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O INTERNATO

Ele estava longe de ser o príncipe encantado dos sonhos dela ou o genro ideal. Já ela não se encaixava nos padrões físicos que ele desejava. Com personalidades conflitantes e hábitos irritantes, nada indicava que poderiam formar um casal. No entanto, apesar de serem opostos e parecerem incompatíveis para o mundo, uma sensação poderosa de êxtase os conecta. O que começou como uma desventura improvável acaba se transformando em um sentimento avassalador e profundo.
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Capítulo 3

-Você é muito engraçada... –Ele fala assim que termina de sorrir. –Espero que esteja realmente fingindo, caso contrario, terei de te levar até a enfermaria e... –O interrompo.

-Eu estou atrasada, digo, bem mais do que atrasada! –Falo alarmada retomando meu pensamento. –Essa ida a enfermaria poderia me salvar do castigo... –Falo como se estivesse pensando alto. –Quero ir a enfermaria, minha cabeça começou a doer horrores, além disso o responsável foi você e... –Ele ergue as mãos em defesa.

-Você está na hora errada e no lugar errado, se não fosse eu, poderia ser uma das diretoras, posso afirmar que esse encontro seria bem pior pra você. –Ele fala agora em um tom mais serio.

-Por favor... –Junto as minhas mãos enquanto me aproximo dele de maneira cautelosa. –Esse é meu primeiro dia, na verdade cheguei há algumas horas, me leva até a enfermaria e explica o que houve... –O estranho me encara de uma forma que eu não conseguia descrever, seus olhos e sua expressão estavam vazios, bem diferente do cara sorridente de minutos atrás. –Por favor... –Peço outra vez.

-Vamos então! –Ele diz apenas isso e se vira, voltando a caminhar pelo corredor em sentido contrario do refeitório, me apresso para acompanhá-lo, seus passos são largos. Caminhamos com certa distancia em silencio até o quarto andar. –Eduarda? –O estranho chama assim que entramos em um pequeno corredor.

-Aqui! –Uma voz feminina surge no ambiente, ele me encara brevemente.

-Trouxe uma paciente pra você. –Ele fala assim que entramos em uma sala incrivelmente clara. –Bateu com a testa em algum lugar, a encontrei escorada na passarela. –Ele fala com naturalidade, o encaro e ele faz o mesmo.

-Ah sim... –A enfermeira fala enquanto se aproxima de mim. –É coisa simples. –Ela fala ao tocar minha testa. –Apenas um band aid e uma aspirina resolve tudo. –Ela sorri pra mim e se afasta, mexe em algumas gavetas e logo retorna. –Esse curativo vai combinar perfeitamente com seu pijama. –Ela fala sorridente.

-O quê? –Falo sem entender. –Pijama? –Ela balança a cabeça positivamente enquanto coloca o band aid em minha testa. Assim que ela termina, desço meu olhar até minha blusa e entendo o seu comentário, estou vestida com a camisa de meu pijama da Liga da Justiça. Me xingo mentalmente enquanto me levanto. –Vou ter que ir para o refeitório com essa camisa? –Pergunto a enfermeira.

-Sim, esse simples acontecimento não necessita de uma dispensa, foi coisa simples, você vai sobreviver. –Dito isso, ela me entrega um copo descartável e uma aspirina. –Saúde! –Ela recolhe o copo assim que termino de beber minha água. –Pode levá-la, Thiago. –Viro em direção do ex estranho, que em poucos minutos já havia se apresentado como professor, e agora eu tinha descoberto seu nome.

-Vamos. –Ele acena com a cabeça.

-Obrigada! –Agradeço a enfermeira antes de sair.

-Se eu fosse você, não tirava esse curativo, é tipo uma prova da sua enorme lesão... –Ele fala com certa ironia, mas carrega nos lábios um sorriso brincalhão.

-Adorei as boas vindas! –Falo e passo a frente dele, desço as escadas sem esperá-lo, e faço o mesmo durante o breve caminho até o refeitório.

Novamente entrei na passarela que dava acesso ao refeitório, mas dessa vez, a mesma não estava vazia, quer dizer, havia algumas pessoas no final dela. Tentei ver quem era, ou melhor, a quantidade de pessoas, mas não tive êxito, então continuei andando e vi que era uma mulher e dois meninos, eles pareciam discutir, ao me aproximar vi que era a mulher que havia pego o meu celular minutos antes. Eles pararam de discutir assim que cheguei perto deles, todos me olharam e ela bufou.

-Mais uma atrasada! –Ela falou num tom de reprovação.

-Desculpe, eu... –Antes que eu pudesse dizer algo, ouvi a voz do tal Thiago atrás de mim.

-Essa aluna tem uma justificativa, Elisa. –Todos, inclusive eu, olhamos para ele. –Ela estava na enfermaria, e eu a acompanhei. –A tal Elisa me encarou, assim como os dois meninos.

