
O Gato Dele, Minha Mãe Morta
Capítulo 2
Manuela Ruas POV:
Gabriel gritou no telefone. "Mentira! Ela está mentindo! Eu já disse que a Dona Cila estava estável! Manuela está te usando, Flávia! Não caia no jogo dela!"
A voz de Flávia estava tão tensa que parecia que ia quebrar. "Não é um jogo, Gabriel. É a verdade. Sua sogra morreu."
"Parem com essa palhaçada! Eu volto quando a Luna estiver segura. E quando eu voltar, Manuela, você vai me ouvir!" Ele sibilou, e a ligação foi cortada abruptamente.
Flávia soltou um suspiro de raiva, os olhos fixos no telefone. Ela me devolveu o aparelho, as mãos tremendo.
Eu mal conseguia ver a tela, mas as imagens daquela praia, daquele sorriso de Yara, estavam gravadas a fogo na minha mente. Aquele sol brilhante, as ondas, a felicidade de Gabriel – tudo em contraste com a escuridão do meu quarto de hospital, com o bip agonizante da máquina da minha mãe.
A ironia cruel da vida me sufocou. Ele, o homem a quem eu me vendi para salvar minha mãe, negou a ela a chance de viver. Em vez disso, ele estava brincando de "herói" para sua ex, resgatando um animal de estimação.
Aquele casamento. Foi uma tragédia desde o início.
Lembrei-me do dia em que Gabriel entrou no quarto da minha mãe, não como meu ex-marido, mas como o neurocirurgião brilhante e arrogante que ele era. Dona Cila precisava urgentemente de uma cirurgia cardíaca complexa, e os custos eram astronomicamente altos. Eu trabalhava em dois empregos, mas não era o suficiente.
Eu estava desesperada. Fui aos bancos, implorei, vendi tudo o que tinha. Nada era o bastante.
Foi então que Gabriel, o médico da minha mãe na época, fez uma proposta. Uma proposta que mudaria minha vida.
"Eu posso pagar o tratamento dela, Manuela", ele disse, seus olhos frios e calculistas. "Mas em troca, você vai se casar comigo."
Lembro-me de como minha boca se abriu. Casar? Eu mal o conhecia. Ele era o filho rico do dono do hospital, um homem de sucesso que exalava poder e indiferença.
"Por que?" Eu perguntei, a voz fraca.
Ele deu de ombros. "Conveniência. Meus pais querem que eu me case. E você, você é... apresentável. Discreta. Não vai me dar problemas. E o mais importante, você precisa de mim."
Eu hesitei. Casamento era algo sagrado para mim, uma união de amor. Mas minha mãe... minha mãe estava morrendo.
Eu aceitei. Aceitei ser um contrato, uma peça em seu jogo de aparências.
O irônico é que eu me apaixonei por ele.
Nos meses seguintes, enquanto minha mãe se recuperava, eu comecei a vê-lo de outra maneira. Em seus raros momentos de gentileza, quando ele me trazia um café, quando ele perguntava sobre o dia da minha mãe, uma pequena chama se acendeu em mim. Uma chama de esperança tola e ingênua.
Eu acreditei que, com o tempo, ele poderia me amar também. Que ele veria a mulher por trás do contrato.
Flávia, minha melhor amiga, casada com Edgar, irmão de Gabriel, era a única que sabia de tudo. Ela sonhava que nos tornaríamos uma família de verdade.
Eu também sonhava. Sonhava que ele esqueceria Yara, a ex que ainda assombrava seus pensamentos. Sonhava que ele me escolheria. Mas ele nunca o fez.
Eu me agarrei a ele, a essa falsa esperança, por gratidão. Por pensar que o devia por ter salvo minha mãe.
Agora, minha mãe se foi. E a gratidão se transformou em veneno.
Flávia estava ao meu lado, segurando minhas mãos. "Ele não merece uma única lágrima sua, Manu."
Mas as lágrimas continuavam a cair. Não só por ele, mas por minha mãe. Por minha vida desfeita.
Flávia me apertou em um abraço. "Eu estou aqui, sempre. Você não está sozinha."
O telefone dela tocou. Edgar.
Ela olhou para o nome na tela, a boca se curvando em um sorriso amargo.
"Pensei que ele estaria ocupado demais com a mais nova conquista", ela murmurou.
Flávia se casou com Edgar por arranjo familiar. Eles eram de famílias ricas, um casamento de negócios. Ele era um mulherengo assumido, sempre com uma nova modelo ou atriz a tiracolo.
Ela costumava defender ele. Dizia que ele era apenas... "jovial". Que no fundo ele a amava.
Até que as fotos vazaram. Edgar e uma atriz famosa, em um iate nas Maldivas. Não havia como negar.
Ela atendeu o telefone, a voz fria. "O que você quer, Edgar?"
Eu ouvi a voz dele, do outro lado, irritada. "Flávia, pare com isso. É apenas um mal-entendido. Aquela mulher me seguiu."
"Ah, sim", Flávia zombou. "E te seguiu até o quarto do hotel, e até a cama, e até as Maldivas. Que coincidência, não é?"
"Você está querendo brigar?" Ele perguntou, a voz subindo.
"Brigar?" Flávia riu, um riso sem alegria. "Não. Eu quero o divórcio. E pode me poupar do seu discurso manso sobre como você sentirá minha falta. Não sentirei a sua."
Houve um choque do outro lado. Ele não esperava isso.
"Divórcio? Flávia, não seja ridícula. Você está sendo dramática."
"Dramática?" A voz de Flávia era um trovão. "Eu não sou dramática, Edgar. Eu sou uma mulher que finalmente enxergou a verdade. Você e seu irmão são dois canalhas. E eu estou farta."
Ele xingou. "Você vai se arrepender disso. Eu vou te deixar sem nada."
"Tente", ela respondeu, a voz cheia de ódio. "Eu não preciso do seu dinheiro. E eu não preciso de você."
Ela desligou o telefone, os dedos tremendo. As lágrimas que ela segurava vieram com força.
"Eles são iguais, Manu", ela soluçou, me abraçando. "Dois vermes. Egoístas e cruéis."
Eu a abracei de volta, sentindo sua dor como se fosse a minha. Ela lutou tanto por ele, justificou suas infidelidades, suportou seu desprezo.
"Eu te amo, Flávia. E nós vamos sair dessa juntas."
Ela levantou a cabeça, os olhos vermelhos, mas com uma nova faísca. "Vamos. Vamos nos divorciar desses monstros. E vamos recomeçar. Você e eu."
Eu assenti. Era a única saída.
Depois do enterro da minha mãe, com o coração ainda em pedaços, enviei a mensagem de novo para Gabriel.
"Eu quero o divórcio. Assinaremos os papéis amanhã."
A resposta veio em segundos.
"Entendi. Pensei que você tivesse parado com seus joguinhos. Se é isso que você quer, eu aceito. Mas não venha choramingar depois que se arrepender."
Eu não respondi. Não havia mais nada para dizer.
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