
O Eco Que Ela Escolheu Apagar
Capítulo 2
Evelyn Compton POV:
Bianca emergiu do ombro de Heitor, seus olhos arregalados e marejados, mas um brilho de algo mais afiado, algo calculista, brilhava sob a superfície. "Saindo? Mas... mas para onde você vai? Você não pode simplesmente abandonar seu posto, Eco. E quanto a... e quanto à nossa missão?" Sua voz tremia, perfeitamente afinada para parecer frágil e preocupada.
Ela se virou para Heitor, suas mãos buscando as dele, seu olhar suplicante. "Heitor, por favor. Não a deixe ir. Ela está com raiva. Ela não quer dizer isso. Nós precisamos dela."
Os olhos de Heitor, desprovidos de qualquer simpatia por mim, estavam cheios de preocupação imediata por ela. Ele a puxou para mais perto, me fuzilando com o olhar. "Eco, que bobagem é essa? Você acha que pode simplesmente ir embora? Depois de tudo que Bianca passou? Depois de todos os sacrifícios que ela fez pela Águia?" Sua voz era baixa, carregada de fúria.
Os outros rapidamente se uniram a ele. "Ela está certa, Eco. Você está sendo egoísta," Carina interveio, sua voz fria. Outro agente, um jovem que eu mesma treinei, acrescentou: "Isso não é justo com a Bianca. Ela te admira."
Justo. Injusto. As palavras tinham gosto de cinzas. Carina, a mulher cuja vida eu salvei em uma ponte em colapso em Istambul, cuja ferida sangrenta eu cauterizei com minhas próprias mãos. O jovem agente, cuja família eu extraí de um país devastado pela guerra. Meus sacrifícios não significavam nada.
"Meus sacrifícios?" perguntei, minha voz subindo, um tremor de pura indignação percorrendo-me. "Vocês ao menos se lembram do que eu fiz por todos vocês?"
Heitor me interrompeu, um aceno desdenhoso de sua mão silenciando minhas palavras. "Isso não é sobre seus heroísmos passados, Eco. É sobre seu comportamento atual. Seu ciúme está nublando seu julgamento. Bianca é um ativo valioso. Você não pode simplesmente descartá-la, ou suas responsabilidades, por causa de seus problemas pessoais."
Ele envolveu um braço em volta de Bianca, puxando-a protetoramente contra ele. Seu olhar me desafiava a contestá-lo.
Uma onda aguda e vertiginosa de náusea me atingiu. Minha visão embaçou nas bordas, uma sensação familiar se insinuando – o precursor dos efeitos colaterais da limpeza de memória, uma ondulação de algo desconhecido e perturbador. Minha cabeça latejava, um eco surdo da antiga lesão.
Cerrei o maxilar, superando o desconforto, determinada a escapar desta sala sufocante. Virei-me para sair, mas Bianca, com um grito súbito e agudo, caiu no chão, envolvendo os braços em volta da minha perna.
"Não! Por favor, Eco, não vá! Eu não consigo fazer isso sem você!" ela lamentou, seu aperto surpreendentemente forte.
Meu treinamento de combate entrou em ação, um membro fantasma do meu passado. Foi um instinto, um reflexo. Alguém te agarra, você se liberta. Eu me torci, minha perna automaticamente a sacudindo, meu joelho subindo para desalojar seu aperto.
Ela gritou, um som agudo e penetrante que fez a sala inteira se encolher. Ela desabou no chão, embalando a mão. "Meu... meu dedo! Ela me chutou! Ela quebrou!"
Heitor estava sobre ela em um instante, me empurrando com tanta força que cambaleei para trás, batendo na parede. "Eco! Que diabos há de errado com você?" Seus olhos estavam em chamas, uma raiva fria e assassina neles. Ele se ajoelhou ao lado de Bianca, examinando sua mão. "Está inchado. Oh, Deus. Eco, você sabe o que fez? Você tentou aleijá-la! Suas habilidades motoras finas são essenciais para o trabalho dela!"
