
O Aniversário da Traição
Capítulo 2
No dia do nosso terceiro aniversário de casamento, meu marido, Pedro, mandou-me uma mensagem.
"Eva, estou no hospital."
O meu coração parou por um segundo.
Liguei-lhe imediatamente, mas a chamada foi para o correio de voz.
Tentei de novo, e de novo, e de novo.
Finalmente, ele atendeu, mas a sua voz estava rouca e irritada.
"Estou ocupado agora, falo contigo mais tarde."
Antes que eu pudesse perguntar o que tinha acontecido, ele desligou.
A minha mente ficou em branco, e um medo terrível apoderou-se de mim.
Vesti rapidamente um casaco e corri para o hospital.
Enquanto conduzia, as minhas mãos tremiam no volante. Pedro e eu estávamos a tentar ter um filho há mais de um ano, e eu tinha acabado de descobrir que estava grávida há duas semanas.
Ainda não lhe tinha contado, queria fazer-lhe uma surpresa no nosso jantar de aniversário esta noite.
Agora, tudo o que eu sentia era pânico.
Corri para a receção do hospital, com a respiração ofegante.
"Estou à procura de Pedro Alves, ele deu entrada hoje."
A enfermeira verificou o sistema.
"Ele não está registado como paciente. Talvez esteja a visitar alguém?"
Senti um alívio momentâneo, mas a confusão tomou o seu lugar. Se ele não era o paciente, porque é que estava no hospital? E porque é que a sua voz soava tão estranha?
Liguei-lhe outra vez. Desta vez, ouvi uma voz de mulher ao fundo antes de ele atender.
"Onde estás? Estou na receção, não te encontro em lado nenhum", perguntei, a minha voz a tremer.
Houve uma pausa.
"Estou no quarto 302. A Lúcia sofreu um acidente."
Lúcia.
A sua ex-namorada.
A mulher que ele jurou que nunca mais voltaria a ver.
Senti o meu corpo ficar frio.
Caminhei lentamente até ao quarto 302, cada passo parecia pesar uma tonelada.
Através da pequena janela na porta, vi-o.
Pedro estava sentado na beira da cama, a segurar a mão de Lúcia.
Ela estava deitada, com a cabeça enfaixada e o rosto pálido, a olhar para ele com lágrimas nos olhos.
A cena era tão íntima, tão cheia de uma história partilhada, que eu me senti como uma intrusa.
Eu era a esposa, mas ali, naquele momento, eu era a estranha.
Abri a porta sem fazer barulho.
Nenhum deles me notou.
"Pedro, desculpa", sussurrou Lúcia, com a voz fraca. "Eu não te devia ter ligado. Agora a tua esposa vai ficar zangada."
Pedro afagou-lhe o cabelo suavemente.
"Não penses nisso. A tua saúde é o mais importante. A Eva é compreensiva, ela vai entender."
Ele disse isto sem sequer olhar para trás.
Ele presumiu que eu entenderia. Ele nem sequer considerou os meus sentimentos.
A raiva e a dor subiram pela minha garganta.
"Entender o quê?", perguntei, a minha voz mais alta do que eu pretendia.
Pedro sobressaltou-se e virou-se, o choque estampado no seu rosto.
"Eva? O que estás aqui a fazer?"
"O que estou eu aqui a fazer?", repeti, incrédula. "Tu disseste-me que estavas no hospital. Eu pensei que tinhas morrido!"
Lúcia encolheu-se na cama, começando a chorar mais alto.
"Vês? Eu disse-te. Agora ela está zangada. É tudo culpa minha."
Pedro franziu o sobrolho para mim.
"Eva, podes baixar a voz? Estás a assustá-la. Ela acabou de sofrer um acidente de carro, precisa de descansar."
Ele estava a defender-me dela.
Ele estava a pedir-me para ter calma, enquanto o meu mundo desabava.
"E eu?", perguntei, a voz a falhar. "E quanto a mim, Pedro? É o nosso aniversário."
Ele suspirou, um som de pura exaustão, como se eu fosse um fardo.
"Eu sei, Eva. Mas isto é uma emergência. Podemos celebrar noutro dia. A Lúcia precisa de mim agora."
"Ela precisa de ti?", ri amargamente. "Ela não tem família? Não tem amigos? Porque é que tem de ser tu, o seu ex-namorado casado, a cuidar dela?"
"Porque eu sou a única pessoa que ela tem aqui! A família dela vive noutra cidade!", ele retorquiu, a sua voz a subir. "Porque é que não consegues ter um pingo de empatia?"
Empatia.
Ele queria que eu tivesse empatia pela mulher que estava a tentar roubar o meu marido.
Olhei para o seu rosto, o rosto do homem que eu amava, e vi um estranho.
"Ok", disse eu, a minha voz subitamente calma. "Fica com ela. Cuida dela. Mas quando acabares, não te dês ao trabalho de voltar para casa."
Virei-me e saí, sem olhar para trás.
Eu podia ouvi-lo a chamar o meu nome, mas não parei.
A única coisa em que conseguia pensar era no pequeno segredo que eu carregava dentro de mim.
Um bebé que agora poderia nunca conhecer o seu pai.
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