-Tudo bem então. –Ela disse. –Mas vocês dois... Posso apostar meu salário desse mês que não estavam na enfermaria... –Os meninos se entre olharam e o que estava a esquerda de Elisa deu os ombros e olhou pra mim.

-Eu estava dormindo. –O outro menino falou. –O meu colega de quarto não me acordou e deu nisso. –Ele disse com naturalidade. –Adiciona mais um dia na minha ficha e me deixe passar logo, Elisa! –Disse impaciente.

-Peço licença. –O Thiago disse enquanto empurrava a porta do refeitório, as vozes inundaram a passarela, mas logo cessaram quando o mesmo fechou as portas assim que entrou no espaço.

-Eu vou chamar a senhora Sandra. –A Elisa disse, fazendo o mesmo caminho que o tal Thiago, deixando-me na companhia dos dois estranhos. Me afastei um pouco e encarei com mais atenção os dois meninos, ambos me encararam, o da esquerda era alto e magro, mas tinha lá seus encantos, ele tinha uma pequena tatuagem abaixo do olho, mesmo com seu moletom escuro, eu conseguia ver com clareza algumas tatuagens em suas mãos, seus cabelos eram escuros, parte dele caiam sobre sua testa. Seu olhar era intenso, me deixava desconcerta de uma maneira inexplicável.

-Novata. –O da direita comentou sem tirar os olhos de mim. Senti meu rosto queimar, com certeza estava ruborizada por conta do olhar deles sob mim.

-É. –O da esquerda falou com um esboço de sorriso no canto dos lábios, mas não era um sorriso de “boas vindas”, era um sorriso meio cínico. E cá entre nós? O deixava ainda mais irresistível. Dito isso, eles viraram frente a frente e começaram a conversar entre si, deixando-me isolada novamente. Ambos trocavam olhares e sorrisos, e eu sabia perfeitamente que o assunto da vez era a “novata” aqui.

-Gustavo e Bernardo... Porquê eu não estou surpresa? –A velha arrogante surgiu na passarela com a tal Elisa atrás dela.

-Você deveria ficar feliz, Sandra... –O garoto loiro falou de maneira ríspida. –Mais um dia, mais dinheiro pra você. Não é assim que funciona? Não é por isso que a cada “imprudência” nos castiga com mais um dia? –A tal “Sandra” sorriu com desdém.

-Não me culpe pelos seus atos, Bernardo. Todos nos aqui sabemos o quanto o Gustavo e você aprontam. –Ela deu os ombros enquanto caminhava até eles. –Se eu não me engano, quatro dias foram adicionados a vocês por conta de visitas noturnas de meninas em seus dormitórios. Estou enganada? –Ela os encarou de forma sínica. Os garotos se entreolharam e trocaram sorrisos cúmplices, deixando a tal mulher visivelmente irritada. –Ainda acham isso engraçado? Isso é uma catástrofe! –Ele alterou seu tom de voz, mas de repente sua atenção mudou de foco quando o tal Gustavo me encarou. Ela fez o mesmo, e mirou seu olhar em mim. –E você senhorita Sarthi... Já no primeiro dia está na companhia de tais pessoas? –Ela balançou a cabeça negativamente, mexi a boca duas vezes, na tentava de me justificar, ou melhor, me inocentar, mas o olhar do garoto de nome Gustavo me deixava desconcertada, insegura, eu mal conseguia me manter equilibrada, pois mesmo sem olhá-lo, sabia perfeitamente que o mesmo me encarava de maneira curiosa e excessiva.

-O professor Thiago a levou a enfermaria, ele justificou o atraso dela, senhora. –Elisa explicou para Sandra, que ainda não havia tirado seus olhos de mim.

-Pois bem. –Ela disse depois de algum tempo em silencio. –Por hoje a senhorita está livre, mas não se acostume... Conhecemos perfeitamente essa tática de ir para a enfermaria quando são obrigados a fazer algo. –Ela se aproximou de mim. –Cuidado, estarei observando-a de perto. –Assenti enquanto a encarava. –E vocês dois. –Ela virou na direção dos meninos. –Mais um dia será adicionado na ficha de cada um. Bom jantar a vocês. –Dito isso, ela caminhou pela ampla passarela, atravessando a mesma e indo só pra Deus sabe onde, Elisa a seguiu, deixando-me sozinha com os dois meninos, que agora me observavam mais atentamente.

-Gostei da camisa. –O garoto loiro disse, mas era notável o sarcasmo em sua voz. –Seja bem vinda ao purgatório. –Ele piscou e passou a frente de nos, empurrando a porta do refeitório e entrando, Gustavo me encarou por breves segundos, antes de seguir o amigo.

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