
O Consolo Que Virou Rainha
Capítulo 3
Fiona olhou para mim, os olhos arregalados de espanto. "O quê? Liza, enlouqueceste? Não podes fazer isso!"
"Por que não?", insisti, a minha voz surpreendentemente calma. "O Hugo nunca me amou. Acabei de o ouvir a dizer isso mesmo. A minha vida aqui acabou. Pelo menos isto é uma saída. E tu podes ser feliz com o homem que amas."
"Mas o Darryl Gordon...", começou ela, a voz a tremer. "Os rumores são horríveis. Dizem que ele tem um temperamento terrível, que a sua cara está cheia de cicatrizes. Ele vive como um recluso. Ninguém sabe como ele é realmente. E se ele for um homem cruel?"
Pensei no Hugo. Na sua crueldade subtil, na sua indiferença fria. Pior do que isso não podia ser. Pelo menos com Darryl, eu saberia desde o início que era um acordo. Sem falsas esperanças, sem mentiras.
"Eu já não acredito em contos de fadas, Fiona", disse eu, com uma firmeza que não sabia que possuía. "O Hugo destruiu isso. Agora, quero estabilidade. Um novo começo, longe de tudo isto. Este casamento é um negócio. E eu estou pronta para o aceitar."
Vi a luta no rosto da minha amiga. A culpa e o alívio a batalharem.
"Eu ajudo-te a fugir", continuei, pegando na mão dela. "Tenho algumas poupanças. Podes usar o dinheiro para começar uma nova vida com o teu namorado. Vão para longe, onde ninguém vos encontre."
Tirei um envelope da minha carteira e entreguei-lho. Era tudo o que eu tinha.
As lágrimas escorreram pelo rosto de Fiona. "Liza, eu não posso aceitar. Estás a sacrificar-te por mim."
"Não é um sacrifício", menti. "É uma troca. Tu dás-me uma saída, eu dou-te a tua liberdade. Estamos quites."
Ela abraçou-me com força. "Obrigada. Nunca me vou esquecer disto."
Na manhã seguinte, acompanhei Fiona à estação de comboios. Vi-a entrar no comboio que a levaria para longe de Lisboa, para a sua nova vida. Enquanto o comboio partia, senti uma pontada de melancolia, mas também uma estranha sensação de libertação. A minha antiga vida, a ilusão que eu tinha construído com o Hugo, estava a desaparecer no horizonte, tal como o comboio.
Voltei para o meu pequeno apartamento, o único lugar que era verdadeiramente meu. Abri o computador e comecei a pesquisar sobre a família Gordon do Douro. O casamento seria em poucos dias. A família de Fiona, furiosa com o seu desaparecimento, aceitou a minha proposta desesperada para evitar um escândalo e a quebra do acordo comercial.
Liguei para a organizadora do casamento. "Sim, sou eu, a noiva. Não, não preciso de um vestido de sonho. O mais simples que tiver serve. Sim, o branco está bom."
Era uma transação, nada mais. Eu seria a noiva substituta, e ele, o noivo recluso. Não havia espaço para romance.
Passei o resto do dia a apagar o Hugo da minha vida. Fotos, mensagens, o número de telemóvel dele. Bloqueei-o em todas as redes sociais. Rasguei cada bilhete, cada carta. Queria que não restasse nenhum vestígio dele.
Quando estava quase a terminar, o meu telemóvel tocou. Um número desconhecido.
"Liza? Sou eu, a mãe do Hugo. Querida, preciso da tua ajuda. O Hugo está a participar num leilão de arte de caridade esta noite. Ele está determinado a comprar um quadro pintado pela Juliette. Podes ir lá e tentar demovê-lo? Ele ouve-te sempre."
Uma risada amarga escapou-me. Ele ouve-me sempre. Que piada.
Mas uma parte de mim, uma parte masoquista, queria ver. Queria ver com os meus próprios olhos a profundidade da sua obsessão.
"Está bem. Eu vou", respondi.
Cheguei à galeria de arte e vi-o imediatamente. Hugo estava no centro das atenções, elegante no seu fato caro. Ao lado dele, Juliette, deslumbrante num vestido vermelho. Ela segurava o braço dele como se nunca o tivesse largado.
Ouvi os sussurros à minha volta. "Eles voltaram a estar juntos? Parecem perfeitos." "Ouvi dizer que ele vai pagar uma fortuna pelo quadro dela."
O leilão começou. O quadro de Juliette, uma paisagem abstrata, foi apresentado. A licitação começou alta e subiu rapidamente. Hugo não hesitou. Com um aceno de cabeça, ele ofereceu uma quantia exorbitante, silenciando toda a sala.
O martelo bateu. "Vendido ao senhor Gordon!"
Juliette virou-se para ele e beijou-o, um beijo longo e apaixonado, para toda a gente ver. A sala explodiu em aplausos.
E eu fiquei ali, no meio da multidão, a testemunha silenciosa da minha própria humilhação. A dor era tão intensa que me deixou sem ar.
Você pode gostar





