
O Enigma da Fórmula
Capítulo 2
Minha irmã mais nova, Luna, nasceu diferente. Ela não chorava como os outros bebês, nem balbuciava. Seus olhos grandes e escuros pareciam ver coisas que nós não víamos, e um silêncio profundo a envolvia. Os médicos diziam que era um atraso no desenvolvimento, mas minha mãe, Laura, acreditava em outra coisa. Ela dizia que Luna era uma alma antiga, esperando o momento certo para falar. Uma velha tia-avó, ao vê-la pela primeira vez, disse algo que arrepiou a todos na sala.
"Esta menina carrega o peso de gerações. Sua primeira palavra será uma profecia."
Ninguém levou a sério, claro. Era apenas o folclore de uma senhora idosa. Mas a frase ficou gravada na minha memória.
Luna completou cinco anos em silêncio. Ela se comunicava por gestos, por olhares. Era uma criança doce e tranquila, a sombra silenciosa da nossa família. Eu, Sofia, com dez anos a mais, já estava imersa no mundo da ciência que meu pai, Ricardo, me apresentara. Para mim, o silêncio de Luna era um quebra-cabeça neurológico, um mistério a ser resolvido com lógica e observação.
Naquela noite, a atmosfera em casa estava estranha. Papai, um renomado cientista genético, estava mais agitado do que o normal. Ele andava de um lado para o outro em seu escritório, o telefone pressionado contra a orelha, falando em voz baixa e urgente sobre uma "fórmula" e prazos que estavam "se esgotando". Mamãe tentava acalmá-lo, mas seus ombros estavam tensos.
Foi então que aconteceu.
Estávamos todos na sala de estar. Papai tinha acabado de desligar o telefone com uma expressão sombria. O silêncio era pesado. De repente, uma voz pequena e clara cortou o ar.
"Papai não volta."
Todos nós nos viramos. A voz veio de Luna. Era a primeira vez que a ouvíamos falar. Suas bochechas estavam coradas pelo esforço, mas seus olhos estavam fixos em nosso pai, sérios e cheios de uma certeza assustadora.
Meu pai congelou. Ele se ajoelhou na frente dela.
"O que você disse, meu amor?"
Luna apenas balançou a cabeça e voltou ao seu silêncio, como se a porta que se abriu por um instante tivesse se fechado para sempre.
Na manhã seguinte, meu pai, um homem que nunca faltava ao trabalho, que vivia em seu laboratório, ligou para dizer que não iria. Ele disse que precisava tirar o dia de folga para "organizar uns papéis importantes". Foi a última vez que ouvimos sua voz. Ele saiu de casa para ir ao banco, segundo disse, e nunca mais voltou. Seu carro foi encontrado abandonado perto de uma velha ponte, com as chaves na ignição e seu celular no banco do passageiro. Na mesa de seu escritório, um único bilhete. Nele, uma sequência de códigos genéticos e uma frase escrita às pressas: "A fórmula é a chave. O tempo está se esgotando. Proteja-se da maldição."
A polícia veio. Fizeram perguntas. Para eles, era um caso de desaparecimento voluntário. Um homem estressado que decidiu largar tudo. Eles vasculharam a casa, o laboratório, mas não encontraram nada que indicasse um crime. Eles sugeriram que talvez ele tivesse problemas, dívidas, ou até mesmo outra família. Minha mãe negou tudo, com a voz embargada.
Eles também conversaram com Luna. Um psicólogo infantil, um homem gentil com um sorriso paciente, sentou-se com ela por uma hora. Ele tentou de tudo: desenhos, bonecos, perguntas suaves.
"Luna, você se lembra de alguma coisa sobre o seu papai ontem?"
"Ele parecia triste ou com medo?"
Luna permaneceu em silêncio. Ela apenas olhava para o homem com seus olhos profundos e vazios, como se ele não estivesse ali. Para a polícia, era apenas uma criança traumatizada, talvez com algum distúrbio que a impedia de falar. Seu silêncio foi registrado como mais uma peça no quebra-cabeça confuso do desaparecimento do meu pai.
Mas eu sabia. Eu sabia que o silêncio dela não era vazio. Era pesado, cheio de conhecimento. A profecia de nossa tia-avó ecoava em minha cabeça. E a imagem de Luna, falando pela primeira vez naquela noite fatídica, me assombrava. Eu sentia, com uma certeza aterrorizante, que ela falaria de novo. E eu temia o que ela diria da próxima vez.
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