
Noiva Abandonada, Arquiteta Renascida
Capítulo 2
O salão de festas estava perfeitamente decorado, exatamente como eu sonhei por meses, mas o silêncio era pesado, anormal.
Os convidados cochichavam entre si, seus olhares se alternando entre mim, parada ao lado do altar vazio, e a porta de entrada, esperando por um noivo que não voltaria.
Eu estava vestida de noiva, o vestido branco que escolhi com tanto carinho agora parecia uma fantasia ridícula.
Meu celular vibrou na pequena bolsa que minha madrinha segurava. Era minha mãe.
Sua voz soou apressada, sem nenhum pingo de culpa.
"Sofia, sua irmã Luna acabou de pousar. O voo dela adiantou! Estamos todos indo para o aeroporto buscá-la. O Gabriel está vindo com a gente."
Ela não perguntou, ela afirmou.
"O casamento pode esperar um pouco, né? É a Luna, ela voltou da Europa!"
A ligação terminou antes que eu pudesse dizer uma única palavra.
Meu coração não acelerou, não senti as lágrimas que todos esperavam, apenas um vazio frio e familiar se instalou no meu peito. Era a decepção, a velha conhecida.
Minha madrinha, a única amiga que ficou ao meu lado, me mostrou seu celular com uma expressão de pena.
Na tela, uma foto recém-postada no Instagram.
Luna, sorrindo radiante no saguão do aeroporto, cercada pela minha família. Meu pai, minha mãe, meu irmão mais velho, Lucas. E ao lado dela, com um braço possessivo em volta de sua cintura, estava Gabriel. Meu noivo.
A legenda da foto dizia: "Reunião de família! Finalmente nossa princesinha voltou pra casa!"
Ninguém parecia se lembrar que estavam deixando uma noiva no altar.
Tentei ligar para o Gabriel. A chamada foi direto para a caixa postal.
Liguei para o meu pai. Ele atendeu, impaciente.
"O que foi, Sofia? Estamos quase chegando em casa com a Luna, ela está exausta da viagem. Não crie problemas."
"Pai, e o casamento?" minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
"Ah, isso," ele disse, como se estivesse falando do tempo. "A gente remarca. Qual o problema? Sua irmã voltou, isso é mais importante. Não seja egoísta."
E desligou.
Egoísta. A palavra ecoou no salão silencioso, onde os convidados começavam a ir embora, alguns com olhares de pena, outros com sorrisos mal disfarçados.
A humilhação era pública, esmagadora.
Eu era a piada do dia. A noiva abandonada pela família e pelo noivo por causa da irmã mais nova.
Com uma calma que assustou até a mim mesma, peguei o microfone do cerimonialista.
"Obrigada a todos por virem," minha voz soou clara e sem tremor. "A festa acabou. Podem aproveitar o buffet."
Fui para casa, ainda usando o vestido de noiva. O táxi me deixou em frente à casa grande e vazia. A casa dos meus pais, onde eu ainda morava.
Entrei no meu quarto, abri a gaveta da minha escrivaninha e peguei um pequeno caderno de capa preta.
Abri na última página.
Com uma caneta, escrevi:
"99. Fui abandonada no altar no dia do meu casamento porque minha irmã voltou de viagem."
Fechei o caderno. Noventa e nove decepções. Eu tinha prometido a mim mesma que aguentaria até a centésima. Mas noventa e nove já era o suficiente.
O amor deles, eu não queria mais.
Sentei no computador, preenchi o formulário de intercâmbio para a faculdade de arquitetura em Portugal, que eu havia adiado por causa do casamento.
Enviei.
Abri o guarda-roupa e comecei a fazer as malas.
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