
O acordo Irresistível - Série Destinos Entrelaçados
Capítulo 2
Capítulo 2
Uma Semana Antes...
25 de outubro de 2022
Lorenzo Moretti
Eu estava sentado no meu escritório em Lugano, cercado por um silêncio pesado. Diante de mim, o jornal estampado com o anúncio que eu já previa — mas que, mesmo assim, conseguiu me irritar mais do que eu gostaria de admitir.
O jornal estava sobre a mesa, aberto como uma provocação. As letras garrafais cravavam o anúncio como uma sentença:
"Giada Ravelli noiva de Stefano Ricci."
Estreitei os olhos, o maxilar travado, e fechei o punho com tanta força que senti os nós dos dedos estalarem. A madeira da mesa gemeu sob o impacto seco quando meus punhos a golpearam, mas o som foi insuficiente para abafar a raiva que borbulhava dentro de mim.
Giada. A mulher que conhecia cada detalhe da minha frieza. A mulher que tentou me domesticar com um amor que eu nunca prometi. O que tivemos foi um acordo. Frio, calculado, lucrativo. Um casamento por conveniência. Um ano. Nada mais. E mesmo assim, ela sonhou com flores, véu e maldito romantismo. Quando percebeu que meu nome jamais viria com um coração ao lado, ela saltou direto para os braços do funcionário mais patético do pai.
Stefano Ricci. Um cão que lambia o chão onde ela passava. E agora era o noivo oficial. O troféu de Giada. Uma tentativa desesperada de me atingir.
— Isso é patético — murmurei, chutando a cadeira para longe.
O som seco do meu murro ecoou pela sala, e Luciano, largado no sofá, quase derrubou o tablet ao saltar com o susto.
— Merda, Lorenzo! — Resmungou, erguendo-se com o cenho franzido. — Vai acabar destruindo a mesa. E você sabe que ela é da época do nosso avô... Nem sua raiva justifica destruir um móvel tão raro da nossa família.
Ele tentou rir, mas meu olhar fulminante o silenciou. Meus olhos estavam cravados no papel. Cada letra daquelas manchetes parecia pulsar.
— Giada não perde por esperar — murmurei, como se as palavras tivessem gosto de fel. — Noivar com o gerente de vendas do pai dela? Isso não é amor. É vingança. Stefano sempre a amou como um cão idiota que abana o rabo por qualquer migalha.
Luciano bufou, cruzando os braços. Seu olhar era irônico, mas não vazio. Ele me conhecia bem demais.
— Claro que é provocação. Ela queria você, Lorenzo. Mas você só queria o sobrenome dela, não o coração. A fusão das empresas em um casamento de apenas um ano sem amor. O resto era bônus, certo?
Deixei escapar um sorriso cínico, lento, afiado.
— Eu a satisfazia o suficiente. E fui claro desde o primeiro toque. Casamento por sentimento não estava nos meus planos. Ela aceitou, jogou o jogo. Agora não venha encenar que foi iludida.
— Será? — ele provocou, erguendo uma sobrancelha. — Porque agora ela está se casando com o “pobre coitado”. E você está com o jornal rasgado na mão e o ego ferido.
Me recostei na cadeira de couro, os dedos tamborilando no apoio de braço. A raiva me queimava por dentro, mas era controlada. Fria. Estratégica.
— Vou responder à altura. Ainda não sei como... mas ela vai sentir o gosto do próprio veneno.
Luciano deu uma risadinha maliciosa, jogando o tablet no sofá.
— Vai precisar de uma mulher à altura. Que queime o nome dela da sua pele. E de preferência, na frente de todos. Mas agora, voltemos ao meu convite de antes, que tal uma ida à Campione d’Italia? Antes de Mônaco. Uma distração. Uma ruína anunciada disfarçada de diversão.
O brilho nos olhos dele era quase diabólico. E eu sabia que ele já tinha algo em mente.
