
Noiva Abandonada, Arquiteta Renascida
Capítulo 3
O som da porta do meu quarto se abrindo com um estrondo me fez pular.
Meu noivo, Gabriel, entrou sem bater, seu rosto uma mistura de irritação e cansaço. Ele nem olhou para mim, seus olhos correram pelo quarto e pararam nas malas abertas sobre a minha cama.
"O que é isso? Que drama é esse agora, Sofia?"
Ele se aproximou e pegou o caderno preto que eu havia deixado sobre a escrivaninha. Ele o folheou, suas sobrancelhas se franzindo em desdém.
"Que porcaria é essa? 'Lista de decepções'?", ele leu em voz alta, rindo. "Você tem tempo pra isso? Para de ser tão infantil."
Sua mão, descuidada, esbarrou na maquete que eu passei semanas construindo para o meu projeto final da faculdade. Era um centro comunitário, meu projeto dos sonhos.
A estrutura delicada caiu no chão, se partindo em dezenas de pedaços.
Eu olhei para os destroços do meu trabalho, o símbolo de tantas noites em claro, e não senti nada. Apenas um silêncio interior.
Gabriel nem pediu desculpas. Ele chutou um pedaço da maquete para o lado com o pé.
"Para com essa cena. Sua irmã chegou, você deveria estar feliz. Em vez disso, fica aqui deprimida, criando problema."
A porta se abriu de novo. Era minha mãe. Ela também parecia irritada.
"Sofia, pare de se trancar aqui e venha fazer o jantar para sua irmã. Ela disse que estava com saudades da sua comida."
Não era um pedido, era uma ordem.
Eu sempre fui a cozinheira da casa, a faz-tudo. Luna era a princesa que só precisava existir e ser admirada.
"Ela está cansada," minha mãe continuou, sua voz se suavizando ao falar de Luna. "Coitadinha, a viagem foi longa. Faça aquele prato de camarão que ela gosta."
Eu olhei para a minha mãe, depois para Gabriel, e assenti lentamente.
"Tudo bem."
Minha calma pareceu confundi-los. Eles esperavam lágrimas, gritos, uma briga. Não uma aceitação silenciosa.
Gabriel me olhou com desconfiança.
"O que você está tramando, Sofia? É melhor não inventar nada para magoar a Luna."
Minha mãe concordou, com um olhar de aviso.
"Sua irmã é sensível. Depois de tanto tempo fora, ela precisa de paz. Não seja a pessoa a estragar isso."
Eu não respondi. Apenas me levantei, desviei dos destroços da minha maquete no chão e saí do quarto em direção à cozinha.
A calma não era resignação. Era o fim.
Eu já tinha saído daquela casa, daquela família, daquele relacionamento. Meu corpo ainda estava ali, mas minha alma já estava a milhares de quilômetros de distância.
Eles não perceberam. Para eles, eu ainda era a mesma Sofia boba e carente de sempre, a peça de mobília que podiam usar e ignorar como quisessem.
Eles não tinham a menor ideia do que estava por vir.
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