
O ar que ele respira.
Capítulo 3
Capítulo 3
Elizabeth
— Nossa, como demoraram a chegar! — reclamou Kathy, sorrindo, ao aparecer na porta da frente.
Não esperava que ela e Lincoln fossem nos receber, mesmo sabendo que eles não nos viam há muito
tempo e moravam a apenas cinco minutos da nossa casa.
— Vovó! — gritou Emma enquanto eu abria o cinto da cadeirinha. Ela pulou do carro e correu,
muito feliz, para a avó. Kathy pegou a neta no colo e a levantou para dar um abraço apertado. —
Voltamos, vovó!
— Eu sei! Estamos muito felizes — disse Kathy, beijando o rosto de Emma.
— Cadê o vovô? — perguntou, referindo-se a Lincoln.
— Tem alguém me procurando?
Lincoln saiu da casa. Ele aparentava ter bem menos que 65 anos. Sempre achei que Kathy e
Lincoln nunca iriam envelhecer, pois eram bem mais ativos do que qualquer pessoa da minha idade
e tinham o espírito muito jovem. Uma vez, tentei correr com Kathy durante trinta minutos e quase
morri. E ela ainda me disse que aquilo era só um quarto do que corria normalmente.
Lincoln tirou Emma do colo da esposa e jogou-a para cima.
— Ora, ora, ora, quem está aqui?
— Sou eu, vovô! Emma! — Ela riu.
— Emma? Não pode ser. Você é muito alta para ser a minha pequena Emma.
Ela balançou a cabeça e disse:
— Sou eu, vovozinho!
— Bem, acho que preciso de uma prova. Minha pequena Emma sempre me dava beijos especiais.
Sabe como são? — Emma encostou o nariz de leve nas bochechas dele, como se desse beijinhos de
esquimó em seu rosto. — Meu Deus, é você mesmo! O que estamos esperando? Trouxe picolés de
várias cores para você. Vamos entrar!
Lincoln olhou para mim e piscou carinhosamente. Os dois correram para dentro, e eu parei por
um segundo para olhar tudo à minha volta.
A grama estava alta, cheia de ervas daninhas e dentes-de-leão, que, segundo Emma, fazem nossos
desejos se tornarem realidade. A cerca que começamos a construir para evitar que ela invadisse a rua
ou o bosque nos fundos da casa ficou pela metade, pois Steven não teve tempo de terminá-la.
As tábuas brancas de madeira estavam arrumadas numa pilha ao lado da casa, esperando alguém
completar a tarefa. Olhei para o quintal e para as árvores que demarcavam nossa propriedade. Atrás
da cerca havia um grande bosque. Parte de mim queria correr ali, se perder naquela mata por horas.
Kathy se aproximou de mim e me envolveu num abraço bem apertado. Praticamente desmoronei
junto dela.
— Como você está? —perguntou.
— Ainda de pé.
— Pela Emma?
— Sim, pela Emma.
Kathy me abraçou mais uma vez.
— O jardim está uma bagunça. Ninguém veio aqui desde... — Ela não conseguiu terminar, e o
sorriso desapareceu de seu rosto. — Lincoln disse que vai cuidar de tudo.
— Não precisa. De verdade. Posso cuidar disso.
— Liz...
— É sério, Kathy. Eu quero fazer isso, quero reconstruir.
— Bom, se você quer mesmo... Pelo menos não é o pior jardim da vizinhança — brincou ela,
olhando para a casa do meu vizinho.
— Tem gente morando aí? — perguntei. — Achei que o Sr. Rakes nunca conseguiria vender a
casa depois daquela história de que o lugar era mal-assombrado.
— Pois é. Alguém finalmente a comprou. E olha, não sou de fazer fofoca, mas o cara que mora aí
parece meio estranho. Já ouvi dizer que ele está fugindo de alguma coisa que aprontou no passado.
— É mesmo? Acham que ele é um criminoso?
Kathy deu de ombros.
— Marybeth disse que ouviu falar que ele esfaqueou uma pessoa. E Gary me contou que ele
matou um gato que não parava de miar.
— Ah, não! Era só o que me faltava: ter um vizinho psicopata!
— Ah, tenho certeza de que você vai ficar bem. Você sabe, são só fofocas de cidade pequena.
Duvido que sejam verdade. Mas ele trabalha na loja do Henson, aquele excêntrico, então não deve
ser muito certo da cabeça. Não se esqueça de trancar as portas à noite.
O Sr. Henson era dono da loja Artigos de Utilidade no centro da cidade, e era uma das pessoas
mais esquisitas de que já tinha ouvido falar. Mas eu só conhecia sua excentricidade pelos
comentários dos outros.
