
Nove Escolhas, Um Adeus Final
Capítulo 2
Ponto de Vista: Alessa
"Que diabos foi isso?" A voz de Ricardo me seguiu porta afora, mas eu não parei.
A risada de Sofia, leve e desdenhosa, veio logo depois. "Ah, não se preocupe com ela, Ric. Está só fazendo drama. Agora, sobre aquela viagem para Trancoso que você me prometeu..."
Os passos dele não me seguiram. Claro que não. Ele já era dela novamente, assim como sempre foi.
O ar fresco da noite era bom no meu rosto. Pela primeira vez em quatro anos, o peso esmagador no meu peito se dissipou. Estava quieto. Pacífico.
Apertei minha bolsa, as bordas nítidas dos papéis assinados uma presença sólida e reconfortante. Liberdade.
Ele chegou em casa tarde, muito depois que a galeria fechou e Sofia foi levada para onde quer que quisesse ir. Eu estava no nosso quarto, fazendo uma pequena mala.
Ele me abraçou por trás, o queixo apoiado no meu ombro. Era um gesto familiar, um que costumava me fazer sentir segura.
Agora, parecia uma jaula.
“Desculpe o atraso,” ele murmurou no meu cabelo. “A Fia estava um caco. Ela se sentiu tão culpada por... você sabe.”
Eu não respondi.
Ele suspirou, seu aperto se intensificando. “Você ainda está brava por hoje à noite?”
Uma risada seca e sem humor escapou dos meus lábios. “Brava? Não, Ricardo. Não estou brava.”
Ele me virou para encará-lo, a testa franzida em confusão. Ele estava tão acostumado com minhas lágrimas, minhas súplicas silenciosas. Ele não sabia como lidar com esse vazio calmo. “Então o que há de errado?”
“Estou apenas cansada,” eu disse, olhando para além dele, para a vida que estava prestes a deixar para trás. “Cansada de ser o prêmio de consolação.”
“Isso não é justo, Alessa. Você sabe o acordo que tínhamos com a Sofia. Acabou agora. As nove despedidas terminaram. Agora é a nossa vez.”
Minha vez. Como se eu fosse um jogo que ele finalmente decidiu jogar.
“Não,” eu disse, minha voz impassível. “Acabou.”
Tirei o documento dobrado da minha bolsa e o estendi para ele.
Ele pegou, seus olhos percorrendo o texto legal. Observei seu rosto mudar. A confusão se transformou em incredulidade, depois em uma raiva sombria e crescente. O papel tremia em sua mão.
“O que é isso? É uma piada, certo?” ele exigiu, sua voz baixa e perigosa.
“Você assinou há uma hora, Ricardo. Estava tão ansioso para agradá-la que nem leu o que estava concordando.”
Ele encarou a linha da assinatura, seu próprio rabisco descuidado. “Ela me enganou.”
“Enganou,” eu concordei. “Mas você deixou. Você sempre deixa.”
Por anos, eu o ouvi defendê-la. *“Ela é frágil, Alessa.” “Ela passou por muita coisa.” “Ela não quis dizer isso.”* Ele tinha um suprimento infinito de desculpas para a crueldade dela, e nem uma única palavra de conforto para a minha dor.
Ele a escolheu. Todas as vezes. Ele a escolheu em vez do nosso aniversário, da minha família, da minha saúde, do meu trabalho. Ele a escolheu quando eu implorei para ele ficar, e ele a escolheu quando eu fiquei em silêncio.
A cama não estava feita. Eu nunca deixava a cama desfeita. Era um dos pequenos rituais domésticos que definiram nossa vida juntos. Outra mentira.
Naquela noite, ele dormiu no quarto de hóspedes.
Na manhã seguinte, continuei a fazer as malas. Minha vida cabia em duas malas. Todo o resto nesta casa parecia pertencer a ele, ou ao fantasma dela que assombrava cada cômodo.
No fundo do meu armário, guardado em uma caixa de joias, eu o encontrei. Um brinco de diamante, cafona e solitário. Da Sofia. Ela sempre deixava pedaços de si mesma para trás, marcando seu território.
Peguei o colar combinando que Ricardo me deu no nosso segundo aniversário. Parecia pesado na época, uma corrente de obrigação. Agora parecia apenas barato. Contaminado.
A casa inteira parecia contaminada. Cada móvel, cada quadro na parede, era um monumento à minha tolice.
Olhei para os projetos da minha nova galeria, espalhados pela mesa de jantar. Isso era meu. Eu construí com minhas próprias mãos, meu próprio olho para o talento. Era a única parte da minha vida que Ricardo não conseguiu tocar.
Enviei uma mensagem para meu advogado, dissolvendo a empresa de consultoria que me conectava ao Grupo Moretti, o império imobiliário da família de Ricardo. Mais um laço cortado.
Meu celular vibrou. Era uma mensagem da minha amiga, Angie. Ela era jornalista, do tipo que sempre sabia das coisas. *Você deveria vir ao evento de ex-alunos hoje à noite. Pode ser... esclarecedor.*
Eu planejava faltar. A ideia de encarar aquela multidão de víboras sorridentes me dava arrepios. Mas a mensagem de Angie continha um aviso.
Sofia estava lá, claro. Ela reinava, um círculo de admiradores pendurado em cada palavra sua. Parecia uma predadora que acabou de encurralar a presa.
"E então, vocês acreditam, o Ricardo simplesmente a deixou no acostamento da estrada," Sofia dizia, sua voz em tom de máximo drama. "Ele disse que não suportava me ouvir tão assustada. Veio direto para mim. Ele sempre foi meu herói."
Uma mulher que reconheci, Bianca Costa, suspirou sonhadora. "Ele é tão devotado a você, Fia. Sempre foi."
Sofia encontrou meu olhar e me deu um pequeno sorriso de pena. "Oh, Alessa, querida. Aí está você."
Ela deslizou até mim, seu perfume enjoativo e sufocante. "O Ricardo estava tão preocupado com você. Ele me disse que se sente péssimo sobre como... você tem andado emotiva ultimamente."
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