
O ar que ele respira.
Capítulo 2
Capítulo 2
Elizabeth
— Vamos mesmo pra casa? — perguntou Emma de manhã, sonolenta, quando a luz entrou pela
janela, iluminando seu rostinho. Tirei-a da cama, peguei Bubba, seu ursinho e companheiro de todas
as horas, e fiz os dois se sentarem na cadeira mais próxima. Bubba não era simplesmente um ursinho
de pelúcia, era um ursinho-zumbi. Minha garotinha era um pouco diferente, e, depois de assistir ao
Hotel Transilvânia, cheio de zumbis, vampiros e múmias, ela decidiu que adorava coisas estranhas e
assustadoras.
— Vamos, sim — respondi, sorrindo ao fechar o sofá-cama. Não consegui dormir a noite toda e
fiquei arrumando nossas coisas.
Emma estava com um sorriso bobo no rosto, igualzinho ao do pai.
— Oba! — exclamou, contando a Bubba que íamos para casa.
Casa.
Sentia uma pontada no coração cada vez que ouvia essa palavra, mas continuei sorrindo. Aprendi
que tinha que sorrir na frente de Emma, porque ela acabava ficando triste quando percebia que eu
estava mal. Nesses momentos ela me dava os melhores beijos de esquimó, mas esse era o tipo de
responsabilidade que ela não precisava ter.
— Acho que vamos chegar a tempo de ver os fogos no telhado. Lembra quando fazíamos isso
junto com o papai? Lembra, lindinha? — perguntei.
Ela estreitou os olhos, tentando se lembrar. Como seria bom se nossa mente funcionasse como um
grande arquivo e pudéssemos simplesmente reviver nossos momentos favoritos a qualquer instante,
escolhendo-os num sistema bem-organizado.
— Não lembro — respondeu ela, abraçando Bubba.
Aquilo partiu meu coração.
Continuei sorrindo mesmo assim.
— Que tal pararmos no mercado e comprarmos picolés para tomar enquanto vemos os fogos?
— E salgadinho pro Bubba!
— Claro!
Ela sorriu e deu um gritinho, animada. Dessa vez, meu sorriso foi de verdade.
Eu a amava mais do que ela poderia imaginar. Se não fosse por ela, com certeza já teria me
rendido ao luto. Emma salvou minha alma.
Não me despedi da minha mãe porque ela não voltou para casa depois do jantar com o
aventureiro da vez. Logo que me mudei, eu telefonava, preocupada, quando ela demorava a chegar,
mas ela acabava gritando comigo, dizendo que era adulta e sabia o que estava fazendo.
Deixei um bilhete:
Indo pra casa.
Amamos você.
Até breve.
E&E
A viagem durou horas no meu carro velho, e ouvimos a trilha sonora de Frozen tantas vezes que
cheguei a pensar em cortar os pulsos. Emma ouviu um milhão de vezes cada música e ainda incluiu
seu toque pessoal nos versos. Sinceramente, gostei mais da versão dela.
Assim que ela dormiu, dei um descanso também para Frozen, e o carro finalmente ficou
silencioso. Apoiei minha mão no banco do carona, esperando que outra a envolvesse, mas isso não
aconteceu.
Estou bem, dizia a mim mesma, repetidamente. Estou muito bem.
Um dia, isso seria verdade.
Um dia, eu ficaria bem.
Na entrada da rodovia I-64, meu estômago embrulhou. Queria muito que existisse outro caminho
para chegar a Meadows Creek, mas esta era a única via de acesso à cidade. O movimento na estrada
era grande por causa do feriado, mas o asfalto novo tornava a rodovia, que antes era toda esburacada,
mais segura. Meus olhos se encheram de lágrimas quando me lembrei do momento em que ouvi a
notícia.
Acidente grave na I-64!
Caos!
Tumulto!
Feridos!
Mortos!
Steven.
Uma respiração de cada vez.
Continuei dirigindo e não permiti que as lágrimas caíssem. Forcei-me a permanecer inerte; assim
não sentiria nada. Caso contrário, acabaria desabando, e eu simplesmente não podia fazer isso. Olhei
pelo retrovisor e encontrei forças ao ver minha filha. Chegamos ao final da estrada e respirei fundo
novamente. Eu me concentrava em uma respiração de cada vez. Não conseguia ir além disso; tinha a
sensação de que poderia sufocar com o ar.
Uma placa de madeira branca e bem polida anunciava: “Bem-vindos a Meadows Creek”.
Emma tinha acordado e estava olhando pela janela.
— Mamãe?
— Oi, querida.
— Acha que papai vai saber que a gente se mudou? Será que ele vai saber onde deixar as plumas?