Os moradores locais adoravam fofocar e ter uma vida típica de cidade pequena. As pessoas
estavam sempre ocupadas, mas ninguém fazia absolutamente nada.
Olhei para o outro lado da rua e vi três pessoas cochichando enquanto pegavam as
correspondências na caixa de correio. Duas mulheres caminhavam depressa, passando na frente da
minha casa, e eu as ouvi falar do meu retorno — elas sequer me cumprimentaram ou acenaram, mas
fizeram comentários sobre mim. Na esquina, vi um pai ensinando uma menininha a andar de
bicicleta pela primeira vez sem as rodinhas. Pelo menos foi isso que pensei.
Dei um leve sorriso. A vida numa cidade pequena era tão clichê. Todo mundo sabia da vida de
todo mundo, e as notícias corriam rápido.
Kathy sorriu e me trouxe de volta à realidade.
— Bem, trouxemos coisas para fazer um churrasco. Também abastecemos a geladeira, e você não
precisa se preocupar em fazer compras por, pelo menos, uma ou duas semanas. E já colocamos os
cobertores no telhado para assistirmos aos fogos, que devem começar daqui a pouco... — O céu se
iluminou de azul e vermelho. — Começou!
Olhei para cima e vi Lincoln se acomodando no telhado com Emma nos braços, gritando:
— Veja! Ah... — dizia ela cada vez que um dos fogos explodia. — Vem, mamãe! — chamou
Emma, sem tirar os olhos do céu colorido.
Kathy passou o braço pela minha cintura e me conduziu até a casa.
— Depois que Emma dormir, tenho algumas garrafas de vinho guardadas para você.
— Para mim? — perguntei.
— Para você. Bem-vinda de volta ao lar, Liz — disse ela, sorrindo.
Lar.
Eu me perguntei quando aquela pontada no peito iria desaparecer.
Lincoln foi colocar Emma na cama e, como estava demorando mais do que o normal, decidi dar
uma olhada neles. Toda noite ela dava trabalho para dormir, e eu tinha certeza de que estava fazendo
o mesmo com o avô. Fui até o corredor na ponta dos pés e não a ouvi gritando, o que já era um bom
sinal. Espiei dentro do quarto e vi os dois estirados na cama, dormindo, o pé de Lincoln do lado de
fora do colchão.
Kathy deu uma risadinha bem atrás de mim.
— Não sei quem está mais animado com o reencontro, Lincoln ou Emma.
Ela me levou até a sala, e lá nos sentamos diante das duas maiores garrafas de vinho que já tinha
visto na vida.
— Você está querendo me embebedar? — Eu ri.
— Se isso fizer você se sentir melhor, sim — respondeu ela, sorrindo.
Sempre fomos muito próximas. Depois de ser criada por uma mãe instável, conhecer Kathy foi
um verdadeiro bálsamo. Ela me recebeu de braços abertos e sempre me tratou muito bem. Quando
descobri que estava grávida, ela chorou mais do que eu.
— Estou me sentindo péssima por ter ficado tanto tempo longe — falei, bebendo um gole e
olhando na direção do quarto da Emma.
— Querida, sua vida virou de cabeça para baixo. Quando tragédias acontecem e há crianças
envolvidas, ninguém consegue raciocinar direito. Agimos da forma que nos parece ser a mais
correta. Você só tentou sobreviver e fez o melhor que pôde. Não fique se culpando por isso.
— Eu sei, mas acho que saí correndo daqui por minha causa, não por Emma. Ela sentiu falta de
tudo. — Meus olhos se encheram de lágrimas. — E eu deveria ter visitado você e Lincoln. Deveria
ter ligado mais. Sinto muito, Kathy.
Ela colocou as mãos no meu joelho.
— Querida, escute. São dez e quarenta e dois da noite, e a partir deste minuto você vai parar de se
culpar. Trate de se perdoar, porque tanto eu quanto Lincoln compreendemos tudo. Sabemos que
você precisava de um tempo. Não sinta como se devesse nos pedir perdão, você não nos deve nada.
Sequei as lágrimas que continuavam a cair e retruquei, envergonhada:
— Droga de lágrimas.
— Sabe o que faz com que elas parem de cair? — perguntou Kathy.
— O quê?
Ela colocou mais vinho na taça. Mulher inteligente.
Ficamos conversando e bebendo por horas, e quanto mais vinho, mais risadas. Eu tinha me
esquecido de como era gostoso rir. Ela perguntou sobre minha mãe, e não consegui disfarçar minha
expressão de desgosto.
— Ela ainda está perdida, andando em círculos e repetindo os mesmos erros. Às vezes, me
pergunto se as pessoas chegam a um ponto em que não conseguem dar a volta por cima. Acho que
isso pode ter acontecido com ela, e não sei se ela vai conseguir mudar.
