
O Boato Que Não a Quebrou
Capítulo 2
A sala de reuniões da Quinta dos Magalhães era fria, o ar condicionado soprava um vento gelado que me arrepiava a pele.
Eu estava a apresentar a minha proposta de restauro dos painéis de azulejos do século XVIII, o meu trabalho de sonho.
"A minha abordagem foca-se na preservação da pátina original, utilizando materiais reversíveis e técnicas historicamente precisas," expliquei, apontando para as projeções na parede.
A minha voz estava firme, confiante. Esta era a minha área, a minha paixão.
De repente, uma voz arrastada e cheia de desdém cortou o ar.
"Técnicas historicamente precisas? Ou será que a sua técnica mais apurada é encontrar um 'padrinho' rico para financiar os seus projetos?"
Era Tiago Sá Pereira, o melhor amigo de Duarte de Magalhães. Um playboy conhecido em Lisboa, com um sorriso cruel nos lábios.
O silêncio na sala tornou-se pesado. Os meus colegas olharam para o chão, o meu chefe, o Senhor Bastos, engoliu em seco.
O meu passado, um boato malicioso da universidade, tinha acabado de ser atirado para o meio da reunião mais importante da minha carreira.
Senti o sangue fugir-me do rosto, mas mantive a postura.
"Peço desculpa, Senhor Sá Pereira, mas não percebo a relevância do seu comentário para a integridade dos azulejos do século XVIII."
Ele riu-se, um som desagradável.
"Oh, por favor, Leonor. Toda a gente na Belas-Artes sabia da 'musa' e do seu mecenas. Não admira que tenha conseguido este projeto. Algumas pessoas têm talento, outras têm... outros talentos."
A humilhação era pública, crua. Fui despida de toda a minha credibilidade profissional em segundos.
Fui removida do projeto ali mesmo, sem mais discussões. O Senhor Bastos, ansioso por agradar, gaguejou que a minha colega Inês, que me olhava com um triunfo mal disfarçado, assumiria a liderança.
Levantei-me, a cadeira arrastou-se ruidosamente no chão de madeira. Olhei diretamente para o homem que esteve em silêncio o tempo todo, no topo da mesa.
Duarte de Magalhães.
O herdeiro do império Magalhães. O nosso cliente. E o homem que, quatro anos antes, me tinha esmagado com uma única frase.
Ele observava-me, o seu rosto uma máscara fria e polida. Não era o mesmo rapaz da universidade. Este era um homem, poderoso, implacável.
Um flashback rápido e doloroso invadiu-me a mente. A biblioteca da faculdade, a chuva lá fora. Ele a aproximar-se. "Quanto custa uma hora da tua atenção, Leonor? Ou o teu 'padrinho' paga-te o suficiente para não precisares de mais ninguém?"
Aquelas palavras ainda ardiam.
Agora, ele assistia à minha humilhação sem mover um músculo, os seus olhos escuros e indecifráveis. Ele permitiu que acontecesse.
"Com a vossa licença," disse eu, a minha voz a tremer apenas ligeiramente.
Inês, a minha antiga colega, a fonte original daquele boato, sorriu abertamente quando passei por ela.
"Não te preocupes, Leonor. Eu tomo conta de tudo," disse ela, a sua voz a pingar falsa simpatia.
Agarrei na minha mala e saí da sala, de cabeça erguida, sem olhar para trás.
Enquanto caminhava pelo longo corredor da quinta, ouvi os passos de Duarte atrás de mim. Ele não disse nada, apenas observou-me sair.
Lá fora, uma chuva fina começara a cair, molhando as ruas de paralelepípedos. O meu carro, um modelo antigo que falhava frequentemente, não pegou.
A frustração e a humilhação misturaram-se, formando um nó na minha garganta. Bati no volante, uma única vez, com força.
Respirei fundo. Dignidade, Leonor. Sempre.
De repente, um som atrás de mim. Duarte estava ali, de pé, na chuva, a segurar um guarda-chuva preto. Ele tinha acabado de atirar um isqueiro de prata caro para o lixo, depois de acender um cigarro. A sua expressão era fria, distante.
"Problemas?" a sua voz era grave, sem emoção.
Enquanto eu tentava ligar o carro novamente, vi uma mulher sem-abrigo encolhida debaixo de uma arcada. Sem pensar, saí do carro, agarrei na sanduíche que tinha guardado para o almoço e entreguei-lha.
A mulher olhou para mim, os seus olhos cansados a expressarem uma gratidão silenciosa.
Voltei para o meu carro, para o meu pequeno canto sujo e húmido do mundo. Era aqui que eu pertencia, longe do brilho e da crueldade do mundo dele.
Duarte observou a cena toda, o cigarro a meio caminho dos seus lábios, uma expressão estranha a passar pelo seu rosto por uma fração de segundo.
Finalmente, o meu carro pegou.
Passei pelo seu Bentley preto, o vidro fumado a esconder o seu rosto. Ele não era apenas rico, ele era de outro universo. Um universo que me tinha mastigado e cuspido, duas vezes.
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