
O Enigma da Fórmula
Capítulo 3
As semanas se transformaram em meses. O desaparecimento do meu pai virou a fofoca do bairro. As pessoas sussurravam quando minha mãe ia ao supermercado. "Coitada da Laura, o marido a abandonou." "Eu ouvi dizer que ele estava envolvido com gente perigosa." "E a filha mais nova? Dizem que ela não é normal." Cada palavra era um golpe, afundando minha mãe ainda mais em sua própria escuridão. Ela parou de sair, parou de comer, parou de viver. A ex-pesquisadora brilhante que trabalhava ao lado do meu pai se tornou uma concha vazia, perdida em um mar de depressão.
Finalmente, a polícia encerrou o caso. A conclusão oficial foi "desaparecimento voluntário por motivos desconhecidos". Um pedaço de papel que tentava colocar um ponto final em um mistério que gritava em nossas vidas. Eu rasguei o relatório em pedaços. Eles não entendiam. Eles não viram o olhar do meu pai, não ouviram a urgência em sua voz, não leram o aviso sobre a "maldição". Para eles, era apenas mais um arquivo para ser engavetado. Para mim, era o começo de uma guerra.
A raiva dentro de mim crescia a cada dia, uma pressão que precisava de uma válvula de escape. E essa válvula era Luna. Numa tarde chuvosa, eu a encontrei em seu quarto, sentada no chão, olhando para a parede. A quietude dela me enlouqueceu.
"Você sabia", eu disse, minha voz tremendo. "Você sabia que ele ia sumir, não sabia?"
Ela não se virou. Não demonstrou nenhuma reação.
Eu andei até ela e a segurei pelos ombros, forçando-a a olhar para mim. Seus olhos estavam vazios.
"DIGA ALGUMA COISA! Pela primeira vez na sua vida você fala, e é pra dizer que o papai não vai voltar? O que você sabe, Luna? O que você viu?"
Meu grito ecoou pelo quarto silencioso. As lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e amargas. Eu a estava chacoalhando, desesperada por uma resposta, qualquer coisa que quebrasse aquele silêncio torturante.
Luna lentamente levantou a mão. Ela se soltou do meu aperto, pegou um lápis e um pedaço de papel de sua mesinha. Com uma caligrafia infantil e trêmula, ela escreveu uma única palavra.
PERIGO.
Ela me entregou o papel. Eu olhei para a palavra, depois para ela.
"Perigo? Que perigo? Quem está em perigo? Fale comigo, droga!"
Minha voz se quebrou. A frustração, a dor, o medo, tudo veio à tona em uma onda avassaladora.
"É sua culpa!", eu gritei, as palavras saindo da minha boca antes que eu pudesse contê-las. "Se você tivesse dito alguma coisa antes, talvez pudéssemos ter feito algo! Talvez ele ainda estivesse aqui! Mas você ficou quieta, como sempre! Você e seus segredos!"
O impacto das minhas próprias palavras me atingiu como um soco. O rosto de Luna permaneceu inexpressivo, mas eu vi algo vacilar em seus olhos por um segundo. Arrependimento me inundou, mas a raiva era mais forte.
Luna se levantou. Ela caminhou lentamente em direção à porta, o pedaço de papel com a palavra "PERIGO" caindo de minha mão e flutuando até o chão. Quando ela chegou à porta, ela parou e se virou. E então, ela sorriu.
Não era um sorriso normal. Era um sorriso pequeno, torto, quase imperceptível. Mas era o sorriso mais aterrorizante que eu já tinha visto. Não havia alegria nele, nem tristeza, nem qualquer emoção que eu pudesse reconhecer. Era um sorriso vazio, um sorriso que dizia que ela sabia de tudo e que não havia nada que eu pudesse fazer. Era o sorriso de alguém que via o final da história e achava uma graça macabra nisso.
Ela saiu do quarto, me deixando sozinha com o eco das minhas acusações e a imagem daquele sorriso assustador gravada na minha mente. Aquele sorriso me gelou até os ossos. Naquele momento, eu não senti mais raiva da minha irmã. Eu senti medo.
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