Todos que quiser.

— Pode esperar mais um pouco? Eu quero me acostumar com isso tudo...

O homem ficou em silêncio por um momento.

— Tudo bem.

July suspirou aliviada.

— Mas você não tem que me ver como algo ruim ou forçado.

— Mas é forçado.

— Eu sei, mas seria menos tenso se você relaxasse mais — disse rindo.

— Impossível!

— Te dou dez dias.

— Só?

— Acha pouco?

— Óbvio!

— Você não tem como correr. Sabe disso, não é?

— Não me lembre...

O homem suspirou e se aproximou dela, fazendo com que ficasse tensa.

— Quando for morar comigo, vai ver que não sou nada do que pensa.

— Será? Você não sabe o que eu penso — falou com as sobrancelhas erguidas e ele sorriu.

— Sei que acha que sou carrasco e vou te fazer de empregada.

July balançou a cabeça, também pensou isso.

— Mas isso não vai acontecer.

— Tá.

— Agora vou indo. Diga a seus pais que em dez dias venho marcar a data.

— Tudo bem.

Ele sorriu e ficou olhando o rosto de July um momento. Ela desviou o olhar ao perceber que não tirava os olhos dela. Em pouco tempo ficou paralisada quando ele se aproximou e olhou para cima sem mexer a cabeça. Só conseguiu mexer os olhos. Viu ele curvar um pouco o pescoço e engoliu em seco. Quando chegou bem perto dos lábios dela...

— Você não pode me beijar.

Ele se afastou um pouco ao ouvir isso.

— Está nas regras. Somente depois de casados. — Sorriu, cínica.

— É, mas ninguém precisa saber que isso aconteceu antes. Não tem problema nenhum só a gente saber que você já beijou.

— Que bom saber que você pensa assim! Fico menos preocupada.

— Como assim?

— Ué, se só fica entre a gente, ótimo! Pois isso já aconteceu.

Os dois ficaram em silêncio depois do que ela disse. O homem a olhava surpreso e ela o encarava com um sorriso cínico. Ele sorriu e deu um passo à frente.

— Acha que por isso não vou querer mais casar?

— Quem sabe...? — Levantou os ombros.

— Não me importo com isso. Tem algumas regras que são bobas demais, mas a gente tem que respeitar as mais visíveis. — Começou a se aproximar dela e quando percebeu, foi dando passos para trás fugindo dele.

— Pensei que fosse do tipo respeitador...

— Depende do momento.

July engoliu em seco e parou de andar quando a parede lhe impediu de fugir mais. Anthony se aproximou dela e a cercou com os braços, apoiando-os na parede. July olhou para cima para olhar o rosto dele.

Não sabia o que fazer, se batia nele e entrava em casa correndo. Se chamava sua mãe e dizia que ele estava quebrando as regras, porém ele poderia contar que ela já tinha beijado. Pensou também em deixar ele fazer o que queria para acabar logo com aquilo. Qual era a melhor opção?

Viu o rosto dele cada vez mais perto e se encolheu. Anthony não ia beijá-la, só queria ver o que iria fazer, mas ao aproximar bem o rosto, mudou de ideia e capturou os lábios dela. July levantou as mãos para empurrá-lo, mas achou melhor não. Vai que ela o joga longe como com Kenup e ele morre? Fechou as mãos com força e ficou paralisada.

O loiro segurou o rosto dela com uma das mãos puxando e a obrigando a beijá-lo. July passou as unhas na parede pelo nervosismo. Por fim resolveu corresponder para ele ir embora logo, mas não tocou nele. Anthony se afastou e a olhou nos olhos. July estava emburrada e respirava rápido.

— Desculpe, não resisti.

— Não vi você fazer força para resistir!

— Eu não ia beijar você de verdade.

— Então por que não beijou de mentira? — perguntou irritada.

— Desculpe.

— Posso ir agora ou vai me agarrar mais?

— Pode ir.

— Ótimo! — Virou as costas e entrou em casa batendo a porta com força. Anthony respirou fundo e foi embora.

Seguiu direto para o quarto, ignorando seus pais que queriam saber como foi o jantar. Se jogou na cama e cobriu a cabeça com o travesseiro. Ouviu a porta abrir e resmungou frustrada.

— O que aconteceu?

— Eu não quero me casar! — falou alto.

— July entenda de uma vez que se não se casar, ele vai saber.

— Como? Tem tanta gente no mundo!

— E acha que não sabe?