Quando Steven faleceu e nós nos mudamos para a casa da mamãe, apareceram plumas brancas no
jardim. Emma perguntou o que eram, e mamãe respondeu que eram pequenos sinais dos anjos,
demonstrando que eles estavam sempre por perto cuidando de nós.
Ela adorou a ideia e, cada vez que encontrava uma pluma, olhava para o céu, sorria e sussurrava:
“Eu também te amo, papai.” Depois, tirava uma foto com a pluma e a colocava na caixa “Papai &
Eu”.
— Tenho certeza de que ele sabe onde nos encontrar, minha querida.
— Sim — concordou Emma. — Ele sabe onde nos encontrar.
As árvores pareciam mais verdes do que eu lembrava, e as lojinhas no centro de Meadows Creek
estavam enfeitadas de vermelho, azul e branco para o feriado da Independência. Era tudo tão
familiar e, ao mesmo tempo, tão diferente. A bandeira americana da Srta. Frederick tremulava ao
vento enquanto ela colocava pétalas de rosas secas no vaso. Era possível sentir seu orgulho patriótico
ao vê-la ali, admirando sua casa.
Ficamos paradas no único sinal de trânsito da cidade por uns dez minutos, o que não fazia
nenhum sentido. Enquanto aguardávamos, pensei em todas as coisas que me lembravam de Steven.
De nós. Quando o sinal abriu, pisei no acelerador, querendo chegar logo em casa para afastar as
sombras do passado. Assim que o carro começou a descer a rua, minha visão periférica captou um
cachorro vindo em minha direção. Pisei no freio bem rápido, mas a lata-velha demorou a parar.
Quando finalmente freou, ouvi um latido alto.
Meu coração quase saiu pela boca. Fiquei paralisada; parecia incapaz de respirar novamente.
Estacionei o carro de qualquer jeito, enquanto Emma perguntava o que estava acontecendo, mas não
dava tempo de responder. Abri a porta do carro, precipitei-me em direção ao pobre cachorro e vi um
homem correndo na mesma direção. Ele me encarava com um olhar desesperado, praticamente me
forçando a enxergar a intensidade de seus olhos azuis acinzentados. A maioria dos olhos azuis
parece trazer consigo um sentimento caloroso e gentil, mas não os dele. Os dele eram intensos, assim
como sua própria postura. Fria, reservada. Em torno de suas íris, era possível ver o azul profundo em
meio às manchas prateadas e pretas, que tornavam seu olhar ainda mais impenetrável. Lembrava as
sombras no céu quando uma tempestade estava prestes a cair.
Esse olhar me era familiar. Será que eu o conhecia? Jurava que já o tinha visto em algum lugar.
Ele parecia amedrontado e furioso ao se aproximar do cachorro, que imaginei ser dele, parado no
chão. Estava com um grande fone de ouvido no pescoço, conectado a alguma coisa na mochila.
Usava roupas de ginástica. A camisa branca de manga comprida acentuava os músculos dos
braços, o short preto deixava as pernas grossas à mostra, e o suor escorria de sua testa. Imaginei que
estivesse levando o cachorro para correr e acabou perdendo a coleira, mas ele não estava de tênis.
Por que estava descalço?
Não importava. Será que o cachorro estava bem?
Eu deveria ter prestado mais atenção.
— Desculpe, eu não vi... — comecei a dizer, mas ele soltou um grunhido ríspido, como se minhas
palavras o ofendessem.
— Que droga! Você só pode estar de sacanagem... — berrou de volta.
Sua voz me fez estremecer. Ele pegou o cachorro nos braços como se fosse seu próprio filho. Nós
nos levantamos ao mesmo tempo. Então ele olhou ao redor, eu também.
— Deixa eu levar vocês ao veterinário — sugeri, estremecendo ao ouvir o cachorro ganir nos
braços do homem. Sabia que não deveria ficar nervosa com seu tom de voz, pois não se deve julgar
alguém numa situação de pânico. Ele não respondeu, mas percebi hesitação em seu olhar. O rosto
era emoldurado por uma barba grossa, escura e indomada; sua boca estava escondida em algum
lugar daquela selva. Eu só podia confiar na história que seus olhos contavam.
— Por favor — insisti. — É muito longe para ir a pé.
Ele assentiu num gesto quase imperceptível, abriu a porta do carona e entrou com o cachorro no
colo.
Corri para dentro do carro e comecei a dirigir.
— O que aconteceu? — perguntou Emma.
— Vamos levar esse cachorrinho ao veterinário, querida. Está tudo bem. — Eu realmente
esperava não estar mentindo.