— Você ama sua mãe?
— Sim, sempre. Mesmo quando não gosto dela.
— Então, não desista. Mesmo que você precise ficar longe por um tempo. Continue amando-a e
acreditando nela, mesmo que a distância.
— Como você se tornou tão sábia? — perguntei. Ela sorriu, levantou a taça na minha direção e
colocou mais vinho. Mulher muito inteligente. — Você poderia tomar conta da Emma amanhã?
Queria ir até a cidade procurar um emprego. Talvez perguntar ao Matty se ele não precisa de uma
ajudinha no café.
— Que tal se nós ficarmos com ela durante o final de semana? Seria ótimo se tirasse uns dias só
pra você. Podemos retomar nossa tradição de ficar com ela todas as sextas. Até porque não acredito
que Lincoln vá largá-la tão cedo.
— Vocês fariam isso por mim?
— Faremos o que você precisar. Além do mais, todas as vezes que vou ao café, Faye pergunta:
“Como vai minha melhor amiga? Ela já voltou?” Então acho que ela adoraria passar um tempo com
você.
Não via Faye desde a morte de Steven. Naquela época, conversávamos quase todos os dias, mas
ela entendeu que eu precisava de um tempo para mim. Sabia que ela entenderia que eu precisava da
minha melhor amiga para começar essa nova fase.
— Sei que talvez não seja o melhor momento, mas você pensou em reabrir seu negócio? —
perguntou Kathy.
Steven e eu tínhamos uma empresa de design, a Dentro & Fora, que abrimos há três anos. Ele
reformava a parte externa das casas, enquanto eu fazia projetos de decoração de interiores para
residências e empresas. Tínhamos uma loja no centro de Meadows Creek, e essa fase foi, com
certeza, uma das melhores da minha vida. Mas, na verdade, eram as habilidades de Steven que
sustentavam o negócio; ele era formado em administração de empresas. Eu nunca conseguiria cuidar
daquilo sozinha. Ter um diploma de designer de interiores em Meadows Creek significava trabalhar
em uma loja de móveis vendendo cadeiras absurdamente caras. Era isso ou voltar aos tempos da
faculdade e trabalhar como garçonete.
— Não sei. Provavelmente não. Acho que não consigo cuidar de tudo sem Steven. Só preciso
arrumar um emprego fixo e abrir mão desse sonho.
— Entendo, mas não tenha medo de sonhar com coisas novas. Você é muito competente, Liz, e
não deve desistir do que te faz feliz.
Depois que Kathy e Lincoln foram embora, me atrapalhei toda para fechar os trincos da porta da
sala, os quais Steven deveria ter trocado há tempos. Bocejando, parei na porta do meu quarto. A cama
estava arrumada, mas não tive força suficiente para entrar. Parecia uma traição deitar na cama e
fechar os olhos sem ele ao meu lado.
Uma respiração de cada vez.
Um passo.
Entrei e escancarei a porta do armário. As roupas de Steven estavam penduradas. Passei as mãos
por elas antes de começar a soluçar. Arranquei tudo dos cabides e joguei no chão, lágrimas
escorrendo pelo meu rosto. Abri as gavetas e tirei o restante das coisas: calças jeans, camisetas,
roupas de ginástica, cuecas. Tudo que pertencia a Steven estava no chão.
Deitei sobre a pilha de roupas e fiquei inspirando seu cheiro, fazendo de conta que ele ainda
estava ali. Sussurrei seu nome, como se ele pudesse me ouvir, e me agarrei às lembranças de seus
beijos e abraços. Lágrimas de dor brotavam do meu coração destroçado e, ao segurar sua camisa
favorita, me afundei ainda mais em meu sofrimento. Chorei como louca, como uma criatura que
sentia uma dor inimaginável. A dor tornou meus olhos inchados e vazios. Tudo em mim doía; tudo
estava destruído. E, à medida que o tempo passava, eu ficava ainda mais cansada dos meus próprios
sentimentos. Adormeci profundamente, vítima da serenidade nascida da minha terrível solidão.
Quando abri os olhos, ainda estava escuro lá fora. Uma linda garotinha estava deitada ao meu
lado com Bubba. Um pedacinho pequeno de seu cobertor a cobria, enquanto a maior parte estava
sobre mim. Sempre que uma coisa assim acontecia, eu me sentia um pouco como minha mãe. Eu me
lembrava de quando tive que cuidar dela e abrir mão da minha infância. Isso não era justo com
Emma. Ela precisava de mim. Eu me aconcheguei ao seu lado, beijei sua testa e prometi a mim
mesma que não desabaria novamente.
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