— Uma ruína... talvez seja exatamente isso que eu preciso.
Luciano riu e voltou sua atenção ao tablet, ele estava acostumado a frequentar estes lugares em busca de uma dose de luxúria para apagar seus problemas e agora era a minha vez.
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A boate em Campione d'Italia estava em chamas naquela noite, e não era pelas luzes vermelhas que pulsavam como batimentos cardíacos nas paredes de veludo. Era pela vibração densa no ar — uma mistura de uísque caro, perfume doce e lascívia envernizada. Ali, naquela penumbra carregada, os pecados não se escondiam. Dançavam à mostra, sem culpa ou vergonha.
Sentei-me numa mesa reservada, afastada, de onde eu podia ver tudo sem ser visto. Homens poderosos cercavam os melhores lugares, e as mulheres rodopiavam pelo palco como vultos de desejo. Era decadente, sim — mas de uma beleza cruel. A boate era um santuário para homens que não se contentavam com o permitido.
E então, ela surgiu.
Luna Calante.
O nome foi anunciado com reverência, e os murmúrios cessaram como se a sala segurasse o fôlego. A música mudou. Algo mais grave, mais lento, mais pecaminoso. Quando ela pisou no palco, meu corpo enrijeceu como se tivesse levado um choque.
Linda, com curvas sinuosas. A pele clara como porcelana sob as luzes avermelhadas. O rosto coberto por uma máscara negra, adornada com cristais discretos. Mas o que me atingiu, o que me fez apertar os dedos contra o braço da cadeira até os nós ficarem brancos, foi a forma como ela se movia.
Ela não dançava. Ela dominava.
O quadril balançava com precisão felina. O corpo deslizava como se flutuasse entre o sagrado e o profano. Cada movimento parecia calculado para provocar uma explosão silenciosa dentro dos homens ali presentes. Mas, para mim, era diferente. Eu não apenas observava. Eu sentia.
Senti a tensão subir como uma onda arrastando areia. Meu peito se expandiu como se faltasse ar, e o calor se acumulou entre minhas pernas com velocidade alarmante. Aquilo era mais que desejo. Era uma necessidade física, animal, primitiva. Quase dolorosa. Minha respiração ficou pesada. O tecido da calça parecia apertado demais. Me peguei ajustando a postura, tentando disfarçar a reação que o simples balé de Luna causava no meu corpo.
Ela girava com uma lentidão que beirava a tortura. As mãos percorriam a lateral das coxas, subiam, deslizavam sobre os seios cobertos de rendas escuras. Não havia vulgaridade. Só o tipo de sensualidade que fazia os homens esquecerem seus nomes. Uma dança silenciosa de domínio. Ela não pedia olhares — os exigia. E todos obedeciam. Inclusive eu.
Quando ela arqueou o corpo, jogando os cabelos para trás, senti o uísque amargar na garganta. Minha boca estava seca. Minhas pupilas dilatadas. Meu corpo gritava por ela. O controle que eu costumava carregar como uma armadura havia derretido sob a imagem daquela mulher.
Era uma maldição. Uma deusa caída. E eu estava completamente à mercê.
Luciano havia sumido, como sempre, atrás de diversão. Mas eu não conseguia me mover. Nem piscar. A cada curva, a cada roçar de coxa, era como se ela dançasse para mim — mesmo sem me ver. Mesmo sem saber meu nome. Era pessoal. Era íntimo. Era enlouquecedor.
E o pior... ela nem precisava tentar.
Quando a música terminou, meu corpo ainda latejava. O ar parecia mais pesado. Meu desejo por ela não era suave. Era um soco. Uma dor. Uma obsessão nascendo com pressa demais.
Chamei o garçom, sem tirar os olhos dela.
— Quero contratá-la para uma dança privada.
— Senhor — ele respondeu, com um tom diplomático —, ela já está ocupada esta noite.
