
O Consolo Que Virou Rainha
Capítulo 2
A noite em Lisboa estava fria, o vento soprava pelas frestas da janela do nosso apartamento. Hugo Gordon, o meu namorado, dormia ao meu lado, mas o seu sono era agitado.
Ele murmurava um nome, não o meu.
"Juliette..."
O nome saiu dos seus lábios como um suspiro, cheio de uma saudade que ele nunca me demonstrou.
Fiquei deitada, imóvel, a olhar para o teto. O meu coração parecia ter parado de bater. Conhecíamos-nos há anos, a nossa relação era a inveja de todos, mas naquele momento, senti-me uma completa estranha na minha própria cama.
Levantei-me devagar, sem fazer barulho. Na sala, a luz do seu telemóvel estava acesa. Ele tinha-o deixado em cima da mesa. A curiosidade, uma força terrível, apoderou-se de mim.
Peguei no telemóvel. A galeria de fotos estava aberta. Eram dezenas, talvez centenas de fotografias de Juliette Lawrence, a sua ex-namorada da universidade. Fotos dela a sorrir, a pintar, a viver uma vida da qual eu não fazia parte. Ele tinha-as guardado este tempo todo.
O meu corpo arrefeceu. Senti-me tola. Todos os jantares, todas as viagens, todos os "amo-te" pareceram uma farsa.
O telemóvel dele vibrou na minha mão. Era uma chamada de um amigo, Ricardo. Atendi instintivamente, sem pensar, e fiquei em silêncio.
"Hugo? Então, já decidiste? Vais mesmo gastar essa fortuna no quadro da Juliette?"
A voz do Ricardo soava divertida.
Ouvi um barulho vindo do quarto, Hugo a mexer-se. A sua voz sonolenta chegou até mim. "Sim, vou comprar. É a única forma de a ter de volta. Nunca amei a Liza, sabes disso. Ela é só... um consolo. Um porto seguro enquanto espero pela Juliette."
Um consolo.
A palavra ecoou na minha cabeça. Não era amor, era conveniência.
"Mas e a Liza?", perguntou o Ricardo. "Ela é uma boa rapariga. Não é justo."
"Justo?", a voz de Hugo tornou-se mais dura. "A vida não é justa. A Juliette deixou-me quando a empresa da minha família quase faliu. Agora que sou bem-sucedido, quero que ela veja o que perdeu. A Liza... a Liza é só uma solução temporária. Um arranjo."
Desliguei a chamada. As minhas mãos tremiam tanto que quase deixei o telemóvel cair.
Um arranjo. A minha vida, o meu amor, a minha dedicação... tudo reduzido a um arranjo.
Voltei para a sala e sentei-me no escuro, a reviver o início da nossa relação. Conheci Hugo através da irmã dele, Fiona, a minha melhor amiga. Ele era charmoso, bem-sucedido, o arquiteto que todos admiravam. Eu era apenas uma designer de interiores a tentar fazer nome em Lisboa, vinda de uma família humilde. Senti-me como se tivesse ganhado a lotaria.
Lembrei-me de como ele me contou sobre Juliette. Disse que ela o tinha abandonado num momento difícil, que era uma história do passado. Eu acreditei. Consolei-o, cuidei dele, dei-lhe o meu coração sem reservas.
Que ingénua.
Ele nunca a esqueceu. A empresa da família dele recuperou, ele tornou-se ainda mais influente, e agora, a socialite materialista estava de volta, pronta para colher os frutos do sucesso dele. E eu? Eu era o degrau que ele usou para subir.
Uma raiva fria começou a crescer dentro de mim. Acabou. Esta farsa tinha de acabar.
Levantei-me, fui ao nosso quarto, e comecei a arrumar as minhas coisas numa mala. Tirei as nossas fotos das molduras, uma a uma. Rasguei-as ao meio. Joguei no lixo um pequeno colar que ele me tinha oferecido no nosso primeiro aniversário.
O meu telemóvel tocou. Era Fiona.
"Liza? Estás bem? Pareces estranha."
"Preciso de te ver. Agora", disse eu, a minha voz firme, sem qualquer vestígio de lágrimas.
Hugo entrou na sala, a esfregar os olhos. "Liza? O que estás a fazer acordada? E com essa mala?"
Olhei para ele, o homem que eu pensava amar. Agora, só via um estranho.
"Vou sair", disse eu, calmamente.
"Sair? Para onde? A esta hora?", ele parecia confuso, não preocupado.
O telemóvel dele tocou novamente. Ele olhou para o ecrã e o seu rosto iluminou-se. "É a Juliette. Tenho de atender. Espera por mim."
Ele virou-me as costas, atendendo a chamada com uma voz suave que nunca usava comigo.
Não esperei. Peguei na minha mala e saí pela porta, fechando-a atrás de mim sem olhar para trás.
Fui ter com a Fiona ao café onde nos encontrávamos sempre. Ela estava pálida, os olhos vermelhos de tanto chorar.
"Liza, o meu noivado... não posso fazer isto. Não posso casar com o Darryl Gordon."
Fiona estava noiva de um homem que nunca tinha visto. Um acordo de casamento antigo entre a família dela e os Gordon do Douro, os magnatas do vinho, para unir os seus impérios.
"Ele é um monstro, Liza", sussurrou ela. "Dizem que ficou desfigurado num acidente, que vive isolado na quinta. Ninguém o quer. Tenho medo."
Ela confessou que estava apaixonada por um colega da universidade e que planeavam fugir juntos.
Enquanto ela falava, uma ideia louca, desesperada, formou-se na minha mente. Uma fuga. Uma oportunidade.
"Fiona", interrompi-a. "Eu caso com ele."
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