Em vinte minutos, chegamos à clínica veterinária mais próxima, que ficava aberta vinte e quatro
horas, e o percurso não foi exatamente o que eu esperava.
— Vire à esquerda na Cobbler Street — mandou ele.
— A Harper Avenue vai ser mais rápida — discordei.
— Você não sabe o que está fazendo. Entre na Cobbler! — gritou, irritado.
Respirei fundo.
— Eu sei dirigir.
— Sabe mesmo? Porque acho que esse é o motivo de estarmos aqui.
Eu estava prestes a jogar aquele idiota para fora do carro, mas o ganido do cachorro me impediu.
— Já me desculpei.
— Isso não ajuda meu cachorro.
Idiota.
— A Cobbler é a próxima à direita — insistiu.
— A Harper é a segunda.
— Não entre na Harper.
Ah, não? Acho que vou pegar a Harper só para irritar esse cara. Quem ele pensa que é?
Virei na Harper.
— Não acredito que você pegou a droga da Harper! — reclamou ele.
Sua raiva me fez sorrir, até o momento em que vi as obras e a placa de “rua fechada”.
— Você é sempre burra mesmo?
— E você é sempre... sempre... sempre... — gaguejei porque, ao contrário dele, eu não era boa em
discutir com as pessoas. Normalmente, engolia tudo e acabava chorando como uma criança, porque
as palavras não se formavam na minha cabeça com a mesma velocidade em que as brigas
aconteciam. Eu era uma idiota que só conseguia responder a um insulto três dias depois. — Você é
sempre... sempre...
— Sempre o quê? Fala logo! Use palavras! — exclamou ele, zombando.
Girei o volante e fiz o retorno para pegar a Cobbler.
— Você é sempre um...
— Vamos lá, Sherlock, você consegue — debochou.
— UM BABACA! UM PUTO! — berrei, entrando na rua que ele indicou.
O carro ficou em silêncio. Meu rosto ficou vermelho, e apertei o volante com força.
Assim que parei no estacionamento, ele abriu a porta sem dizer absolutamente nada, pegou o
cachorro e entrou em disparada na emergência. Fiquei na dúvida se não era melhor ir embora, mas
sabia que não ia me acalmar até ter certeza de que o cachorro ficaria bem.
— Mamãe? — chamou Emma.
— Sim, querida?
— O que é um puto?
Falha materna número 582 de hoje.
— Não é nada, amor. Eu disse “Pluto”. Como o cachorro do desenho.
— Então você chamou aquele moço de cachorro?
— Sim. Um cachorro grande e desengonçado.
— E o cachorrinho dele, vai morrer? — perguntou ela logo em seguida.
Espero que não.
Depois de tirar Emma da cadeirinha, entramos na clínica. O desconhecido estava esmurrando a
mesa da recepção. Ele falava algo, mas eu não conseguia escutá-lo.
A recepcionista foi ficando cada vez mais desconcertada.
— Senhor, só estou pedindo para preencher o formulário e informar um cartão de crédito. Do
contrário, não poderemos cuidar do seu bichinho. Além do mais, o senhor não pode entrar aqui
descalço, e sua atitude não está ajudando em nada.
O desconhecido deu outro murro na mesa e começou a andar de um lado para o outro, passando a
mão nos cabelos compridos e escuros e descendo-a até a nuca. Sua respiração estava pesada, seu
peito subia e descia em ritmo acelerado.
— E você acha que eu trouxe um cartão de crédito? Eu estava correndo, sua idiota! E se não vai
fazer nada, chame outra pessoa.
Assim como eu, a mulher recuou ao ouvir aquelas palavras e sentir sua raiva.
— Eles estão comigo — falei, caminhando até a recepção. Emma agarrou meu braço e apertou
Bubba. Abri a bolsa, peguei a carteira e entreguei um cartão para a moça.
— Você está com ele? — perguntou ela, num tom quase ofensivo, como se o estranho merecesse
ficar sozinho.
Ninguém merece ficar sozinho.
Vi que a raiva e a confusão não tinham desaparecido do olhar dele. Não queria prestar atenção,
mas aquela tristeza era muito familiar, e eu não consegui me afastar.
— Sim. Ele está comigo.
Ela continuou hesitante. Aproximei-me e perguntei:
— Algum problema?
— Não, nenhum. Só preciso que vocês preencham esse formulário.
Peguei a prancheta da mão dela e fui para a sala de espera.
A televisão estava ligada no Animal Planet. Havia um trenzinho de brinquedo em um canto e
Emma foi brincar com Bubba. O estranho continuava a me encarar daquele jeito frio e distante.