Fiz um gesto sutil com a mão, dispensando-o. Não insisti. Não imploraria por algo que em breve seria meu por completo.
Peguei o celular e, sem hesitar, digitei a mensagem para Dario:
“Luna Calante. Dançarina no Moulin Rouge, Campione d’Italia. Já tenho o cenário. Agora quero o enredo. Nome verdadeiro, histórico completo. Onde mora, com quem se deita, quem protege, do que foge, o que deseja. Quero tudo. Nos mínimos detalhes. E quero para ontem.”
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Dias depois, no banco traseiro do meu carro, com a garrafa de uísque escorada ao meu lado e os vidros levemente embaçados pela umidade da noite, abri o envelope preto como se estivesse violando algo sagrado. A primeira coisa que me atingiu foi o nome impresso em letras secas, sem adornos, cru como a realidade que ela carregava: Malena Bossi. Vinte e dois anos.
Fechei os olhos por um instante, sentindo meu maxilar travar diante da informação. Ela era dez anos mais nova. Uma diferença que, para muitos, importaria. Para mim? Só intensificava a sensação de que ela não deveria estar naquele maldito palco. Tão jovem e já sobrevivendo como uma veterana da dor. Mas ao abrir as imagens anexadas, o impacto foi ainda mais profundo. Os olhos dela — mesmo fora da máscara, mesmo sem o palco ou a maquiagem — ainda carregavam aquela mesma presença magnética que me arrebatou no instante em que a vi. Havia algo nela que ultrapassava beleza. Era força disfarçada de rendição. Orgulho por trás da necessidade.
O relatório era minucioso. Durante o dia, Malena trabalhava em uma cafeteria modesta no centro de Campione. À noite, se transformava em Luna Calante — a stripper mais desejada da boate. Ocasionalmente, aceitava acompanhamentos privados, restritos a poucos clientes. Nenhum luxo. Apenas sobrevivência. Mas o que me atingiu como um punhal foi o parágrafo final: cuida sozinha da mãe, internada num hospital público, e possuía muitas dívidas. Todas as suas escolhas tinham um nome: urgência.
Senti um gosto metálico na boca. Não de culpa. Nunca de culpa. O que crescia em mim era fúria. Não contra ela. Contra o mundo que exigia que uma mulher como aquela — com aqueles olhos, aquele corpo e aquela postura de rainha em ruínas — tivesse que vender tempo, toque e pele para manter os que ama vivos. Malena era um poema torto e eu queria reescrevê-la com minhas próprias mãos. Do meu jeito.
Poderia ter fechado o dossiê ali e esquecido. Era o lógico a fazer. Era o racional. Mas desde quando minha obsessão seguia regras?
Tomei um gole do uísque, sentindo o líquido descer rasgando a garganta, e deixei que o calor me queimasse por dentro. Meu olhar voltou às fotos como se estivesse olhando para algo que já era meu, mesmo sem tê-la tocado. A ideia de outro homem colocando as mãos nela me fez cerrar os punhos. O simples pensamento de vê-la sorrindo para alguém que não fosse eu, me gerou uma raiva primitiva, possessiva. Não era só desejo. Era necessidade de domínio. E proteção. As duas coisas misturadas como um veneno doce.
Abri a porta do carro e respirei o ar frio da noite, tentando afastar o peso daquela descoberta. Mas já era tarde. Ela tinha se instalado em mim como uma febre, como uma maldição. E eu não queria cura.
Naquela noite, eu não queria apenas vê-la dançar de novo. Eu queria tomá-la para mim. Raptá-la daquele mundo sujo. Cercá-la de tudo o que ela nunca teve, conforto, luxo, segurança. Mas, acima de tudo, queria gravar meu nome na pele dela. Queria que ela soubesse que não estava mais sozinha. Porque agora... ela era minha.
E se o mundo ousasse tentar arrancá-la de mim, então seria o mundo a sangrar primeiro.
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