
O INTERNATO
Capítulo 2
Subimos um lance de escadas, e durante o caminho, ela foi nos explicando como tudo funcionava no nosso lado, ou melhor, o lado B.
-Agora só terão quinze minutos, então se apressem... –Ela começou a distribuir as chaves dos dormitórios, para mim ela entregou a chave com o numero vinte gravado em um chaveiro metálico. –Todas terão uma colega de quarto, é outra forma de se adaptarem aos dias aqui. –Ela falou ao ver nossa expressão. –É uma boa lição, digo, um bom aprendizado, pois acredito que todas aqui mesmo tendo ou não irmãs ou irmãos... Nunca dividiram o quarto com outra pessoa. –Olhei para as outras três meninas que estavam ao meu lado, todas estavam desconfortáveis com a situação. A velha arrogante tinha razão, eu nunca tinha divido meu quarto com outra pessoa, e agora dividiria com uma estranha. Cadê a privacidade? Aquilo provavelmente era o caminho para uma grande encrenca. –Não precisam se preocupar, todas se adaptaram muito facilmente, garanto que vão fazer o mesmo. Vão ser praticamente melhores amigas em no mínimo duas semanas, quase irmãs... Não é ótimo? –Era falou com sarcasmo. As duas primeiras meninas foram deixadas no segundo andar, a outra menina e eu seguimos juntas na companhia da mulher até o terceiro andar. –Aí está seu dormitório. Espero encontrá-la no refeitório daqui a sete minutos, caso contrario... Mais um dia será adicionado em sua ficha... Não queremos começar dessa maneira, não é mesmo? –Ela piscou e saiu com a outra menina, deixando-me parada diante a porta de numero 20. Não bati na porta, pois se aquele seria meu dormitório, era tão dona quanto a atual “moradora”. Assim que entrei, fui atingida por uma almofada. Estava tão distraída que a almoçada acertou em cheio minha cabeça, com o susto dei alguns passos para trás.
-Cadê a privac... –A menina parou de falar assim que me viu. Na verdade, eram duas meninas, as duas estavam sentadas na cama, pareciam conversar.
-Aí... –Reclamei retomando ao meu lugar.
-Quem é você? –A mesma garota que havia lançado a almofada, questionou enquanto me encarava com curiosidade.
-Nova colega de quarto. –Ergui minha mão e mostrei o chaveiro do dormitório. –Sinto muito, pensei que ninguém estaria aqui... –Menti. –Por isso não bati. –Não queria começar ainda pior, então tentei ser amigável. –Sou Helena. –Ofereci meu melhor sorriso.
-Ganhei uma colega de quarto, estava na hora! –Ela sorriu brandamente.
-Ainda bem, assim me deixa em paz... –A outra menina falou. –Sou a Dóris... Sua vizinha de porta. –Ela levantou e veio até mim. –Seja bem vinda.
-Obrigada... –Respondi de forma sincera.
-Eu sou a Manuela, sua colega de quarto. –Ela disse enquanto também levantava e vinha até mim, ou melhor até nos. Antes que pudéssemos continuar nossa provável conversa, um som extremamente alto e chato ecoou pela escola. –Já é hora de comermos novamente? –Ela perguntou a Dóris.
-É o que parece... –Dóris respondeu enquanto recolhia seu casaco e colocava o mesmo.
A tal Manuela correu até sua cama e se debruçou sobre ela, tirando de baixo da mesma um par de tênis rosa da Nike, se apressando em seguida para calçá-los.
-Vai tocar o segundo, Manu... –A tal Dóris a alertou enquanto eu assistia tudo em segundo plano. –Se apressa. –Ela falou impaciente e dito isso, outro sinal ecoou, Manuela que ainda estava sem um tênis, correu até a porta junto a Dóris.
-Se apressa Helena, no terceiro é castigo! –Ela me aconselhou antes de sair apressada porta a fora, deixando-me sozinha. Droga! Lembrei do que a velha arrogante falou, ela alertou umas três vezes que devíamos trocar de roupa. Desci meu olhar pelo corpo, estava vestida com uma calça jeans de lavagem escura, uma jaqueta jeans preta e uma camisa de uma banda que conheci através de um amigo, acho que só nos dois éramos fãs dessa banda... Balancei a cabeça negativamente enquanto corria até minha mala e começava a jogar roupas para fora, o terceiro sinal tocou, deixando-me ainda mais aflita. Peguei uma blusa qualquer, tinha mangas longas e nem sinal de decote, não me preocupei em ver a estampa ou coisa assim, apenas sai apressada porta a fora e corri pelos corredores ainda desconhecidos. Quarto sinal, eu não conhecia nada ali, mas pelo jeito? Eu estava ferrada! Ao perceber o quão atrasada eu deveria estar, parei de correr e comecei a andar em passos lentos, do que adiantaria se apressar agora? Eu já havia “burlado” as regras. Comecei a me xingar mentalmente enquanto seguia atravessava a enorme passarela. Aquele espaço era amplo e incrivelmente alto, já era possível ver o entardecer, as janelas de vidros permitiam ter uma excelente visão não só da escola, como também dos espaços próximos. Acabei me distraindo com a visão, debrucei meu corpo em uma dessas janelas e fiquei olhando tudo atentamente, as luzes do internato eram ligadas uma a uma, e aos poucos o lugar, ou melhor, “o pátio” do lugar ganhava vida mesmo estando vazio.
-Senhorita? –Ouvi uma voz masculina bem ao meu lado. Resultado? Um galo! Pois com o susto, minha cabeça foi de encontro ao vidro. –Droga! Machucou? –Coloquei uma de minhas mãos na testa e a outra em meu peito, tentando apartar meus batimentos pra lá de acelerados.
-O quê deu em você pra aparecer assim do nada? –Falei irritada enquanto alisava minha testa. –Se eu tivesse algum problema, poderia até ter morrido! –O cara ao meu lado sorri brandamente, como se eu tivesse tido alguma piada. –Do que está rindo? –Digo completamente indignada.
-Pelo jeito é nova... Ainda não tive o prazer de conhecer a dona desse dramalhão todo em minhas aulas. –O tal homem diz.
-Aulas? –Repito. –Você é um dos professores? –Falo meio desconcertada pela forma como eu o tratei. –Espero que isso não interfira em minhas futuras notas, pois você também deverá levar em conta o machucado que me causou, estou até meio tonta... –Finjo enquanto coloco as mãos em minha cabeça, o estranho, que agora havia apresentado-se como professor, começa a sorrir como se estivesse diante de uma comedia.
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