
O Gêmeo do Meu Noivo, Uma Farsa Cruel
Capítulo 3
Ponto de Vista: Fernanda Moraes
"Bruno?", Daniel gaguejou, seu rosto empalidecendo ao olhar para seu irmão idêntico. "O que você está fazendo aqui? Eu pensei que..."
"Eu moro aqui", Bruno o interrompeu, seus olhos frios fixos apenas em mim. Ele não deu uma olhada sequer em seu gêmeo. Era como se Daniel não fosse nada mais do que um móvel.
"Ela tentou atacar a Carla", afirmou Bruno, sua voz desprovida de qualquer emoção.
"Ela me atacou!", retruquei, apontando para o sangue escorrendo pela minha têmpora. "Ela é louca! Ela precisa se desculpar."
O corte na minha cabeça latejava, uma dor profunda e ardente. Mas a humilhação doía mais. Eu era a que estava sangrando, a que tinha sido agredida, e ainda assim ele olhava para mim como se eu fosse a vilã.
Seu olhar era impassível, indiferente à visão do meu ferimento.
Carla, enquanto isso, havia desabado no chão, seu corpo tremendo com soluços. "Irmão, estou com tanto medo", ela choramingou, estendendo a mão cegamente. "Eu ouvi a voz dela, e eu só... pensei que ela ia te machucar. Me desculpe, eu só estava tentando te proteger."
A expressão gélida de Bruno derreteu imediatamente. Ele se ajoelhou ao lado dela, envolvendo-a em seus braços com uma ternura que fez meu estômago se contrair. Ele a embalou gentilmente, murmurando palavras suaves de consolo.
"Está tudo bem, Carla. Eu estou aqui. Ninguém vai te machucar."
Eu os observei, uma risada amarga subindo em minha garganta. Lembrei-me de uma vez, anos atrás, quando escorreguei e caí da escada em nossa casa. Eu havia torcido o tornozelo feio, e a dor era excruciante. Bruno simplesmente ficou no topo da escada, seu rosto impassível, e me disse para ser mais cuidadosa antes de chamar o mordomo para me ajudar.
Sua gentileza, sua preocupação, seu calor... nunca foram para mim. Eram reservados para ela e somente para ela.
Eu não aguentava mais assistir aquilo. "Estou indo embora", eu disse, minha voz embargada de nojo.
Virei-me para sair, mas a voz de Bruno me parou. "Você não vai a lugar nenhum."
Ele estava de pé novamente, seu corpo alto bloqueando a saída. Carla ainda se agarrava a ele, o rosto enterrado em seu peito.
"Você empurrou a Carla", ele disse, sua voz um rosnado baixo. "Você será punida de acordo com as regras da família Medeiros."
"Punida?", eu o encarei, incrédula. "Eu sou a que está machucada! Ela é quem deveria ser punida!"
Carla espiou por trás do braço dele. "Irmão, faça-a se ajoelhar no salão dos ancestrais. Dê-lhe vinte chibatadas. Ela precisa aprender o seu lugar."
Meu sangue gelou. "Você não tem o direito", cuspi. "Eu não sou um membro da sua família."
"Você será no próximo mês", disse Bruno friamente. "Isso é perto o suficiente."
Daniel, sempre o ator, deu um passo à frente com um olhar de falsa preocupação. Ele ergueu o pequeno e surrado caderno de esboços de couro que eu sempre carregava comigo. Estava cheio de meus desenhos particulares, a última peça remanescente da artista que eu costumava ser.
"Fernanda, apenas peça desculpas", ele insistiu, sua voz suave. "Você sabe o quanto ama seu caderno de esboços. O vovô Medeiros te deu este chicote como presente de casamento, um símbolo de autoridade na família. Se você não aceitar a punição, ele pode... destruir isso."
A ameaça pairava no ar, pesada e sufocante. Aquele chicote não era um presente; era uma ferramenta de controle. E o caderno de esboços... continha meu último resquício de identidade. Bruno sabia disso. Ele sabia que era a única coisa que eu tinha deixado que era verdadeiramente minha. Ele me deu uma escolha: minha dignidade ou minha alma.
Meus ombros caíram em derrota.
Eles me arrastaram para o salão dos ancestrais, uma sala fria e escura cheia de retratos dos Medeiros mortos, seus olhos pintados me observando com julgamento silencioso. Eles me forçaram a ajoelhar no chão de pedra dura.
A primeira chibatada cortou o ar com um assobio vicioso antes de pousar em minhas costas. A dor, aguda e elétrica, percorreu todo o meu corpo. Parecia que minha pele estava sendo rasgada. Mordi o lábio com força, recusando-me a gritar, sentindo o gosto do meu próprio sangue.
Outra chibatada. E outra. A dor era imensa, um fogo ardente que me consumia. Meu vestido fino não oferecia proteção. Cada golpe aterrissava com força brutal, rasgando tecido e carne.
Após dez chibatadas, o homem parou. Bruno deu um passo à frente, seu rosto uma máscara indecifrável.
"Você admite seu erro agora?", ele perguntou, sua voz tão fria quanto a pedra sob meus joelhos.
Levantei a cabeça, meu corpo tremendo, minhas costas uma tela de agonia. Encarei seu olhar, meus próprios olhos queimando com desafio.
"Eu não fiz nada de errado", murmurei.
Seu maxilar se contraiu. "Continue", ele ordenou ao homem com o chicote.
As chibatadas recomeçaram, mais ferozes do que antes. A dor era insuportável. Uma antiga lesão nas costas da minha queda da escada se inflamou, uma dor profunda e agonizante que se juntou ao tormento fresco do chicote. Eu não aguentava mais.
"Por favor", implorei, a palavra arrancada da minha garganta. "Pare... por favor, pare."
Mas Bruno nem olhou para mim. Ele já estava se virando, guiando gentilmente Carla, que ainda soluçava artisticamente, para fora do salão.
"Vamos, Carla", ele disse suavemente, sua voz um contraste gritante com a violência que ele acabara de comandar. "Vou te levar de volta para o seu quarto."
Ele havia me pedido em casamento nesta mesma mansão. Ele se ajoelhou e prometeu me proteger, me valorizar, ser meu escudo contra o mundo. Ele me prometeu uma vida inteira de amor.
Enquanto ele se afastava, deixando-me sangrando no chão, suas promessas ecoavam em minha mente, um coro cruel e zombeteiro.
O mundo se dissolveu em um vórtice de dor. A última coisa que vi antes de perder a consciência foi suas costas se afastando, uma silhueta de traição suprema.
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