Ele pegou Bianca nos braços, carregando-a como se ela não pesasse nada. Seus olhos, escuros e perigosos, encontraram os meus por cima da cabeça dela. "Você é um risco, Eco. Um risco perigoso e instável." Ele passou por mim, ignorando meu protesto silencioso, seus passos pesados enquanto carregava Bianca para fora da sala.
Os outros agentes o seguiram, seus rostos uma mistura de nojo e medo. Carina parou na porta, seus olhos estreitos. "Você foi longe demais desta vez, Eco. Heitor não vai esquecer isso." Ela saiu, a porta se fechando atrás dela, me deixando completamente sozinha.
Apenas um agente júnior permaneceu, um jovem recruta que sempre pareceu me idolatrar. Agora, seu rosto estava contorcido em um escárnio. "Vadia louca," ele murmurou, alto o suficiente para eu ouvir, antes que ele também desaparecesse.
As palavras foram como um golpe físico. Mas eu me recusei a quebrar. Fiquei ali, respirando fundo, trêmula, forçando para baixo a raiva que ameaçava me consumir.
Caminhei até o escritório de Alston Hensley. O CEO da Águia, um homem cuja crueldade só era igualada por seu pragmatismo. Ele ergueu os olhos quando entrei, sua expressão indecifrável.
"Eco. Ouvi dizer que houve um incidente." Sua voz era calma, medida.
"Houve," confirmei, de pé diante de sua mesa, minha espinha ereta. "E estou aqui para apresentar minha demissão."
Suas sobrancelhas se ergueram ligeiramente. "Demissão? Depois de uma década de serviço? Depois de tudo que você construiu aqui?" Seu tom era quase pesaroso. "Você tem sido um dos ativos mais valiosos da Águia, Eco. Seu histórico é impecável."
"Meu histórico é irrelevante agora," eu disse, minha voz plana. "Minha posição aqui é insustentável. Não consigo mais funcionar efetivamente dentro desta equipe."
Ele se recostou na cadeira, seu olhar penetrante. "Isso é sobre Heitor? Sobre Bianca?"
Soltei uma risada amarga e sem humor. "É sobre confiança, Sr. Hensley. Ou melhor, a completa falta dela." Eu não elaborei. Não havia necessidade. Ele sabia. Ele sempre sabia de tudo.
Nesse momento, a porta se abriu e Heitor entrou, seu rosto sombrio. "Alston, preciso falar com você sobre a Eco. O comportamento dela está errático. Ela está fazendo acusações infundadas. Seu estado mental é questionável." Ele parou abruptamente quando me viu ali.
"Eco?" ele perguntou, um lampejo de surpresa em seus olhos. "O que você está fazendo aqui?"
"Apenas conversando com o Sr. Hensley sobre nosso... relacionamento profissional," respondi, um sorriso frio tocando meus lábios. "Ou a falta dele."
Os olhos de Heitor se estreitaram. "O que você está insinuando?"
"Nada que você já não entenda, Heitor," eu disse, meu olhar firme.
Alston pigarreou. "Heitor, Eco me informou de seu desejo de deixar a Águia."
O rosto de Heitor empalideceu. "Sair? Ela não pode. Não agora. Não com tudo em jogo." Ele se virou para mim, sua voz mais suave, tingida de uma estranha urgência. "Eco, não seja precipitada. Passamos por muita coisa. Nosso casamento... está apenas adiado, não cancelado. Podemos consertar isso."
Ele enfiou a mão no bolso, tirando uma pequena caixa de veludo. Ele a abriu, revelando o anel de noivado, o diamante brilhando sob as luzes do escritório. "Por favor. Não jogue fora tudo que construímos."
Uma torção cruel em meu estômago. Ele estava me oferecendo um futuro quebrado, um futuro manchado pela traição, tentando me atrair de volta com um símbolo que havia perdido todo o significado. Minha mente, no entanto, já estava além disso.
Meu olhar estava frio, vazio de qualquer emoção. "Esse anel não significa mais nada para mim, Heitor. É um símbolo de uma mentira."