July cobriu o rosto com o travesseiro.

— Eu também não gosto nada de entregar minha menina a um marmanjo qualquer, mas não posso fazer nada. Isso é o melhor pra você no momento — disse o pai dela.

— Tá bom, agora quero ficar sozinha.

Os dois saíram do quarto e July começou a chorar. Já estava perdendo as esperanças de voltar a ver Adriel e os outros. Não tinha nem uma luzinha que brotasse do nada para ajudar a saber o que fazer para ir até lá de novo. E mesmo pedindo, nenhum portal quis abrir para ela.

Sentou na cama e ficou encarando o caderno que estava em cima da mesa. Agora não precisava esconder ele embaixo da cama. Estava com tanta raiva de Kirovs e suas leis idiotas, raiva por não saber o que fazer, raiva por estar longe de Adriel e raiva por ter beijado aquele cara!

Cobriu o rosto com o travesseiro e deu um grito, que foi abafado por ele. Sentia como se fosse explodir a qualquer momento! Depois do grito, um forte choro lhe invadiu. Muitas emoções ao mesmo tempo dão nisso.

Olhou a janela e ficou paralisada. Viu alguém lá fora olhando ela. Piscou várias vezes e se aproximou da janela. Abriu o vidro e ficou de boca aberta. Ele estava ali! Estava ali!

Esticou os braços para ele segurar suas mãos e quando o fez, puxou para dentro do quarto. Foi tão forte que os dois caíram no chão fazendo um grande barulho. July caiu de costas e bateu a cabeça no chão.

— July está tudo bem?

A menina arregalou os olhos e Adriel, que caiu por cima dela, rolou para debaixo da cama. Em poucos segundos a porta se abriu.

— Está sim, mãe.

— Caiu? — Se aproximou e a ajudou a levantar.

— Sim. — Alisou a cabeça.

— Tenha mais cuidado, July.

— Estou bem — falou enquanto a mãe procurava algum machucado.

— E então, o que ele disse?

— Quem?

— Anthony.

— Ah... — Coçou a cabeça. — Que vai vir em dez dias.

— Dez dias?

— Sim.

— Por que essa demora toda?

— Não sei.

A mãe dela cerrou os olhos olhando-a com desconfiança.

— Falou alguma coisa errada, July?

— Não...Por que acha isso?

— Você sempre fala.

— Eu não disse nada.

— Aprenda a mentir, July! O que você fez?

— Pedi a ele para esperar, tá? Não quero isso e nunca vou me acostumar!

— Ele aceitou isso?

— Sim.

— A sua sorte é que ele gostou de você. Senão já teria desistido.

— Seria um favor que me fazia.

— Acho bom você começar a controlar sua língua, mocinha!

— Vou me esforçar.

A mulher respirou fundo para controlar a raiva.

— Agora durma e pense sobre o que está em risco. Sua vida! — Saiu do quarto batendo a porta. July engoliu o choro.

O garoto saiu debaixo da cama quando a mãe dela saiu do quarto. Os dois ficaram se olhando em silêncio. July estava literalmente acabada. Estava sem forças e só sabia chorar. Achou que o dia que encontrasse Adriel de novo, ia explodir, mas não. Isso porque a culpa estava consumindo-a. Ela beijou aquele cara há poucos minutos atrás...

Ele parecia hesitante e a olhava de um jeito estranho. Parecia ao mesmo tempo querer abraçá-la e brigar com ela.

— Como chegou aqui? — perguntou em meio as lágrimas.

— Eu que te pergunto isso.

— Eu não sei.

— Como não sabe?

— Acordei em um quarto de hospital e me disseram que fiquei em coma durante dez meses. Que atacaram a casa naquele dia que fui com você e o meu quarto foi o mais atingido e que eu estava nele na hora.

Adriel a olhou surpreso.

— Antes de acordar, do que se lembra?

— De esperar vocês.

— Que mais? — perguntou com semblante sério.

— Kenup...

O rosto dele se modificou e July franziu a testa.

— Sabia! — resmungou e mordeu o lábio com força.

— O que é?

— Descobri que o Kenup e a Clarisse estavam metidos com bruxas e queriam se livrar de você.

July arregalou os olhos.

— Mas não queria acreditar que ele fez isso — falou com raiva.

A lembrança veio como um raio e July se apoiou na mesa para não cair. Adriel se aproximou ao ver ela ficar pálida.

— Que foi?

