
O Boato Que Não a Quebrou
Capítulo 3
No dia seguinte, o escritório era um campo minado de olhares e sussurros. A notícia da minha humilhação na Quinta dos Magalhães tinha-se espalhado como fogo.
Sentei-me à minha secretária, ignorando os olhares de pena e os sorrisos maliciosos. Abri os meus esboços, tentando focar-me no trabalho.
A porta do meu pequeno cubículo abriu-se de repente. Era Tiago Sá Pereira.
"Então, a pequena órfã do fado ainda se atreve a aparecer?" disse ele, encostando-se ao batente da porta com um ar arrogante.
"O que queres, Tiago?" perguntei, sem levantar os olhos dos meus desenhos.
"Só vim ver como estava a minha 'afilhada' preferida. Ouvi dizer que foste posta no teu lugar. Já não era sem tempo."
Levantei a cabeça e olhei-o nos olhos.
"Se vieste aqui para te regozijares, podes poupar o teu fôlego. Tenho trabalho para fazer."
Ele riu-se. "Trabalho? Pensei que o teu trabalho era outro. Diz-me, como conseguiste entrar nesta empresa? Foi o velho Valente que te arranjou o lugar?"
"Porque é que te importas tanto?" perguntei, a minha voz fria como gelo. "Porque é que me odeias tanto?"
Ele aproximou-se, o seu rosto perigosamente perto do meu.
"Não é ódio, querida. É prazer. Adoro ver-te a rastejar. E um aviso: fica longe do Duarte. Ele não é para o teu bico."
Bufei. "Não te preocupes. Não tenho qualquer interesse no teu amigo precioso. Para mim, ele pode ir para o inferno."
O sorriso de Tiago vacilou.
"A Inês disse-me que andavas a gabar-te de que o Duarte ainda era obcecado por ti desde a faculdade. Que patética."
A menção a Inês fez-me perder o sorriso. A traição dela ainda doía.
"Sai do meu escritório," disse eu, a minha voz baixa e ameaçadora.
"Ou o quê? Vais chamar o teu padrinho?" ele provocou. "Um conselho, Leonor. Desaparece de Lisboa. Volta para o buraco de onde vieste. Ninguém te quer aqui."
"Sinto nojo de ti," cuspi as palavras.
Ele apenas sorriu e saiu, deixando-me a tremer de raiva.
Momentos depois, Inês entrou, com uma pilha de pastas nos braços e uma postura de vitoriosa.
"Leonor, querida," disse ela, com a sua voz falsamente doce. "O Senhor Bastos pediu para te entregar isto."
Ela pousou as pastas na minha secretária. Eram os ficheiros de um projeto menor, um trabalho de restauro de baixo orçamento num subúrbio esquecido. Uma humilhação profissional.
"O projeto da Quinta dos Magalhães é muito complexo. O Senhor Bastos achou que seria melhor para ti teres algo mais... simples," explicou ela.
"Claro," respondi, sem emoção.
"A propósito," continuou ela, "o Senhor de Magalhães mencionou o teu nome. Parecia... preocupado. O que se passa entre vocês?"
"Nada que te interesse," cortei-a.
Ela deu de ombros, um sorriso satisfeito no rosto, e saiu.
Olhei para as pastas. Eu precisava do dinheiro. O meu pai, Afonso, o grande fadista caído em desgraça, tinha deixado uma montanha de dívidas. Eu não tinha escolha.
Tive de aceitar o projeto.
Mais tarde nesse dia, o Senhor Bastos chamou-me ao seu escritório. Disse-me que tinha uma reunião com um novo cliente importante e que queria que eu o acompanhasse.
"É uma grande oportunidade, Leonor," disse ele.
A "reunião" foi num bar de luxo no Chiado. Em vez de chá e plantas de arquitetura, havia garrafas de whisky e charutos. Uma armadilha.
O cliente, um homem mais velho chamado Senhor Faria, olhou para mim de cima a baixo, um brilho oleoso nos seus olhos.
"Então esta é a famosa restauradora," disse ele. "O Senhor Bastos disse-me que é muito... talentosa."
Ele serviu-me um copo de whisky.
"Beba, menina. Vamos celebrar o nosso novo projeto."
"Eu não bebo, obrigada," recusei educadamente.
"Não seja tímida. Uma mulher com a sua... reputação... não deve ser tão recatada," ele insistiu, a sua mão a pousar perigosamente perto da minha.
Discretamente, liguei o gravador do meu telemóvel no bolso.
Ele continuou a falar, as suas intenções a tornarem-se cada vez mais claras. Ele não queria o meu talento de restauradora. Ele queria outra coisa.
"Sabe, Leonor," disse ele, "uma mulher bonita como você, com um pai problemático... a vida pode ser muito difícil. Mas eu posso torná-la muito, muito fácil."
"Tenho de ir à casa de banho," disse eu, levantando-me abruptamente.
"Não demore," disse ele com um piscar de olho.
Saí do bar, o meu coração a bater descontroladamente. O Senhor Bastos tinha-me vendido. A minha própria empresa tinha-me atirado aos lobos.
Ao sair para a rua, ofegante, vi-o. O Bentley preto de Duarte de Magalhães, parado do outro lado da rua, como um predador silencioso à espera na escuridão.
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