Alston Hensley interveio, sua voz firme. "Eco conquistou o direito de partir. Garantirei que seu pacote de rescisão seja generoso. Ela será compensada por seus anos de serviço exemplar." Ele empurrou um tablet sobre sua mesa. "Assine aqui, Eco. Isso transferirá uma quantia substancial para sua conta offshore, o suficiente para uma nova vida confortável."
Eu assenti, peguei a caneta e assinei o formulário digital. O dinheiro não era o ponto. Era a fuga. A finalidade.
Voltei para o meu quarto, o silêncio um contraste gritante com a discussão que eu havia deixado para trás. Arrumei uma única mala de lona. Alguns itens essenciais. Todo o resto, cada memória, cada fantasma, seria deixado para trás. Deitei-me, exausta, o peso pesado do dia me pressionando, e, misericordiosamente, caí em um sono agitado.
Um clique suave me acordou. Meus olhos se abriram de repente. O quarto estava escuro, mas uma fresta de luar iluminava Heitor parado ao lado da minha cama. Meu coração martelava contra minhas costelas, um medo primitivo me dominando.
"Heitor?" Minha voz era quase um sussurro. "O que você está fazendo aqui?"
Ele se aproximou, uma pequena caixa na mão. "Você esqueceu isso," ele disse, sua voz baixa, quase gentil. Ele colocou a caixa de veludo na minha mesa de cabeceira. O anel de noivado.
"Eu não esqueci," eu disse, minha voz plana. "Eu o descartei."
Ele ignorou a farpa. "Eco, por favor. Não faça isso. Ainda podemos resolver isso. Lembra de todas as vezes que enfrentamos probabilidades impossíveis? A maneira como sempre protegemos um ao outro?"
Imagens passaram pela minha mente: sessões de treinamento, situações perigosas, os momentos tranquilos de vitória, sua mão na minha. Por uma fração de segundo, uma pontada do que parecia ser saudade, um fantasma de uma memória, cintilou.
Então, sua voz, grossa de desespero, quebrou a frágil ilusão. "Bianca precisa de nós, Eco. Ela está apavorada. Ela passou por tanta coisa. Você é a melhor nisso. Precisamos de vocês duas."
Meus olhos se abriram. Bianca. Sempre Bianca. Seu apelo desesperado não era por nós, mas por ela. Ele me queria de volta para limpar a bagunça dela, para protegê-la.
"Você quer que eu limpe seu mais recente desastre?" perguntei, minha voz carregada de veneno. "Que eu finja que nada disso aconteceu, só para que sua preciosa Bianca possa se sentir segura?"
Ele se encolheu. "Não é assim. Somos uma equipe, Eco. Sempre fomos. Nosso casamento ainda está de pé, assim que as coisas se acalmarem." Ele estendeu a mão para mim.
Eu me afastei bruscamente. "Não existe 'nós', Heitor. Existe apenas você e sua nova protegida. E não haverá casamento."
Antes que ele pudesse responder, seu comunicador zumbiu novamente, com urgência. Uma voz frenética, diferente desta vez, mas a mensagem era clara: Bianca estava em perigo. De novo.
Seu rosto, que estava suplicante momentos antes, endureceu instantaneamente. Sua prioridade mudou, seus olhos agora fixos na fonte da chamada urgente. Ele se virou e correu pelo corredor, mais uma vez me deixando, descartada, na esteira da crise fabricada de Bianca.
A porta se fechou com um clique, mergulhando o quarto de volta na escuridão.
Fiquei ali, o peso frio da caixa do anel na minha mesa de cabeceira, os ecos de seu abandono ressoando em meus ouvidos. Ele realmente se foi. E eu, eu estava finalmente livre.
Peguei meu telefone, meus dedos voando pela tela. Havia um número direto para a Tecnologia Clandestina no anúncio que eu vira mais cedo. Eu precisava agir rápido.
"Estou pronta para a próxima fase," eu disse ao telefone, minha voz firme, minha resolução de ferro. "Apague tudo. Tudo."
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