— Eu me lembro.

— De que?

A menina olhou para o lado e ele estava bem próximo a ela. Engoliu em seco e desviou o olhar.

— Ele me tirou da casa falando que ia me levar para onde vocês estavam porque iam ficar à noite lá e você não queria que eu ficasse sozinha, então pediu para ele me buscar. Achei estranho porque você não o mandaria, mas fiquei com medo de ficar sozinha na casa e o segui.

— O que aconteceu depois?

— Andamos um pouco e chegamos em um lugar esquisito...

— Como era?

— Tinha árvores mortas... Lá tem árvores mortas? — Virou o rosto para olhar para ele e prendeu a respiração ao ver que estava mais perto ainda.

— Tem sim — disse olhando os lábios dela.

— Então... Quando chegamos eu fiquei confusa. Não deu tempo de perguntar nada. Ele me segurou e a mesma bruxa que quase matou a Safira jogou algo em mim. É só isso que me lembro.

O quarto ficou silencioso enquanto Adriel absorvia a história. July passava as unhas na mesa com nervosismo. Já estavam um pouco roídas pelo que ela fez na parede na hora que Anthony a agarrou. Tinha até sangrado um pouco por conta da força que ela usou.

Adriel puxou as mãos dela para que parasse de fazer aquilo e olhou seus dedos. Alguns ainda manchados de sangue. July escondeu as mãos.

— Você está namorando outra pessoa? — a pergunta foi como um sussurro.

July o olhou surpresa com a pergunta.

— Não.

— Então quem era aquele cara que estava ali fora com você?

A menina ficou sem ar.

— Você estava ali há quanto tempo?

— Estou vigiando você desde que foi pra escola.

— Por que não me chamou?

— Achei que a noite era melhor para te avisar que estava aqui. De manhã alguém poderia ver.

— Entendi... — Olhou os pés.

— Você não me respondeu.

— Respondi sim... — falou baixo.

— Tudo bem... — Virou as costas para ela e andou em direção a janela.

— Aonde você vai? — perguntou sentindo um certo desespero.

— Vou embora. — Colocou as mãos na janela e quando ia passar, sentiu os pequenos braços da menina apertarem sua barriga. Ela o agarrou antes que conseguisse sair e enfiou o rosto em suas costas.

— Por favor, não vá embora... — pediu com desespero.

Adriel soltou a janela e virou de frente para ela, deslizando em seus braços. Agora ela ficou com o rosto enfiado no peito dele. A menina apertou os braços ao redor dele e ele colocou as mãos em seus ombros. Sentiu eles subirem e descerem com os soluços dela.

Fechou os olhos com força e a envolveu em seus braços. Enfiou o rosto entre os cabelos e segurou a cabeça dela com uma das mãos.

— Me desculpa... — falou chorando e olhou para cima.

Adriel segurou o rosto dela com uma das mãos e limpou as lágrimas que rolavam sem parar. Vê-la daquele jeito estava deixando-o desnorteado.

— Pelo que?

July fechou os olhos com força e mais lágrimas caíram.

— Por causa daquele cara... — Apertou a cintura dele e enfiou o rosto em seu peito de novo.

Adriel a afastou dele segurando seus braços e olhou para seu rosto. Estava vermelha de tanto chorar e com o rosto todo molhado. Se aproximou da cama e sentou. Depois puxou July para se sentar com ele. A menina sentou em seu colo apoiando os joelhos na cama ao redor dele e agarrou seu pescoço com força. O loiro ficou surpreso com a atitude dela e envolveu sua cintura.

— O que tem ele?

— Você não viu?

— Você beijando-o? Vi.

July chorou mais forte.

— Eu não sabia o que fazer e queria que acabasse logo com aquilo...

— Quem é ele?

— Lembra que te disse que com dezessete anos as meninas têm que se casar?

— Sim.

— Eu já fiz dezessete...

Adriel fechou os olhos e respirou aliviado.

— Estão te obrigando a isso?

— Sim — respondeu soluçando.

— Fica calma — pediu acariciando os cabelos dela.

Parecia que estava mais longo do que antes. Ele colocou uma mecha atrás da orelha e acariciou o rosto dela. July sorriu com isso.

— Senti sua falta — falou encostando a testa na dela.

— Eu também — respondeu acariciando o rosto dele.

Sem demorar mais ele se aproximou e beijou ela. Pouco importava o que aconteceu antes! Só queria aproveitar o momento com ela.

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