— Preciso de algumas informações — falei. Ele se aproximou devagar, sentou-se ao meu lado e
apoiou as mãos nas pernas.
— Qual é o nome dele? Do cachorro — perguntei.
Ele abriu a boca e hesitou, antes de falar:
— Zeus.
Sorri. Que nome perfeito para um labrador.
— E o seu?
— Tristan Cole.
Depois de terminar o formulário, entreguei tudo para a recepcionista.
— Pode debitar todas as despesas do Zeus no meu cartão.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Pode ficar caro — alertou ela.
— Pode cobrar.
Sentei-me ao lado de Tristan novamente. Ele começou a dar tapinhas de leve nas pernas, e
percebi seu nervosismo. Quando olhei para ele, estava me encarando com a mesma confusão de
quando nossos caminhos se cruzaram.
Tristan começou a murmurar algo e a esfregar as mãos uma na outra. Em seguida, colocou os
fones de ouvido e apertou o play.
Emma vinha de vez em quando perguntar se estava na hora de ir para casa, e eu dizia que iria
demorar mais um pouco. Antes de voltar a brincar com o trem, ela parou e olhou para Tristan.
— Ei, moço!
Ele a ignorou. Ela levou as mãos ao quadril.
— Ei, moço! Estou falando com você! — insistiu, batendo o pé no chão. Tristan olhou para ela.
— Você é um grande PLUTO!
Ai, meu Deus.
Alguém devia ter me proibido de ser mãe. Sou péssima nisso.
Estava prestes a dar uma bronca nela quando vi um pequeno sorriso se formar, rapidamente, por
trás da barba de Tristan. Era quase imperceptível, mas juro que vi seus lábios se moverem. Emma
tinha o dom de fazer as almas mais sombrias sorrirem. Eu era a prova viva disso.
Cerca de meia hora depois, o veterinário veio nos informar que Zeus ficaria bem. Só tinha alguns
ferimentos e uma fratura na pata dianteira. Agradeci, e ele se afastou. As mãos de Tristan relaxaram,
e ele ficou imóvel. De repente, seu corpo todo começou a tremer. Com um longo suspiro, o babaca
furioso desapareceu e deu lugar a um homem desesperado. Ele não conteve suas emoções e começou
a chorar e soluçar de forma incontrolável. As lágrimas caíam dolorosamente. Meus olhos ficaram
marejados, e juro que uma parte do meu coração compartilhou sua dor.
— Pluto! Pluto! Não chore — disse Emma puxando a camisa dele. — Está tudo bem.
— Está tudo bem — consolei-o, usando as mesmas palavras da minha doce garotinha. Pousei a
mão em seu ombro para confortá-lo. — Zeus vai ficar bem. Ele está bem. Você está bem.
Tristan virou a cabeça na minha direção e fez que sim, como se acreditasse em mim. Respirou
fundo e secou as lágrimas, balançando a cabeça para a frente e para trás. Estava tentando ao máximo
esconder seu constrangimento, sua vergonha.
Ele pigarreou e se afastou de mim. Ficamos longe um do outro até a hora em que o veterinário
liberou Zeus. Tristan segurou o cachorro nos braços. O animal estava muito cansado, mas mesmo
assim abanou o rabo e farejou o dono. Ele deu um sorriso e, dessa vez, pude vê-lo claramente. Foi
um grande sorriso de alívio. Se o amor fosse feito apenas de momentos, este com certeza era um
deles.
Não invadi seu espaço. Os dois saíram da clínica. Segurei Emma pela mão e os seguimos.
Tristan começou a caminhar com Zeus nos braços. Queria detê-lo, mas não tinha um motivo para
pedir que ele voltasse. Coloquei Emma na cadeirinha e fechei a porta. Levei um susto quando vi
Tristan bem perto de mim, me encarando. Não desviei o olhar. Minha respiração falhava, e tentei
recordar a última vez que fiquei tão próxima de um homem.
Ele chegou mais perto.
Não me mexi.
Ele respirou.
Respirei também.
Uma respiração de cada vez.
Isso era tudo que eu conseguia controlar.
Nossa proximidade fez com que eu sentisse um aperto no estômago. Já estava pronta para dizer
“de nada” ao “obrigado” que eu certamente ouviria.
— Vê se aprende a dirigir a droga do carro — esbravejou ele, furioso, antes de se afastar.
Nada de “obrigado por você ter pagado a conta do veterinário”, nem “obrigado por ter me trazido
até aqui”, e sim “vê se aprende a dirigir a droga do carro”.
Muito bem.
Com um sussurro, respondi ao vento que batia em meu rosto gelado:
— De nada, Pluto.
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